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Sucesso da literatura mundial, Leonardo Padura é 'semivisível' em sua Cuba

Adalberto Roque/AFP
O escritor cubano Leonardo Padura prepara café em sua casa no bairro rural de Mantilla, em Havana Imagem: Adalberto Roque/AFP

De Havana

10/03/2017 11h07

Quando está em Havana, ele não é tratado como no resto do mundo: como o escritor cubano vivo mais famoso. Na ilha, Leonardo Padura é um homem "semivisível", inquieto pelas mudanças que está vendo em seu país.

Antes do cair da tarde, Padura já fumou seus cinco cigarros e bebeu suas cinco xícaras de café habituais diante do computador. Está sereno e sua barba branca confere a ele uma aparência de monge.

Para trás, por hoje, ficou a revisão de seu novo romance, "A Transparência do Tempo", que marcará a volta de seu personagem favorito, o detetive Mario Conde.

No primeiro andar de Villa Alicia, a casa de dois andares que ter o nome de sua mãe e onde vive com sua esposa Lucía, é aguardado por um pedreiro amigo que vai ajudá-lo com algumas tarefas.

"Neste lugar, sempre tenho que fazer coisas e fazer coisas para mim é importante. Eu desfruto muito mal do ócio", declarou à AFP o autor de "O Homem que Amava os Cachorros", a obra que o lançou à fama e em que retrata o fim da utopia comunista através do assassinato de León Trotski.

Suspeito habitual

Aos 61 anos, Padura poderia viver confortavelmente na Espanha ou nos Estados Unidos. Sua extensa e reconhecida obra é traduzida em 20 idiomas; em 2015 recebeu o prêmio Princesa de Astúrias e foi convidado da Flip, em Paraty, e em 2016 seu detetive noir Mario Conde virou uma minissérie, "Quatro Estações em Havana", no Netflix.

Mas apenas em Mantilla, bairro rural onde finaliza seus textos, diz que pode escrever literatura. Ali também é um cubano típico, usa bermudas e sandálias.

E apenas em Cuba os meios de comunicação - todos sob controle do Estado e para os quais trabalhou como jornalista entre 1980 e 1995 - ignoram o Padura escritor que é assediado no exterior.

"Sou semivisível", diz, sorridente. "Apareço muito pouco na televisão cubana, apareço muito pouco nos meios de comunicação, mas tenho muitos leitores".

Fragmentação social

Adalberto Roque/AFP
O escritor cubano Leonardo Padura posa em frente à sua casa no bairro rural de Mantilla, em Havana Imagem: Adalberto Roque/AFP

Padura não viveu como escritor os terríveis anos 70, quando os artistas cubanos foram "silenciados e marginalizados" por serem homossexuais ou criticarem a Revolução Cubana.

Ele faz parte do que descreve como a "geração dos suspeitos habituais. Recorda que foi "diagnosticado com problemas ideológicos" quando trabalhava numa revista de cultura e foi levado para outra publicação, para "ser reeducado".

Com o desaparecimento do protetor soviético, nos anos 90, a ilha mergulhou em sua pior escassez, mas, para os artistas cubanos, houve mais liberdade de expressão.

Padura agora acompanha inquieto a lenta abertura cubana, incluindo a aproximação com os Estados Unidos.

"O tecido social tão compacto está se dilatando. E hoje há pessoas que são mais pobres do que nos anos 80 e pessoas que são muito mais ricas do que eram antes", observa.

"Em Cuba isso havia desaparecido e agora começa a acontecer essa fragmentação da sociedade, para mim é alarmante", enfatiza.

Cancelado

Jogador de beisebol frustrado, Padura admite que se tornou escritor por "espírito de competição". Não suportava que os outros conseguissem escrever e ele não, e agora é um narrador respeitado e bem-sucedido.

"O Homem que Amava os Cachorros" já está em sua 50ª edição. Também foi reconhecido com prêmios em Cuba, apesar de suas opiniões não serem muito conhecidas.

Na Feira do Livro de Havana, apresentou "O Romance de Minha Vida" e vendeu todos os 468 exemplares entre empurrões e gritos.

Por outro lado, teve cancelada sem explicação sua apresentação do romance sobre Trotski.

Nenhum meio de comunicação cubano cita as opiniões de Padura sobre sua obra. É algo comum, mas, mesmo assim, ele não pensa em deixar a ilha.

"O escritor Leonardo Padura não existiria sem Cuba", constata, sempre sereno.

Cuba pós-Trump

Adalberto Roque/AFP
O escritor cubano Leonardo Padura durante uma entrevista na casa dele no bairro rural de Mantilla, em Havana Imagem: Adalberto Roque/AFP

Padura não gosta de falar do falecido Fidel Castro. "Não importa o que eu diga, sempre cai mal". Mas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não tem papas na língua. O escritor questiona a falta de resposta "coerente" frente a Trump por parte da Europa e da América Latina. Por causa disso, acrescenta, as pessoas estão encontrando mais respostas na literatura do que na política.

A seguir, trechos de suas respostas.

AFP: Com a eleição de Trump, sua fé ou ceticismo na democracia aumentaram?

LP: Nem uma coisa, nem outra. Acredito que fiquei alarmado com algo que pensamos que às vezes pode ter limites e depois comprovamos que não tem limites, que é a estupidez humana. Acredito que o fato de Trump ter se tornado presidente dos Estados Unidos é um ato de estupidez e de soberba.

Fico muito preocupado, sobretudo, pelo fato de que está lançando ao vento sementes que são muito perigosas e que cairão em terreno fértil, porque há um setor importante da sociedade americana que tem medo do outro, que pensa que o inimigo está lá fora, que vive aterrorizado pelo que é diferente, e todo este discurso de Trump soa bem nos ouvidos.

Há, felizmente, uma parte da população americana que atualmente está nas ruas, uma boa parte dela tentando evitar o desastre. Não sei se (a eleição de Trump) é um defeito da democracia, se é preciso ser um pouco cético a partir de agora, o que acredito é que todos temos que ser um pouco mais responsáveis, e especificamente penso que a América Latina não deu uma resposta coerente ao que está acontecendo, sinto que falta esta resposta.

AFP: Por que depois da chegada de Trump ao poder se multiplicaram as vendas do livro "1984", de George Orwell?

LP: Acredito que é porque não são encontradas respostas na política. Acho que os políticos e este sentimento que citei anteriormente podem apoiar isso, porque inclusive nem na Europa, nem nos Estados Unidos, houve uma resposta coerente, e as pessoas buscam respostas. Há algumas pessoas que vão à igreja e rezam, encontram ali a resposta; outras leem literatura e as encontram. Acredito que em "1984", e certamente, em algum momento, em "Complô contra a América" (de Philip Roth), vão encontrar ali reflexos de que as coisas podem acontecer em uma sociedade que perde o controle ou que entra em outro controle e se torna uma sociedade doente.

AFP: O que vai acontecer com Cuba na era Trump?

LP: Acredito que estamos à espera de ver o que acontece porque sobretudo foi agressivo com o México. Com outros países ainda não foi de maneira direta, não foi inclusive com Cuba, que esperava isso. (...) Donald Trump havia dito que quando assumisse a presidência revisaria as relações de Estados Unidos e Cuba, e estamos esperando para ver se as revisa e como as revisa. Todos estão esperando para ver o que Trump vai fazer.

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