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A arte tem limite ou vivemos o renascimento da censura no Brasil?

Reprodução/Facebook
A atriz transexual Renata Carvalho em cena da peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" Imagem: Reprodução/Facebook

Do Rio de Janeiro

03/10/2017 19h42

Uma peça de teatro em que Jesus Cristo é uma transexual é proibida por ordem da Justiça; uma exposição que reflete sobre diversidade sexual e religião é cancelada por pressão de grupos tradicionalistas. Uma onda conservadora impõe a sua voz no Brasil e abre debates sobre arte e censura.

O episódio que lidera todas as polêmicas é a exposição de arte contemporânea "Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira", realizada em Porto Alegre pelo Santander Cultural, que foi cancelada depois que o Movimento Brasil Livre (MBL) lançou uma forte campanha acusando-a de fomentar a pedofilia, a zoofilia e de atacar o cristianismo.

No centro das críticas do MBL estavam um quadro que ilustrava poses afeminadas de crianças ("Criança viada travesti da lambada"), uma obra em que Jesus é um macaco nos braços de Maria, outra em que duas pessoas fazem sexo com um cachorro e hóstias com as palavras "cu" e "vagina" escritas.

Meios de comunicação do país asseguravam que esta exposição em prol da diversidade sexual e religiosa iria para o Rio de Janeiro, mas depois da performance de um artista nu em São Paulo voltar a gerar comoção, o prefeito Marcelo Crivella quis "colocar os pingos nos 'is'".

"A gente não quer esta exposição. Saiu no jornal que ia ser no MAR (Museu de Arte do Rio), só se for no fundo do mar, porque no Museu de Arte do Rio não!", declarou Crivella no domingo no Facebook.

Imagem da mostra "Queermuseu", que foi motivo de polêmica

"Tudo tem limites"

-O cancelamento da "Queermuseu" ocorreu em 10 de setembro e poderia ter sido esquecido, mas a história se repetiu em episódios similares e abriu um debate nacional.

Diante das condenações e manifestações de grupos LGBT, da esquerda, ou a carta de repúdio de segunda-feira de representantes dos principais museus e instituições do Brasil contra as "ações" para "proibir manifestações artísticas legítimas", via-se a comemoração dos conservadores.

"Tem que fuzilar os autores dessa exposição!", chegou a dizer o deputado de extrema direita Jair Bolsonaro, em segundo lugar nas intenções de voto para as presidenciais de 2018.

O curador da exposição foi chamado para comparecer na quarta-feira diante de uma comissão de investigação do Senado, convocada pelo evangélico Magno Malta.

De fato, a polêmica abriu uma série de questões no país que desde a chegada de Michel Temer ao poder em 2016 vive uma onda conservadora, após o fim de mais de 13 anos de governos de esquerda. Além disso, o número de igrejas evangélicas cresce vertiginosamente, com cada vez mais figuras na política.

Foi um ato de censura? A arte deve ter limites? Essa decisão pode abrir um precedente? Este é o "novo" Brasil?

Poucos dias depois do cancelamento da "Queermuseu", a Justiça bloqueou uma peça que misturava religião e sexualidade.

Um juiz de São Paulo proibiu em 16 de setembro a apresentação de "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" em um teatro no interior do estado, protagonizada por uma atriz transexual, atendendo a pedidos de grupos católicos.

A polícia confiscou um quadro chamado "Pedofilia" no Museu de Arte Contemporânea do Mato Grosso do Sul porque um grupo de deputados considerou que ele fazia apologia a esta ação.

E o Ministério Público do estado de São Paulo investiga desde o fim da semana passada se houve atos de pornografia ou pedofilia na performance de um homem nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo, após circularem vídeos de uma criança e sua mãe encostando em seu pé.

"Gosto de arte, admiro a arte, mas tudo, tudo, tudo, tem que obedecer um limite", manifestou o prefeito de São Paulo, João Dória.

Anderson Astor/Folhapress
Protesto contra fechamento da "Queermuseu", em frente ao Santander Cultural de Porto Alegre Imagem: Anderson Astor/Folhapress

Lembranças do passado

"Não é um episódio isolado, foi construído um clima político e que entrou no campo da arte, onde sempre houve esse lugar de autonomia, de provocação, de incômodo", disse à agência France Press Ivana Bentes, curadora e que foi secretária de Cidadania e Diversidade Cultural durante o governo de Dilma Rousseff.

A censura no Brasil teve o seu último auge durante a ditadura militar, de 1964 a 1985, e alcançou as telenovelas, músicas e a imprensa.

"A história da censura no Brasil foi muito forte, mas era o Estado, e agora a gente tem, mas o Estado é respaldado por movimentos conservadores organizados e desorganizados", acredita Bentes.

Em um país profundamente dividido, há acadêmicos que pensam que esses episódios ocorrem em "tempos de intolerância" tanto da direita como da esquerda.

"É um sintoma de falta de liberdade de expressão e de um ambiente propício à censura", considera Cássio Oliveira, doutor em Filosofia da Arte.

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