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A destruição inexorável da cidade histórica de Kashgar

09/08/2011 14h58

KASHGAR, China, 7 Ago 2011 (AFP) -No centro de Kashgar, cidade considerada um verdadeiro patrimônio da antiga Rota da Seda, a destruição do bairro velho tornou-se símbolo da perda de identidade da etnia uighur, de língua turca e de religião muçulmana, ante a política de desenvolvimento econômico e cultural de Pequim.

Em meio aos chamados à prece do final do jejum diário do Ramadã, os moradores de Kashgar tomam o caminho das mesquitas numa paisagem de onde emergem as gruas, como testemunho das transformações radicais em curso na cidade.

"Kashgar é uma nova Kashgar, não tem mais nada a ver com nossa cidade centenária. Nossa cultura foi apagada", lamenta um comerciante uighur de 24 anos, que prefere não ter o nome divulgado.

Segundo o governo da Região autônoma de Xinjiang (noroeste da China), a demolição diz respeito a construções de risco, como parte de um programa destinado a realocar cerca de 50.000 famílias, avaliado em sete bilhões de iuanes (760 milhões de euros).

"Kashgar se situa numa zona de atividade sísmica, daí a importância de as casas resistirem a um tremor de terra", explica Aysajan Ahat, responsável pelo programa. Mas os moradores respondem, designando construções de vários séculos.

Na medida em que avança a demolição, as casas tradicionais, de adobe, são substituídas por habitações semelhantes, mas levantadas com cimento e tijolos.

Várias pessoas são abrigadas, temporariamente, em novos bairros na periferia (de até vários quilômetros de distância), onde são levantadas altas torres, como acontece na maior parte das grandes cidades chinesas.

A demolição da cidade velha uighur também é acompanhada da instalação de infra-estruturas para as tubulações de água e eletricidade e do alargamento de ruas, segundo o governo local.

Situada perto da Ásia central, Kashgar era frequentada por comerciantes e viajantes que usavam a Rota da Seda, entre a China e o Oriente Médio -, a partir do século II. Além da comunidade uighur, também vivem aí cazaques e tadjiques, assim como os Hans, a etnia majoritária na China.

Kashgar, escolhida por Pequim para a construção de uma zona especial de desenvolvimento econômico, se preservada, seria testemunha de uma rica História.

Alguns ainda se comovem. Os deputados europeus pediram em março, à China, cessar "imediatamente" a demolição do centro histórico de Kashgar, numa resolução aprovada em Estrasburgo.

A dissidente uighur em exílio Rebiya Kadeer considerou a demolição dos velhos bairros de Kashgar uma "afronta à identidade uighur", estimando que representava uma "tentativa de assimilação". "Esta demolição priva o mundo de um local insubstituível", acrescentou.

Os moradores, forçados a deixar suas casas, dizem que possuem poucos direitos de escolher a concepção da nova habitação, uma queixa reprovada em bloco pelas autoridades, que afirmam consultar as famílias a cada etapa do processo.

Mas a operação não tem transparência, segundo conhecedores do mundo uighur.

"O programa de demolição e de reconstrução é tão confuso que é impossível dizer se todas as casas destruídas serão substituídas", explica Michael Dillon, autor da obra "Xinjiang, China's Muslim Far Northwest".

Alguns uighures acusam Pequim de não respeitar seu modo de vida e sua cultura, num clima de tensões persistentes. No último final de semana de julho, por exemplo, ataques e ações da polícia deixaram 21 mortos em Kashgar.

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