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Museu da Coreia do Norte contra os EUA fala até de canibalismo americano

 Sebastien Berger/AFP
Escultura no museu de Sinchon, na Coreia do Norte, mostra soldados americanos observando um sul-coreano matar um norte-coreano Imagem: Sebastien Berger/AFP

Em Sinchon (Coreia do Norte)

11/06/2018 09h46

Os visitantes se sucedem na "Praça do Juramento da Vingança", no museu norte-coreano onde, segundo a propaganda do regime, as tropas americanas massacraram mais de 35.000 pessoas durante a Guerra da Coreia. Sejam estudantes, militares, ou operários, todos seguem o mesmo ritual diante de um afresco com a frase "Expulsemos os americanos e reunifiquemos a Nação!". Um voluntário sai da fila, lança uma diatribe contra os Estados Unidos e os membros do grupo respondem com os punhos fechados: "Esmaguemos! Esmaguemos! Esmaguemos!"

O ódio aos Estados Unidos é um pilar da República Popular Democrática da Coreia (RPDC), nome oficial da Coreia do Norte, e o regime sempre considerou seu arsenal nuclear um seguro de vida ante as ameaças americanas.

O líder norte-coreano, Kim Jong Un, se reunirá na próxima terça-feira em Singapura com o presidente americano, Donald Trump. Neste encontro histórico se falará provavelmente de desnuclearização, o que levanta uma questão: alcançar a paz com o inimigo não minaria a legitimidade do Partido dos Trabalhadores da Coreia?

A dinastia dos Kim, que reina há três gerações em Pyongyang, baseia sua autoridade no papel do patriarca Kim Il Sung na luta para libertar a península do jugo colonial japonês durante a primeira metade do século 20.

Canibalismo 

A história oficial afirma que esta busca por liberdade foi interrompida pela decisão de americanos e soviéticos de dividir a Coreia após a derrota japonesa de 1945, e depois pela coalizão entre as Nações Unidas e Estados Unidos, quando o Norte tentou reunificar a Coreia à força, invadindo o Sul em 1950.

O Norte segue alimentando a demonização dos Estados Unidos e do Japão por meio de livros, filmes e lugares como este museu das atrocidades de guerra americanas em Sinchon, a cerca de 30 quilômetros da capital, Pyongyang. A agência oficial KCNA afirma que a cada ano o museu recebe meio milhão de visitantes.

Em seu interior há quadros que representam os horrores supostamente cometidos por militares americanos contra civis que suportam a tortura com valentia. Pode-se ver verdugos introduzirem pregos no crânio de mártires, esmagarem suas cabeças, ou cortarem o seio de uma mulher.

O guia Ri Kum Ju afirma que os americanos cometeram até mesmo canibalismo: "Mataram pessoas individualmente com uma brutalidade que supera a imaginação humana, arrancando seus olhos, queimando seus corpos, cortando as peles em pedaços para comê-las após salgá-las".

Sebastien Berger/AFP
Norte-coreanos lotam o museu todos os anos Imagem: Sebastien Berger/AFP

"Desconectado da realidade"

Uma versão problemática. Independentemente do que tenha acontecido em Sinchon em 1950 (os detalhes e o balanço são desconhecidos), os pesquisadores independentes afirmam que não há provas de que seja obra dos americanos.

Segundo o historiador Adam Cathcart, da Universidade de Leeds, a primeira unidade estrangeira a chegar ao local era britânica e a cidade carecia de interesse para as forças aliadas, comandadas pelos Estados Unidos, e inclusive para os sul-coreanos, que avançavam rapidamente em direção a Pyongyang.

Ninguém põe em dúvida que tenham sido cometidas atrocidades durante a guerra que causou milhões de mortos em três anos. Cathcart dá conta de represálias no setor de Sinchon no outono de 1950 entre os comunistas e seus inimigos. "É um assunto de coreanos que matam coreanos no nevoeiro da guerra, mas não um tentativa dos americanos de erradicar os comunistas de um distrito com métodos medievais", assegura.

A forma como o Norte apresenta Sinchon está "completamente desconectada da realidade da guerra", declara à AFP, mas permite difundir a "propaganda antiamericana".

'Lobos com rosto humano' 

No museu, o septuagenário Ju Sang Won conta como seu pai, que sobreviveu à explosão de um depósito de munições onde haviam juntado centenas de pessoas, foi desmembrado. "Os imperialistas americanos são uma manada de lobos com rosto humano", afirma. "Temos que combater até o fim os bastardos americanos", afirma.

É possível que Trump e Kim falem de um tratado de paz para substituir o armistício de 1953. O problema é que, sem o argumento contra o "imperialismo americano", Pyongyang terá dificuldades para "explicar, de um ponto de vista ideológico, aos norte-coreanos porque a península segue dividida", estima Robert Kelly, da Pusan National University.

Uma opinião da qual outros especialistas discordam. "Com os exemplos da China e do Vietnã vimos como a propaganda comunista soube se emancipar das diatribes antiamericanas", afirma John Delury da Yonsei University. "Os dois sistemas 'sobreviveram' ao fato de não ter mais os Estados Unidos como inimigo do Estado".

Por enquanto não se observam mudanças de mentalidade. "Continuarei inculcando aos meus estudantes a consciência da natureza brutal dos imperialistas americanos", promete perto do museu Jang Yun, vice-diretor de uma escola de educação primária. "Meu espírito de revanche é cada vez mais forte", acrescenta.

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