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Cariocas se entregam ao Carnaval sambando na cara da crise

24/02/2017 10h28

Rio de Janeiro, 24 Fev 2017 (AFP) - A economia chegou ao fundo do poço, os cofres públicos estão vazios e os protestos nas ruas são cada vez mais violentos. Mas é Carnaval e, por quatro dias inteiros, os cariocas e turistas vão sambar na cara da crise.

O maior Carnaval do mundo começa nesta sexta como a anestesia perfeita para uma cidade em crise, que já nem se lembra dos Jogos Olímpicos e que espera receber um milhão de turistas e um bilhão de dólares até a Quarta-Feira de Cinzas.

Apesar de os blocos de ruas já estarem há dias em ritmo de esquenta, a festa começa oficialmente na tarde de sexta-feira, quando as chaves da Cidade Maravilhosa são entregues ao Rei Momo, que assim poderá comandar os dias de folia.

No entanto, pela primeira vez na história do Rio não será o prefeito que concederá esse poder simbólico, uma vez que Marcelo Crivella, ex-bispo evangélico recém-empossado, não estará presente e provavelmente viajará para evitar, assim, uma festa considerada não muito religiosa.

Da mesma forma, ele não estará presente no momento maior do Carnaval carioca, que são os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial no Sambódromo.

- Crise econômica e de segurança -O Carnaval das vacas magras para começar obrigou as escolas de samba a usar de engenhosidade para conseguir montar seu espetáculo e colocar milhares integrantes na avenida.

Além da falta de dinheiro, a insegurança também levou ao menos 37 cidades a cancelar o Carnaval, segundo o jornal Folha de São Paulo.

Várias localidades no Espírito Santo ficaram sem a folia depois que a greve da polícia militar desencadeou uma onda de violência que deixou 140 mortos em apenas uma semana no início de fevereiro.

No Rio, onde cinco milhões de pessoas devem participar na maior festa a céu aberto do mundo, a violência também é uma grande preocupação.

Além dos assaltos e homicídios recorrentes, nas últimas semanas proliferaram as manifestações violentas contra os planos de austeridade do governo estadual pelas mesmas ruas onde a partir de agora dançarão e cantarão milhares de foliões.

Para piorar, o governo federal decidiu retirar na quarta-feira o reforço de 9.000 militares que, durante nove dias, patrulhou os principais pontos turísticos para reforçar a segurança em meio à greve policial.

- Política ao som do samba - Este será, de fato, o primeiro Carnaval do presidente Michel Temer depois do impeachment de Dilma Rousseff e terá um tom político.

Nas ruas, sairão blocos como o "Fora Temer", e o Sambódromo também não deixará de lançar seus dardos políticos ao ritmo de samba.

As mais de 70.000 pessoas presentes na avenida verão as escolas abordando temas bem delicados.

A Mangueira, a campeã do ano passado, dedicará seu enredo à diversidade religiosa, com uma exaltação à umbanda e ao candomblé, o que incomoda muito os evangélicos.

A São Clemente atravessará a Marquês de Sapucaí falando das vergonhas da corrupção e evocando a história de um ministro do rei francês Luís XIV, uma figura muito familiar aos brasileiros acostumados com o escândalo do Petrolão.

A crítica mais violenta talvez seja da Imperatriz Leopoldinense contra os poderosos agroempresários, pois farão uma ode à natureza e às tribos do Parque do Xingu.

"Acho que o Carnaval parece uma festa e, de fato, é, mas é muito mais que isso. Muitas vezes serve para nos fazer sublimar por alguns dias os problemas da vida", declarou à AFP o comediante Gregório Duvivier, membro de vários blocos de rua, como o o 'Ocupa Carnaval', e criador do portal humorístico Porta dos Fundos.

"Acho que ele é ainda maior no momento de crise porque é ainda mais necessário; ele serve para unir um país muitas vezes dilacerado por desigualdades de todos os tipos, onde todos se encontram na rua", conclui.

sms-csc/js/cn

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