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Tony Barros, o fotógrafo da Cidade de Deus

26/05/2014 13h45

RIO DE JANEIRO, 26 Mai 2014 (AFP) - Se tudo não fosse informal nas ruas apertadas da Cidade de Deus, que chegou a ser uma das comunidades mais violentas do Rio, Tony Barros, de 47 anos, levaria o título de fotógrafo oficial.

"Ser fotógrafo aqui não é como ter um estúdio em Copacabana. É preciso conhecer os códigos. Pouco importa se você é bem visto. Se um dia cometer uma vírgula de erro, você morre", conta este autodidata.

Ele conhece como poucos os perigos que ainda existem em becos e ruelas da comunidade de cerca de 40.000 moradores, mesmo depois da implantação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 2011.

A fotografia o inspirou e ajudou o jovem Tony a fugir da marginalidade.

Sua amiga Nadine Gonzalez, uma francesa que desenvolve projetos de moda em favelas há oito anos, o apresentou ao fotógrafo da AFP Christophe Simon.

Christophe explicou que queria ensinar as técnicas básicas do fotojornalismo a jovens da comunidade, para que contassem em imagens sua paixão do brasileiro pelo futebol.



- Uma ocupação ou o tráfico -

"Aquilo me pareceu genial. Era um sonho antigo", explicou Tony, que, como todos os dias, usa bermuda, camiseta e um boné de beisebol. "É fundamental oferecer a estes jovens projetos que os ajudem a ter uma profissão. Porque aqui você tem duas opções: aprender um ofício ou entrar para o tráfico".

Tony chegou com sua mãe em 1964 à Cidade de Deus, que quatro anos depois daria lugar ao bairro projetado pela COHAB (Companhia de Habitação Popular). Seu pai? "Um marinheiro" que ele conheceu pouco.

Quando tinha nove anos, sua mãe morreu. Um tio, funcionário da Light, o levou para viver com ele em seu pequeno apartamento em Copacabana. Ele deu uma "educação rígida" ao jovem.

Aos 16 anos, Tony voltou à Cidade de Deus, transformada em terra de ninguém. Facções de traficantes rivais disputavam sem piedade o controle do território.

A irmã de Tony o deixou abandonado à própria sorte. Ele passeava pelas praias para fugir do ambiente opressivo da comunidade, e se alimentava basicamente com as mangas que encontrava nas ruas.

Levado a um centro da Fundação Nacional para o Bem-Estar do Menor (Funabem), ele encontrou uma escola de criminosos no lugar que deveria encaminhar os jovens desfavorecidos a uma vida digna. Na Funabem, Tony conheceu os futuros chefes do tráfico no Rio.



- Moda favela -

"Meu tio me deu uma base. Ao contrário dos outros, tentei aprender tudo o que podia. Fiz cursos de pintura automotiva e até de enfermagem", conta.

Em meio a meninos de rua, drogados, maltratados pela polícia, ele encontrou uma saída em um centro de ajuda a menores dirigido por um seminarista, perto da Catedral Metropolitana. "Foi lá que comecei a tirar fotos".

E começou a fazer daquilo um ofício. Na Cidade de Deus, até alguns anos atrás, qualquer um que tentasse entrar com uma câmera fotográfica sem a autorização dos traficantes poderia ser condenado à morte.

Aniversários, casamentos, bailes funk; Tony era convidado ou, pelo menos, tolerado em todas as partes. Mas não deixou de passar por maus momentos "com uma arma engatilhada na cabeça".

Entre 2001 e 2002, ele se dedicou ao fotojornalismo, graças ao Viva Favela, um projeto de jornalismo cidadão alimentado por correspondentes locais.

O sucesso internacional do filme "Cidade de Deus" (2002), de Fernando Meirelles, voltou os holofotes para aquela comunidade.

Tony colocou a favela na moda, literalmente. Fundou com a colega Gisele Guimarães o projeto "Lente dos Sonhos", que ensina jovens da comunidade a serem modelos.

Em 2002, as fotos de seu primeiro desfile foram publicadas por um jornal de grande circulação na cidade. "Era a primeira vez que alguma coisa estava sendo publicada no Rio sobre a Cidade de Deus que não tinha relação com a violência", explica Tony. Outras publicações vieram em revistas europeias.

Tony montou seu estúdio em um local abandonado pela polícia havia mais de dez anos. As pessoas "vinham se drogar, se prostituir, defecar", lembra.

A construção tem três cômodos de paredes sujas. Em uma estante fica o seu museu pessoal: velhas câmeras Zénith, Canon e Olympus da era pré-digital estão expostas.

É lá que Tony seguirá dirigindo, junto com Christophe Simon e Nadine Gonzalez, o ateliê dos fotógrafos aprendizes, pelo menos até os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Dali poderá sair, algum dia, um fotógrafo profissional.

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