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Museu francês tinha 60% de quadros falsos, mas seria o único?

Raymond Roig/AFP
Turistas visitam o museu dedicado ao pintor francês Etienne Terrus, em Elna Imagem: Raymond Roig/AFP

Em Elna (França)

30/04/2018 18h00

Durante décadas, o pequeno museu de Elna, no sul da França, montou uma coleção de obras do pintor local Étienne Terrus, principalmente óleos e aquarelas das paisagens e construções da região.

Mas o que uma vez foi uma fonte de orgulho se transformou em uma vergonha, quando se descobriu que 60% das obras eram falsificações, dando uma lição sobre os perigos de comprar arte sem contar com habilidades específicas e sobre a ubiquidade das telas falsificadas.

"Étienne  Terrus é o grande pintor de Elna, faz parte da comuna", lamentou na sexta-feira o prefeito Yves  Barniol ao reabrir o museu e sua exposição das obras de Terrus - sem as falsificações.

"Saber que as pessoas visitaram o museu e viram uma coleção que em sua maioria era falsa, é ruim. É uma catástrofe para o município", acrescentou.

Terrus (1857-1922) nasceu e morreu em Elna, perto da cidade de Perpinhã, onde pintou a costa mediterrânea e as nebulosas colinas dos Pirineus.

Amigo de Henri Matisse, Terrus nunca alcançou o mesmo nível de fama, mas ficou conhecido em nível regional e nos círculos artísticos graças a sua produção com influências do impressionismo e do fauvismo.

O Museu Terrus de Elna começou a colecionar suas obras nos anos 1990, e nos últimos cinco adquiriu 80 novas obras, em alguns casos graças a arrecadações locais.

Alguns dos habitantes locais que contribuíram lamentam agora ter sido tão ingênuos ao concederem dezenas de milhares de euros a comerciantes locais de arte e colecionadores privados.

Um painel de especialistas considerou que, das 140 obras do museu, 82 eram falsificações, o que provocou uma perda de cerca de 160.000 euros (200.000 dólares) para a localidade.

- Problema mundial -A fraude de Elna foi descoberta por um historiador de arte local quase por acaso.

A prefeitura pediu a Éric Forcada no ano passado para reorganizar a instituição após as últimas aquisições, que procediam "em sua maioria de antiquários" da região.

À primeira vista percebeu que a maioria eram falsificações. "Em um quadro, a assinatura com tinta ficou borrada quando passei minha luva branca por cima", contou.

"No nível estilístico era grosseiro, com suportes de algodão que não correspondem às telas utilizadas por Terrus, e alguns anacronismos", explicou.

Forcada alertou o principal especialista cultural da região e solicitou uma reunião de um painel de especialistas para confirmar suas descobertas.

Agora há uma investigação policial concentrada nos comerciantes locais de arte, dos quais procedia a maioria das obras.

Antes do escândalo, as pinturas de Terrus podiam alcançar 15.000 euros, e seus desenhos e aquarelas, até 2.000, segundo Forcada.

Em sua opinião, "todo o mercado de arte em nível local está gangrenado".

Mas os especialistas constatam que este fenômeno ocorre em uma escala muito maior.

"Há obras falsas e mal atribuídas nas coleções dos museus", indica o especialista Yan Walther, da companhia suíça SGS Art Services, líder em métodos científicos para autentificar obras de arte.

"Há obras mal atribuídas no Louvre [de Paris], na National Gallery [de Londres] em todos os museus do mundo, mas não em uma proporção de 60%", indica.

Que uma obra esteja mal atribuída pode significar que foi produzida pelo ateliê ou um ajudante do artista.

"Quando alguém compra imóveis ou um veículo, há uma série de passos que todo mundo deveria dar: uma avaliação técnica, comprovações sobre os antecedentes do vendedor", diz. Mas "para a arte, curiosamente, as pessoas ainda não têm esse reflexo".

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