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"Uma Mulher Fantástica", "Strong Island": Histórica presença trans no Oscar

Reprodução
A atriz transexual Daniela Vega em cena do filme "Uma Mulher Fantástica" Imagem: Reprodução

Los Angeles (EUA)

26/02/2018 11h36

Não é a primeira vez que são representados no cinema, mas este ano é diferente: dois filmes sobre transgêneros, feitos e/ou protagonizadas por transgêneros disputam o Oscar. Um marco.

Daniela Vega, atriz transgênero, interpreta de modo magistral Marina, uma jovem de luto e vítima dos preconceitos da conservadora sociedade chilena em "Uma mulher fantástica", indicado ao Oscar de filme em língua estrangeira.

Na categoria documentário, Yance Ford, cineasta transexual, concorre por "Strong  Island", um filme de inspiração biográfica sobre o racismo e as falhas no sistema judiciário.

"É uma tendência observada há alguns anos, depois de "Transparent" ou com Laverne  Cox de 'Orange Is The New Black' na capa da revista Time, e agora no Oscar", explicou à AFP Larry Gross, professor do Departamento de Comunicação da Universidade USC.

Antes de "Uma Mulher Fantástica", outros filmes sobre ou com transgêneros venceram no Oscar: "Traídos pelo Desejo" (1992) venceu na categoria roteiro; "Meninos Não Choram" (1998) rendeu a estatueta a Hilary Swank; "Clube de Compras Dallas" venceu em três categorias, incluindo ator coadjuvante para Jared Leto por seu papel de Rayon; "A Garota Dinamarquesa" (2015) rendeu o Oscar de coadjuvante para Alicia Vikander e virou uma espécie de filme pioneiro do movimento.

Na série de TV "Transparent", Jeffrey Tambor interpretava - antes de ser demitido por acusações de assédio sexual - um transgênero, chefe de uma família burguesa da Califórnia, que normalizou a imagem desta comunidade.

Mas todas estas produções foram protagonizadas por intérpretes cisgênero, - pessoas cuja identidade de gênero e sexo biológico coincidem -, e não por "trans".

E é neste ponto que o Oscar de 2018 é diferente: não apenas as duas produções foram indicadas, os dois filmes foram dirigidos ou protagonizados por transgêneros, um grande reconhecimento.

"É um momento sísmico, um pequeno terremoto que espero comece a mudar este campo totalmente", disse Ford à AFP.

"Estamos caminhando pouco a pouco. Se chegarmos ao rio, poderemos atravessar a ponte. Ainda estamos caminhando para isso", afirmou Vega.

Cindy Ord/Getty Images for IFP
O diretor transgênero Yance Ford Imagem: Cindy Ord/Getty Images for IFP


Uma mulher comum

Yance Ford destacou a importância de que atores transgêneros possam interpretar papéis de "trans", mas enfatizou que seu trabalho "transcende o fato de que somos transgênero".

O documentário "Strong  Island" conta a história do assassinato de seu irmão por um homem branco que escapou da justiça, enquanto a vítima se tornava o principal suspeito da própria morte, o que gera um impacto devastador na família.

Em "Uma Mulher Fantástica", Vega encarna uma mulher como outras: feminina, frágil, forte e digna.

"Marina e eu compartilhamos que somos 'trans', que gostamos de cantar ópera e dos homens bonitos, nada mais", disse Vega à AFP.

"Ela é muito mais elegante que eu, tem mais paciência, é uma mulher muito mais pacífica, eu sou mais explosiva, mais latina".

Ford aplaudiu o papel de Vega e a atenção que gerou com sua representação "de uma mulher comum", uma mudança da típica caricatura de "trans" como em filmes como "Tootsie" com Dustin  Hoffman.

Gross também recorda que personagens trans eram apresentados como pessoas transtornadas, marginalizadas, depressivas e que "Transparent" ou "Uma Mulher Fantástica" mudaram isso, com personagens mais autênticos.

Para o especialista, Hollywood tem a tendência de "colocar uma narrativa como vinho velho em uma garrafa nova", buscando mudanças já usadas em novas tramas. "Já fizeram antes com os homossexuais, os negros, os judeus... e os trans estão na moda", explica.

Entre os reality shows na televisão, a famosa drag-queen  RuPaul emplacou um sucesso nos Estados Unidos com "Drag  Race", que abordou o tema de forma "extravagante e orgulhosa".

"O maior desafio é mostrar que as diferenças são boas, ao invés de ameaçadoras", conclui o professor.

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