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Mães da Praça de Maio, a força que fez a ditadura argentina se curvar, lembra jornalista

27/04/2017 19h00

Narbona, França, 27 Abr 2017 (AFP) - Jean-Pierre Bousquet, ex-correspondente da AFP em Buenos Aires, recorda, 40 anos depois, como presenciou o nascimento da 'força' das Mães da Praça de Maio, um movimento que fez a ditadura argentina se curvar.

O jornalista, que esteve na capital argentina entre 1975 e 1980, foi testemunha do golpe de Estado militar e dos protestos das "Mães", que compareciam todas as quintas-feiras diante da sede do estado maior da junta militar para denunciar o desaparecimento dos seus filhos.

Cerca de 30.000 opositores desapareceram durante a ditadura, e 500 crianças foram "dadas e vendidas" a pessoas próximas à junta.

No Ministério do Interior, onde iam denunciar o desaparecimento das suas filhas grávidas ou jovens mães, as "avós" só recebiam "o desdém e o desprezo dos militares", lembra o ex-jornalista e historiador, que mora na cidade francesa de Narbona (sul).

"Foi uma forma de genocídio", considera Bousquet. "O plano dos militares" era liquidar a oposição discretamente. Para isso, sequestraram pessoas e as fizeram desaparecer, explica. Mas "não se atreviam a matar as crianças, então as roubavam e davam ou vendiam" a pais adotivos.

O correspondente participou dos protestos das Mães desde o início, em 30 de abril de 1977, dia do seu aniversário. Diante da atitude dos militares, essas mulheres pensaram: "Se é assim, vamos manifestar, vamos à Praça de Maio", e convidaram o jornalista.

"Chegaram 17, com muito medo, para fazer una pequena ronda em volta da pirâmide da Praça de Maio, mas muito assustadas porque tinham que se atrever a fazer isso", explica. "Como não aconteceu nada, na quinta-feira seguinte foram mais, e cada vez mais. E aos poucos se tornaram mais audaciosas".

- Em busca da verdade -O repórter as acompanhava a cada quinta-feira. Na Praça de Maio, caminhavam em sentido anti-horário, usando lenços brancos que simbolizavam fraldas de bebê.

"Em sua maioria, não eram mulheres altamente politizadas, não estavam preparadas para esta briga, mas, como uma delas me disse (...): 'para nossos filhos somos piores que um tigre, não vamos ceder até que nos digam a verdade'".

Em relação ao destino que tiveram seus filhos, as mães não tinham muitas esperanças. "Às vezes não reconhecem isso, mas sabem que estão mortos, embora não aceitem essa morte enquanto não lhes digam como foi, quando, quem o fez (...). Querem a verdade, e este trabalho de memória é muito importante" para elas, assegura Bousquet.

"Com suas manifestações, as mães levantaram um pouco o véu, e a amplitude da repressão apareceu claramente", acrescenta o septuagenário, que escreveu o livro "As loucas da Praça de Maio", publicado em 1982 em francês e espanhol.

"Para que a sociedade se curasse dessa ferida", as avós criaram um registro das crianças desaparecidas "nascidas supostamente em cativeiro ou sequestradas ao mesmo tempo que seus pais", assim como um arquivo de amostras de DNA que continua funcionando hoje em dia.

Das 500 crianças desaparecidas, 116 foram encontradas. "Qualquer argentino de entre 40 e 45 anos pode ter dúvidas sobre suas origens", diz Bousquet, que visita agora os institutos de ensino franceses para abordar a história das Mães da Praça de Maio.

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