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Peças nazistas na Argentina provam que fascínio pelo horror ainda persiste

AP Photo/Natacha Pisarenko
Membro da Polícia Federal segura uma ampulheta com marcas nazistas, na sede da Interpol em Buenos Aires, Argentina Imagem: AP Photo/Natacha Pisarenko

De Buenos Aires (Argentina)

23/06/2017 20h05

A descoberta de uma coleção de 75 peças nazistas, talvez a maior confiscada na Argentina, e entre as quais destaca-se uma lupa que pode ter pertencido a Adolf Hitler, confirma o "fascínio" que segue despertando o nazismo em algumas pessoas.

O enorme burburinho internacional despertado por esta descoberta, que inclui um instrumento médico do hierarca nazista Josef Mengele, "confirma o fascínio que o nazismo exerce sobre algumas pessoas", disse à agência France Press Diana Wang, presidente da ONG Gerações da Shoa (Holocausto) na Argentina, "independentemente de serem [peças] originais ou réplicas".

"Para nós, que estamos vinculados com o Holocausto e com os direitos humanos básicos e gerais, fica difícil assumir" que existam pessoas que os guardem como objetos de valor, assinalou Wang.

Mas a dirigente de uma das muitas organizações judaicas que existem na Argentina, onde vive uma das maiores comunidades da América Latina, com 300 mil pessoas, considera que não se pode relacionar a descoberta destas obras ao fato de que este país "foi um ninho de nazistas".

"A Argentina foi um porto receptivo de nazistas, mas não foi o único. Os nazistas sobreviventes se espalharam por todo o mundo", afirmou Wang, recordando que ao fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) a então União Soviética e os Estados Unidos disputavam os cérebros científicos que se destacaram durante o nazismo.

Mas estas peças, que estão nas mãos da polícia e que se confirmada sua a autenticidade serão oferecidas pelo Ministério argentino de Segurança ao Museu do Holocausto, dividem posições no seio do coletivo judeu.

O presidente da Delegação de Associações Israelitas Argentinas (DAIA), Ariel Cohen Sabban, anunciou nesta semana que se apresentará como querelante na causa contra o antiquário Carlos Olivares, dono desta coleção, por se sentirem "vítimas do delito de discriminação".

O diretor em Jerusalém do Centro Simon Wiesenthal dedicado à perseguição dos nazistas, Efraim Zuroff, opinou neste mesmo sentido.

"Não surpreende que uma coleção como esta tenha sido encontrada. Todos sabemos que a Argentina foi o lar de muitos criminosos de guerra nazistas e com a investigação podemos saber que o governo argentino fez um esforço especial para encontrá-los", afirmou

Natacha Pisarenko / AP
Acervo do governo nazista encontrado pela Interpol em Buenos Aires Imagem: Natacha Pisarenko / AP

O antiquário

Olivares, de 55 anos, é o antiquário que tinha as 75 peças nazistas em um quarto em sua casa de Beccar, uma zona residencial ao norte de Buenos Aires, que foi revistada na segunda semana de junho pela polícia.

Foi fundador de uma das feiras de antiguidades mais pitorescas e de atração turística de Buenos Aires, na estação Barrancas do Trem da Costa, e por enquanto prefere não dar declarações.

Ao ser contactado pela France Press, se limitou a esclarecer que tem 13 coleções importantes, entre elas uma de arte erótica e outra de pedras orientais com garrafinhas que usavam para guardar ópio, e que isso não o torna "nem perverso pornográfico, nem viciado, e, portanto, tampouco nazista".

Olivares é acusado de violar a lei 25.743 de proteção de patrimônio arqueológico e paleontológico.

Fontes próximas ao seu negócio disseram à France Press que acreditam que chegaram a sua loja por meio de um falso comprador que era policial buscando sinos chineses do século VII a.C. que aparecem em uma lista da Interpol de objetos requeridos pelo governo da China.

Olivares tem sete sinos como os procurados, mas seriam reproduções que vende a 1.000 pesos argentinos, cerca de 60 dólares cada.

Na mira policial

Marcelo El Haibe, chefe do Departamento de Proteção do Patrimônio Cultural da Interpol-Argentina, considerou que "não é qualquer cidadão que poderia ter isto, dado o seu valor e custo".

"Na Argentina não houve outro caso similar. Descobriram objetos nazistas, mas fabricados em série, de propaganda nazista", disse El Haibe, que acredita ser a maior confiscação de objetos nazistas no país.

O chefe da Polícia Federal, Néstor Roncaglia, desconsiderou que por trás da descoberta haja alguma organização nazista.

"Tudo indica que seja um comerciante de obras de arte de bens culturais e, obviamente, essas pessoas comercializam objetos lícitos e às vezes também comercializam objetos ilícitos", explicou.

As fontes próximas ao negócio de Olivares confiam que as peças serão devolvidas logo ao comprovarem que não houve crime e que não são as que estão incluídas em uma "Lista Vermelha de Objetos Culturais Chineses" emitida pela Unesco, devido ao seu interesse internacional e o seu valor histórico.

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