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Judeus de Maiorca de volta às origens

14/03/2012 18h22

PALMA DE MAIORCA, Espanha, 14 Mar 2012 (AFP) -Foi através da cozinha que Toni Pinya retomou suas raízes judaicas. Nasceu católico, mas nunca se sentiu como os demais. Ele faz parte dos 'chuetas', do catalão xueta/es, um grupo social da ilha de Maiorca, descendente de judeus convertidos.

'Chef' de cozinha, de 60 anos, famoso nesta ilha turística das Baleares, Toni trabalha, também, no fogão da pequena sinagoga de Palma de Maiorca, preparando incassavelmente tortinhas e brioches Kosher para toda a comunidade judaica.

Os 'chuetas', como todos os judeus que viviam na Espanha desde a Idade Média, foram perseguidos e obrigados a se converter ao catolicismo, a partir do século 14, e sob a Inquisição.

Mas, ao contrário das outras, esta comunidade conseguiu conservar seus costumes, continuando a praticar o judaísmo na clandestinidade, privilegiando, durante longo tempo, o casamento intercomunitário.

A dimensão estritamente religiosa dessas práticas desapareceu progressivamente, mas alguns costumes foram transmitidos de geração em geração, perdurando no tempo.

Toni se lembra, por exemplo, de ter visto a avó eliminar sistematicamente a gordura de porco de suas receitas: "eu perguntava a ela 'vovó, porque faz isso?', e ela me respondia: porque era assim que minha mãe fazia." E pegava em seguida "gordura de frango ou galinha, deixando-a derreter".

Sua avó também fazia a faxina na casa às sextas-feiras, "para que estivesse bem limpa no sábado", um costume que data do tempo dos ancestrais que celebravam o sabat. Mas toda a família, como os bons católicos, ia à missa aos domingos.

Nem totalmente católico, nem totalmente judeu: Toni teve, durante muito tempo a impressão de estar deslocado. A palavra 'chueta' é pejorativa no inconsciente coletivo de Maiorca. Quando criança, conta ter sido com frequência alvo de insultos.

- reconhecimento - Os 'chuetas' seriam atualmente 20.000 em Maiorca, identificados por 15 nomes de famílias. "Entre eles, a maior parte preferiria não sê-lo", conta Miguel Segura, escritor e jornalista, também descendente.

"Outros se sentem orgulhosos de suas origens, mas não desejam que influenciem sua vida, considerando que isto pertence ao passado", acrescentou ele.

Outros ainda, uma minoria, escolheram voltar-se ao judaísmo.

Em 2009, Miguel Segura, 67 anos, foi declarado judeu por um rabino de Nova York.

Há vários anos, esse pioneiro milita pelo reconhecimento desse grupo social. Pode contar para isto com o apoio do rabino espanhol da mesma origem Nisan Ben-Abraham, e com o Shavei Israël, uma associação israelense em busca de comunidades judaicas "perdidas".

Este trabalho foi recompensado em julho de 2011: um grande rabino israelense reconheceu oficialmente a comunidade, considerando-a judaica.

"Após tantos anos durante os quais os judeus achavam que não éramos, e que os 'goys', isto é, os não judeus, nos tomavam por judeus, a decisão foi considerada um verdadeiro reconhecimento. Uma chegada a bom porto", destacou Miguel Segura.

O julgamento do grande rabino israelense não dá, no entanto, automaticamente, o estatuto judeu a qualquer membro da comunidade.

Toni, por exemplo, ainda não é judeu. Mas há dois anos ele se prepara. Usa o 'kippa' e faz um curso na sinagoga.

A decisão fez com que perdesse vários amigos: "Eles me perguntavam por que, então, eu ia lá".

"Às vezes, eu também me questiono sobre se tudo isto vale a pena... mas, finalmente, a razão fala mais forte: minhas raízes são judaicas", afirma ele.

Sua família, também, precisou se acostumar a novos hábitos alimentares. Em suas receitas, ele substitui os peixes sem escamas por peixes com escamas, a banha pela margarina - os ingredientes de uma perfeita cozinha maiorquino-sefardita.

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