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Inovador, dândi e fã de Zola: quem foi Tom Wolfe, cronista de costumes

Fernando Leon/AFP/Getty Images
Tom Wolfe em imagem de 2012 Imagem: Fernando Leon/AFP/Getty Images

De Nova York (EUA)

15/05/2018 18h17

Criador do "novo jornalismo", escritor que mergulhou tardiamente no romance com o best-seller "A Fogueira das vaidades", o escritor Tom Wolfe radiografou a sociedade americana com um estilo inovador e cheio de cor.

Seus ensaios e romances refletem a leitura assídua do sociólogo alemão Max Weber.

Segundo Wolfe, "o estatuto de um indivíduo na sociedade, sua permanência em uma classe social e cultural, determinam quem é, a forma como pensa e se comporta, muito mais do que sua psicologia pessoal e sua história íntima".

Wolfe mesmo nunca buscou se rebelar contra seu próprio meio, a burguesia branca e conservadora do sul dos Estados Unidos.

© Conde Nast
Wolfe fotografado por Irving Penn em 1966 Imagem: © Conde Nast

O jornalista dândi

Dândi educado e refinado com seus ternos brancos ou creme, colarinhos engomados, chapéu fedora e polainas, brincava ao dizer que era o único escritor americano que votou em George W. Bush em 2004.

Casado desde 1978 com Sheila Berger, diretora artística da revista Harper's, e pai de dois filhos, levava uma vida discreta em Manhattan, longe dos escândalos que povoaram seus romances.

Filho de um engenheiro agrônomo, Thomas Kennerly Wolfe Jr nasceu em 2 de março de 1930 em Richmond, Virgínia.

Aceito na prestigiosa Universidade de Princeton, preferiu a Universidade Washington & Lee para permanecer perto dos pais, antes de partir para Yale, seguindo o conselho de seus professores.

Formado em civilização americana, começou no jornalismo no "Springfield Union", um jornal de Massachusetts, em 1956. Dois anos depois, ingressou no "The Washington Post" como correspondente em Havana, e depois na capital americana.

AP Photo
O escritor em 1986 Imagem: AP Photo

Um estilo próprio

Pediu demissão em 1962 e se mudou para Nova York para trabalhar como freelancer. Foi enviado para a Califórnia pela revista "Esquire" para fazer uma reportagem sobre os fãs de automóveis que reconstroem seus carros.

Entusiasmado pelo tema, sofreu com a "síndrome da página em branco" quando precisou escrever a matéria. O chefe de redação da "Esquire" pediu-lhe, então, que descrevesse em uma carta o que viu para poder usar como matéria-prima.

Livre da pressão, escreveu 49 páginas... E encontrou seu estilo.

A reportagem acabou virando um romance curto, intitulado "The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby", de 1965. O livro conta com uma apresentação dos personagens, uma multiplicidade de pontos de vista, trechos de diálogos intercalados entre as descrições, onomatopeias e muitas exclamações.

Estava lançada sua carreira de escritor. Dezoito meses depois, virou a figura central do "novo jornalismo", um gênero híbrido sob o qual se encontravam mais ou menos ao seu agrado Hunter S. Thompson, Norman Mailer e Truman Capote.

Para veículos como a "Rolling Stone" ou o "New York Herald Tribune", Wolfe escreveu crônicas sobre a cultura pop americana, tratando de temas que aparentemente não tinham muita atualidade: o mercado de arte ou o LSD.

No entanto, sem pretender a menor objetividade, palpava antes que muitos outros as grandes tendências sociológicas ainda subterrâneas no país, como a onda hippie ou o individualismo crescente da década de 1980.

Para além do estilo, seu trabalho se apoiou sempre em uma pesquisa meticulosa e em horas de entrevistas.

Para "Os Eleitos" (The Right Stuff, 1979), seu ensaio sobre os pioneiros da conquista espacial, passou nove anos percorrendo os Estados Unidos.

O texto deu origem a "Os Eleitos", sucesso de Hollywood com Sam Shepard como protagonista e fez saltar à fala o piloto de testes da Força Aérea Chuck Yeager, o primeiro homem a romper a barreira do som.

Quando, aos 57 anos, decidiu se lançar na ficção, manteve intactos seus métodos de pesquisa.

Seu primeiro romance, "A Fogueira das Vaidades" (1987), é um retrato hiperrealista e ácido da Nova York dos anos 1980: o protagonista, um jovem e ambicioso banqueiro de Wall Street que parece ter tudo, atropela com seu carro luxuoso um afro-americano no Bronx, foge e seu mundo começa a desabar.

O romance virou um sucesso de vendas em todo o mundo. Só os direitos de adaptação ao cinema renderam cinco milhões de dólares, e o filme foi levado à telona com Tom Hanks no papel principal.

Eva Joory
O escritor e jornalista norte-americano Tom Wolfe Imagem: Eva Joory

Fã de Zola

Tensões raciais no sul ("Um Homem por Inteiro", 1998), a vacuidade do sistema universitário ("I Am Charlotte Simmons", 2004), a imigração ("Bloody Miami", 2013): o crítico dos costumes americanos usou de tudo como matéria-prima.

Seu estilo desorganizado lhe rendeu críticas de seus contemporâneos, sobretudo de Norman Mailer e John Updike.

Wolfe não escondia sua admiração pelo romance realista francês, particularmente por Émile Zola devido à sua "aproximação jornalística do tema e de sua integridade".

Em 2016, anos 85 anos, mostrava que não tinha perdido a rapidez mental com um novo livro, "O Reino da Fala", um ensaio que celebra a importância da linguagem nas realizações humanas.

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