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Cannes entra na reta final com menino-herói, cabeleireiro de cães e pornô gay

Cena do filme "Un Couteau Dans  le Coeur" - Reprodução
Cena do filme "Un Couteau Dans le Coeur" Imagem: Reprodução

Cannes (FRA)

18/05/2018 15h23

O Festival de Cannes entrou em sua reta final com uma história heroica de um menino de rua em Beirute - interpretado por um refugiado sírio -, "Dogman", do italiano Matteo Garrone, e um filme sobre o pornô gay.

Em "Cafarnaúm", da libanesa Nadine Labaki, um menino de 12 anos, Zain, denuncia seus pais à justiça por terem o trazido ao mundo e não serem capazes de criá-lo. Seus progenitores maltratam ele e seus muitos irmãos, e só querem que contribua com a economia familiar com trabalhos precários.

Quando seus pais casam sua irmã de 11 anos, Zain se refugia na casa de Rahil, uma imigrante clandestina da Etiópia, que lhe pedirá que cuide de seu bebê enquanto ela trabalha.

Zain, que as ruas transformaram em um sobrevivente em meio à miséria, se encarrega do bebê, em uma favela onde não há sequer água potável.

"Este menino de rua que vejo, quando desaparece, aonde vai? O que acontece com ele? Onde estão seus pais? Como é sua vida? Era isto que me interessava", explicou a diretora libanesa à AFP pouco antes do Festival de Cannes.

"Através deste filme, tentei dar voz a estas crianças", disse a diretora e atriz, que se tornou conhecida com "Caramelo" (2007) e que em 2014 participou do filme coletivo sobre o Rio de Janeiro "Rio, eu te amo".

Uma revelação

Este menino abandonado é interpretado por Zain Al Rafeea, um refugiado sírio de 13 anos que vive em Beirute e que a diretora encontrou na rua brincando com outras crianças.

Durante as gravações, "era mais mimado que na casa de meus pais", disse Zain na coletiva de imprensa, pouco antes de pegar no sono diante das câmeras, enquanto o resto da equipe respondia às perguntas.

O público da exibição se rendeu ante sua atuação. "O jovem Rafeea é uma revelação", disse Jay Weissberg, crítico da Variety.

Cena do filme "Cafarnaúm" - Reprodução - Reprodução
Cena do filme "Cafarnaúm"
Imagem: Reprodução

Um dia antes do júri, presidido por Cate Blanchett, conceder a Palma de Ouro, "Cafarnaúm", um dos três filmes dirigidos por mulheres entre os 21 na competição, lidera a corrida para o prêmio máximo.

Entre os favoritos se destacam também "Shoplifters", do japonês Hirokazu Kore-Eda, um complicado drama familiar com duas crianças no centro da história, a fábula com toques simbólicos "Lazzaro felice", da italiana Alice Rohrwacher, e "Burning", um thriller sinuoso do sul-coreano Lee Chang-dong.

Para o prêmio de melhor interpretação masculina, soa com força o nome do ator italiano Marcello Fonte, que interpreta um modesto cabeleireiro de cães em "Dogman". No filme, este homem simples, que também faz pequenos negócios com cocaína, se vê confrontado com um ex-boxeador sem escrúpulos e viciado em drogas.

Coprodução mexicana

"Para mim, Marcello é uma espécie de Buster  Keaton dos tempos modernos, quase um ator do cinema mudo", disse Garrone sobre seu ator. Na quinta-feira à noite foi apresentado "Un  Couteau Dans  le Coeur", do francês Yann  González, sobre uma produtora de filmes pornô gays, interpretada por Vanessa Paradis.

O filme, uma coprodução francesa, mexicana e suíça, é um thriller onírico e erótico que presta homenagem aos filmes B, segundo seu diretor. O elenco conta com o mexicano Noé Hernández, "um ator louco, ultrainventivo, ultradivertido", nas palavras de González na coletiva de imprensa do filme.

O fato de contar com financiamento mexicano supôs também que técnicos desse país participassem na filmagem francesa. "Tudo isto foi muito benéfico para o filme", afirmou o diretor.

Nesta sexta-feira também foi apresentado "Ayka", do cazaque Sergey Dvortsevoy, um retrato cru de uma jovem quirguiz sem documentos na Rússia que se vê obrigada a abandonar seu filho.