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Sítio arqueológico pré-hispânico surge nas areias de Punta del Este

18/04/2018 17h25

Punta del Este, Uruguai, 18 Abr 2018 (AFP) - O balneário uruguaio de Punta del Este é conhecido por seus visitantes VIP e o glamour de seus verões ensolarados, mas também abriga, em plena praia, um sítio arqueológico com vestígios de indígenas que povoavam a região antes da chegada dos espanhóis.

O local fica em Playa Mansa, uma das mais populares de Punta del Este, e exibe evidências de "distintas etapas do processo de fabricação de instrumentos", conta à AFP a arqueóloga da Universidade da República Marcela Caporale, descalça sobre uma das áreas de escavação.

"Os restos ósseos (de animais) nos dizem que houve consumo ou tratamento" de alimentos no lugar, afirma a cientista enquanto seus colegas colocam delicadas marcas em cada um dos pontos onde extraem evidências de uma cultura que ainda devem estudar.

O lugar atrai alguns turistas que ainda passam pela praia depois da temporada de férias.

Caporale quer que o sítio, descoberto após uma tempestade de vento e chuva que empurrou as ondas até as dunas em 2016, foi preservado como registro histórico para os visitantes.

As chances de isso acontecer são poucas e esse arqueólogos correm contra o tempo, porque a prefeitura de Maldonado, que administra Punta del Este, realizará uma mega obra de engenharia em vez de evitar que o mar tome novamente as areias que permitem a existência da praia.

- Dúvidas e certezas - Os arqueólogos trabalham como detetives. Estão certos de que no lugar "houve fabricação de instrumentos. As lascas e (objetos) polidos" demonstram isso, explica Caporale.

No entanto, os pesquisadores ainda devem determinar se os materiais encontrados são do local ou se foram trazidos de mais longe; se os primeiros povoadores do território uruguaio atual, que se instalaram temporariamente, têm relação com outros grupos humanos já estudados; se eles se moviam pela região e que relação eles tinham com o mar circundante.

O também arqueólogo Eduardo Keldjian é encarregado pelo estudo dos fundos marinhos próximo, em uma tentativa de determinar se podem ser encontradas evidências complementares sob o mar que banha Punta del Este, o mesmo que desfrutam milhares de turistas durante o verão e que é um atrativo cultural e econômico para o Uruguai.

O trabalho de Keldjian tem mais um desafio: muitos colecionadores recolheram durante anos restos nesta área, às vezes por transformações urbanas que deixaram sítios arqueológicos expostos, e agora os cientistas buscam "identificar a origem" desses materiais.

Do que aparecer sob o mar e do que for encontrado nas escavações na areia, surgirão comparações chave e, no melhor dos casos, poderão relacionar as novas descobertas com peças pendentes de identificação.

"Desejo que (o trabalho) permita contextualizar outros dados, coleções e restos humanos que há e que hoje não têm contexto (histórico, cultural ou étnico) associado", explica Caporale.

- Antes dos charruas -A principal hipótese dos cientistas é de que os restos encontrados datam de 1.300 anos.

Isso colocaria as populações que estudam hoje em épocas anteriores aos charruas, os rebeldes indígenas que dominavam o território a leste do rio Uruguai, brutalmente exterminados no século XIX.

O objetivo final do projeto arqueológico é este: "reconstruir modos de vida".

Após a primeira etapa de escavação, os arqueólogos farão um modelo do local em três dimensões e análises de laboratório com os quais buscarão determinar, por exemplo, se era uma área de assentamento ou de passagem.

No local, as escavações avançam lentamente, estrato por estrato. Cada capa relevada tem cinco centímetros de espessura de uma terra arenosa que é removida com absoluta delicadeza para evitar a deterioração de qualquer elemento de valor científico.

As lascas, que mostram no local se terminavam instrumentos de afiação, aparecem uma depois da outra e são cuidadosamente classificadas. A terra passa por uma peneira que permite recuperar os menores elementos.

É um trabalho minucioso e detalhado, que os arqueólogos consideram uma "oficina" de indígenas ainda desconhecidos. Esse é o mistério que esperam revelar.

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