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Povoado peruano onde Hemingway viveu luta para não cair no esquecimento

Cris Bouroncle/AFP Photo
Praia desolada do vilarejo de Cabo Blanco, no Peru, onde o escritor pescou o peixe marlim Imagem: Cris Bouroncle/AFP Photo

De Cabo Blanco (Peru)

23/08/2016 14h54

Cabo Blanco, uma comunidade de pescadores no Peru, vive da história de ter sido o único local da América do Sul a receber o vencedor do Nobel de Literatura Ernest Hemingway. Após ter saboreado o glamour dos ricos e famosos há seis décadas, hoje parece um povoado em extinção.

No verão de 1956, o autor de "O Velho e o Mar" viveu ali durante um mês, no que era então a melhor área de pesca esportiva do mundo, com uma obsessiva missão: pegar um gigantesco merlim para o filme que a Warner Bros. produziria sobre seu mítico relato nessa localidade em 1958.

A estadia de Hemingway, que viva aqueles anos em Cuba, marcou esta agradável comunidade de 500 habitantes, que batalha para não cair no esquecimento impulsionando o turismo, que explora até o último suspiro todo o rastro deixado pelo célebre escritor americano.

Cabo Blanco, 1.145 km ao norte de Lima, se estende por menos de um quilômetro, como um estreito aderido à costa, acariciado pelo suave bater das ondas do Pacífico que morrem em seu pequeno dique que leva o nome do autor de "Paris É uma Festa".

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Quadro traz foto Hemingway em meio a pescadores do povoado peruano Imagem: Cris Bouroncle/AFP

Os heróis do porto

Dois bustos aparecem em uma avenida: o de Hemingway e o de Alfred Glassell, um empresário americano que em 1953 conquistou o recorde mundial de pesca de altura ao pegar um peixe-espada de 702 quilos na costa desse estreito. Esse recorde despontou o interesse de Hemingway por Cabo Blanco.

Na entrada, uma enorme foto de Glassell junto de seu troféu - o peixe-espada - e de um capitão de iate. Essa parece ser a melhor amostra de que o tempo parou há seis décadas. "Recorde mundial de pesca de altura, Cabo Blanco 1953, 1.560 libras" lê-se na imagem.

Entre a corrosão que a maresia gera nesse velho povoado, aparece Máximo Jacinto Fiestas, um pescador de 94 anos que integrou a tripulação do "Miss Texas", o iate em que navegou Hemingway no Peru, que foi restaurado em 2013 e está ancorado em Cabo Blanco, como uma peça de museu.

Fiestas, que ficou cego de um olho há dez anos, vive em uma pequena casa rodeado de fotos e recortes de jornais dos anos 1950, onde é visto com Hemingway em atividades pesqueiras. "Acompanhei-o no 'Miss Texas' e ele me levou a Miami para ajudá-lo em uma travessia", disse à AFP, mostrando retratos que legitimam seu relato.

Hemingway chegou a pescar em Cabo Blanco até quatro marlins o maior deles pesava mais de 300 quilos. Com eles, ficavam no cais, evoca Fiestas, que recorda ter consumido com o escritor muito "ceviche, fumo e Johnny Walker".

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Painel relembra recorde mundial de pesca de marlim: peixe teria mais de 700 kg Imagem: Cris Bouroncle/AFP Photo

De clube de ricos à ruína

Prova da época de ouro é o "Cabo Blanco Fishing Club", que em seu momento de esplendor hospedou Hemingway e sua esposa Mary Welsh, além de parte da alta sociedade de Hollywood daquela época, como Marilyn Monroe, Errol Flynn, Spencer Tracy, Paul Newman, James Stewart, Gregory Peck, Mario Moreno "Cantinflas", entre outros.

O clube está hoje em ruínas e abandonado, vandalizado. "Levaram até peças dos banheiros", disse um pescador do local. Hoje, um segurança particular impede a entrada.

"Há 60 anos entrevistei Hemingway no bar do Fishing Club, onde me recebeu com um copo de whisky em uma das mãos e um de água na outra. Assim começamos e terminamos quatro dias depois", falou à agêAFP Mario Saavedra, de 88 anos, o único jornalista peruano que fez uma entrevista exclusiva com o escritor em Cabo Blanco, "em um castelhano misturado com inglês".

Saavedra colocou à venda esses dias os 59 negativos das fotos que tirou com Hemingway em Cabo Blanco, parte dos quais ilustraram um livro que publicou em 2005. O vencedor do prêmio Nobel continua sendo um atrativo, mesmo 55 anos depois de ter se suicidado em Idaho, Estados Unidos.

A nostalgia de Cabo Blanco dá espaço ao barulho e a multidões a cada verão, quando chegam centenas de surfistas para pegar suas famosas ondas e tubos, com celulares e câmeras sofisticadas. É o século XXI para algumas pessoas.

No entanto, a vida continua para Guillermo Fiestas, pescador cinquentão que disseca e pinta peixes para vendê-los como recordação do que hoje é Cabo Blanco.

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