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Arte fálica ancestral começa a rarear no Butão moderno

19/10/2011 16h14

THIMPHU, Butão, 16 Out 2011 (AFP) -No reino himalaio do Butão, o falo - símbolo ancestral pintado nas paredes das casas para afastar os espíritos maléficos - começa a rarear na capital, que aspira à modernidade.

O desaparecimento deste motivo tradicional, presente por todo o interior, simboliza as profundas mudanças em curso num país que conseguiu, durante séculos, preservar sua cultura da influência externa.

Os primeiros turistas estrangeiros só foram aparecer em 1974 e a televisão só chegou em 1999, em meio ao temor do impacto dos valores ocidentais num país que jamais foi colonizado, apesar de sua posição vulnerável entre a Índia e a China.

Na periferia de Thimphu, Tshewang Nidup mostra-se orgulhoso de sua arte, com falos de dois metros de comprimento, pintados a cada lado do portão de entrada da casa.

"O pênis é um símbolo importante porque achamos que, com a representação do falo, o diabo é afastado", resume este homem de 46 anos, pai de seis filhos. Serve também de proteção contra a infertilidade.

A origem do falo na cultura do Butão provém de uma figura mítica chamada Drukpa Kunley, ou "Divino louco", para designar um sábio tibetano, que teria percorrido o país seduzindo as mulheres e lutado contra o diabo nos séculos 15 e 16.

Considerado um santo nacional era dotado de um membro mágico que lhe permitia voar ou cuspir fogo.

"Dominava os demônios mostrando seu pênis", conta Nidup, um religioso budista, e um dos autores de um livro de provérbios. "Ele meditava e produzia um calor interno que transformava seu falo numa barra quente de ferro que usava para queimar".

Mas em Thimphu, onde as construções de apartamentos e de centros comerciais vivem plena expansão, as atitudes em relação ao imaginário popular mudaram.

"Acho que as pessoas aqui se sentem um pouco embaraçadas", considera Dasho Karma Ura, pesquisador do Centro de estudos butaneses. "Na cidade, as pessoas são muito mais influenciadas pelo que acontece no Ocidente".

A preservação da cultura nacional é um dos quatro pilares da "Felicidade Nacional Bruta", um indicador de desenvolvimento inventado pelo antigo rei nos anos 70 e preferível ao "Produto Nacional Bruto", fundado sobre o crescimento econômico.

Os butaneses devem usar os trajes tradicionais nas dependências do governo, a meditação foi introduzida nas escolas públicas e os festivais religiosos são amplamente encorajados.

Segundo Karma Tshiteem, secretário da Comissão da Felicidade Nacional Bruta, uma agência encarregada de propor diretrizes políticas, as prioridades dos moradores de Thimphu tornaram-se mais consumistas.

"A maior mudança foi trazida pela televisão e o gênero de valores veiculados pelas séries e demais programas. Uma assinatura de 50 canais pode ser feita por menos de 10 dólares", destaca ele.

Nas ruas e na capital, os moradores em trajes tradicionais cruzam com jovens vestidos de uniforme e bonés de beisebol.

As lojas que vendem flechas para o tiro com arco, o esporte nacional do Butão, aparecem ao lado de clubes de videogames cheios de jovens bebendo Coca-Cola, usando o Facebook em seus celulares.

Segundo Ura, a mudança de atitude, em relação ao falo, reflete o afastamento crescente entre jovens e velhos, entre citadinos e camponeses.

Mas cerca de 70% dos habitantes ainda vivem no campo e em numerosas aldeias, onde o falo de madeira ainda está presente em festivais religiosos ou nos campos para proteger o rebanho.

"Em geral, as pessoas não têm ideia do que perderam. A cultura, influenciada por valores budistas, é qualquer coisa de muito precioso que é preciso preservar", considera o pesquisador.

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