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Europa trata refugiados como 'lixo', denuncia Márkaris, cronista da crise grega

30/09/2016 10h03

Madri, 30 Set 2016 (AFP) - "Esta época passará para a história como a época da hipocrisia", afirma o escritor grego Petros Márkaris a ao comentar a atitude da Europa com a crise dos refugiados, que afeta diretamente seu país.

Com uma crise econômica que se eterniza e mais de 60.000 refugiados e migrantes em seu território, a Grécia está em uma "situação extremamente difícil", opina em uma entrevista à AFP em Madri o autor, conhecido como o criador do personagem Costas Jaritos.

Os refugiados aparecem em seu mais recente livro policial, "Offshore", publicado este ano em seu país. Como nas nove obras anteriores, Jaritos investiga um tema atual, a origem de uma grande quantidade de dinheiro obscuro em uma Grécia que deixou para trás o momento mais intenso da crise econômica.

Márkaris, autor de uma trilogia da crise muito lida na Espanha, França, Alemanha e até mesmo na América Latina, confessa que ficou "impressionado com a bondade e boa recepção dos gregos aos refugiados, e em particular os sírios", quando estes começaram a chegar em grande fluxo às ilhas do Egeu leste em 2015.

Ao mesmo tempo, ele adverte que a tensão é máxima em ilhas como Lesbos ou Quios, que abrigam os maiores centros de retenção (hotspots) para refugiados, com um total de 9.600 pessoas, mais que o dobro da capacidade das instalações, de acordo com o governo grego.

A população destas ilhas depende muito de um turismo que desapareceu, após as imagens de iraquianos, sírios e afegãos chegando extenuados às praias após uma viagem perigosa a partir de seus países em guerra.

"Eles os receberam muito bem, mas esperar que todos os cidadãos de um país sejam heróis e aceitem destruir a si mesmos pelos refugiados é uma utopia, o que significa que urge uma solução", adverte o escritor.

Márkaris critica a falta de solidariedade dos demais países europeus, com exceção da Alemanha, no momento de receber parte dos refugiados.

"O modelo no tema dos refugiados é (Viktor) Orban", lamenta, em referência ao primeiro-ministro húngaro, que fechou as fronteiras com vários países limítrofes, "e não a chanceler alemã Angela Merkel", que recebeu um milhão de demandantes de asilo.

"Que os refugiados fiquem como se fossem lixo entre os italianos e os gregos, e a nós que nos deixem tranquilos. Isto é o que dizem em voz alta nestes países da Europa", critica, revoltado, Márkaris.

- Eco na América Latina -O escritor grego, nascido em Istambul há 79 anos, comentou à AFP que está trabalhando em um novo romance, mais uma vez com o comissário Jaritos como protagonista, deslocando-se em seu carro antigo por uma Atenas movimentada e descrita, como sempre, em detalhes.

Fora da Europa, Márkaris tem um núcleo fiel de leitores na Argentina, Uruguai e Colômbia, que segundo ele registram reações "muito próximas às reações dos gregos e dos europeus do sul, como espanhóis e italianos".

Nos três países países "têm uma boa relação com o herói, com Jaritos, porque se identificam com ele. Influencia muito o tema da família (do comissário), o que não é o caso na Europa central", onde interessam mais outras questões como por exemplo a descrição do dia a dia na Grécia.

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