Livros e HQs

Raquel de Oliveira: de primeira-dama do tráfico a escritora festejada

Tasso Marcelo/AFP
A escritora Raquel de Oliveira escapou da violência do vício nas drogas Imagem: Tasso Marcelo/AFP

Do Rio de Janeiro

06/11/2015 17h30

Aos seis anos, ela provou a primeira droga para inibir a fome: cola de sapateiro. Aos nove, foi vendida pela avó a um chefe do jogo clandestino. Aos onze, ganhou de presente seu primeiro revólver.

Foi a mulher de Naldo, chefe do tráfico na Rocinha, maior favela brasileira, no violento Rio de Janeiro dos anos 1980. E após a morte do companheiro numa sangrenta batalha com a polícia, tornou-se, ela mesma, traficante.

O alcoolismo e o vício que vieram depois quase colocaram tudo o que ela tinha a perder.

Mas Raquel de Oliveira conseguiu escapar de seu trágico destino: há uma década está em tratamento para controlar o vício, descobriu a poesia, concluiu o ensino médio, ganhou uma bolsa, foi à universidade estudar pedagogia. E aos 54 anos acaba de publicar seu primeiro romance, "A número um".

"Este livro é minha história de vida. Apenas a literatura me mantém de pé para enfrentar minha história após 30 anos. Escrever me dá prazer, substitui a cocaína, consigo fugir da dor, me anestesiar, parar o tempo", confessa em entrevista à AFP no Morro da Babilônia, durante a edição 2015 da Festa Literária das Periferias (FLUPP).

A FLUPP publicou há dois anos suas primeiras poesias, e em seus ateliês literários Oliveira se armou de valor para empreender um romance.

"Esta menina não será puta"Sua mãe era empregada doméstica e vivia com na casa dos patrões numa luxuosa cobertura de Copacabana.

Cresceu com o pai, chamado por ela de "pedófilo", num barraco precário, com chão de terra batida forrado com jornais.

"Desde pequena, o refresco era suco de vinho com água e açúcar. Todas as crianças tomavam isso enquanto os adultos se embriagavam e até hoje tenho a recordação do meu rosto quente" pelo álcool, lembra Raquel, dona de uma fala firme e franca.

Quando tinha apenas seis anos, o pai a trancou no barraco e a abandonou. Ela escapou para o telhado, onde viviam várias crianças que passavam horas soltando pipa e cheirando cola.

"Aos nove anos minha avó me vendeu, ela achava um problema ter um parente em cima do telhado, um menor abandonado. Mas na verdade ela era viciada em jogo, e eu servi para ela conseguir mais dinheiro", conta.

Foi vendida para um chefe do jogo clandestino, que era "padrinho" de várias meninas. "Ele era muito gentil, atencioso, protetor. Comprava as meninas porque acreditava que estava ajudando as famílias. Era uma prática comum. Essa compra alimentava a prostituição. Quando cheguei em sua casa, três estavam grávidas dele", disse.

Diferentemente das outras, Raquel se salvou graças a um pai de santo umbandista, que disse ao padrinho: "Esta menina não será puta, você tem que adotá-la!".

O padrinho cuidou dela como se fosse sua filha, e aos 11 anos lhe deu de presente sua primeira arma, uma pistola para que ela se defendesse "de um bando de bandidos".

"O amor da minha vida"Aos 25 anos sua vida mudou para sempre, quando tornou-se a mulher de Naldo, o carismático chefe do tráfico da Rocinha - primeiro traficante a dar entrevistas à imprensa, que introduziu nas favelas os fuzis que desatariam numa corrida armamentista com a polícia.

"Foi o amor da minha vida, vivemos juntos três anos. Gostava de como ele me amava, e tudo o que me oferecia: segurança, o prazer de estar comigo, carinho, o sexo compulsivo. Descobrir isso foi muito bom, porque eu tinha sido casada antes e foi uma merda", diz.

Após a morte de Naldo, Raquel foi durante vários anos traficante na Rocinha, onde vive até hoje. E começou a abusar cada vez mais da bebida e da cocaína.

"Ia tomar uma cervejinha e ficava cinco dias, deixava minha carteira de identidade e as chaves de casa. Depois, tinha que trabalhar como louca para ter dinheiro e pagar as dívidas. A cocaína era minha paixão, substituiu todo o sexo e carinho que não podia mais ter, já que meu marido estava morto", confessa.

Até que um amigo a ajudou a entrar no caminho da recuperação em 2005.

Raquel de Oliveira não se queixa da vida. Diz que é a única que tem e considera que apesar de tudo teve sorte. Está cheia de projetos, entre eles fazer um mestrado em pedagogia, publicar outro romance e dois livros de poesia.

"Minha vida poderia ter sido muito pior. Pude enfrentar tudo o que aconteceu comigo com dignidade", conclui.

 

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