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Sábato, um escritor essencial e um homem desencantado com a civilização

AFP
O escritor argentino Ernesto Sábato, em foto de 2004 Imagem: AFP

30/04/2011 17h44

BUENOS AIRES, 30 Abr 2011 (AFP) -Ernesto Sábato, escritor essencial da literatura argentina do século XX, homem ateu, polêmico, defensor dos Direitos Humanos, desiludido com a civilização, pintor de horrendas imagens oníricas, morreu neste sábado a poucos meses de completar cem anos.

"Eu escrevo, porque senão estaria morto, para buscar o sentimento de existência", confessou Sábato, que no fim da vida deixou seu testamento espiritual em "Antes do fim", um livro em que um Kafka de final de século reflete a perplexidade e o desconcerto do homem contemporâneo.

"Extraviado em um mundo de túneis e corredores, o homem treme ante a impossibilidade de qualquer meta e o fracasso de qualquer encontro", escreveu.

Mas, apesar do desamparo, propõe "com a gravidade das palavras finais da vida, que nos agarremos a um compromisso...apenas aqueles capazes de sustentar a utopia, estarão aptos para o combate decisivo, o de recuperar o quanto de humanidade que tenhamos perdido".

Além do Prêmio Cervantes de 1984, nove anos antes havia recebido o prêmio de Consagração Nacional da Argentina e, um ano depois, o prêmio de Melhor Romance Estrangeiro na França, por "Abaddón, o exterminador".

A Itália o homenageou em 1977 com o prêmio Medici, a Espanha fez o mesmo um ano depois com Grã Cruz ao Mérito Civil e em 1979 a França condecorou o escritor como Comandante da Legião de Honra.

Apesar dos reconhecimentos internacionais e de ter se transformado em um dos ícones populares da literatura de seu país, Sábato minimizava seus dotes de escritor.

"Nunca me considerei um escritor profissional, daqueles que publicam um romance por ano. Pelo contrário, à tarde queimava o que tinha escrito pela manhã", declarou.

Seus tempos de militância política começaram na Juventude Comunista, enfrentando o peronismo na década de 40, mas sua maior expressão de engajamento social foi apresentada na primavera democrática de meados dos anos 80, quando presidiu a Comissão Nacional pelo Desaparecimento de Pessoas (Conadep).

O relatório da Conadep, conhecido como "Nunca Mais" e que teve o prefácio do escritor, foi a base do Julgamento das Juntas Militares em 1985, considerado o "Nuremberg argentino".

Nascido em 24 de junho de 1911 na cidade de Rojas, o penúltimo de onze filhos, Sábato tentou primeiro compreender o mundo através da ciência e cursou doutorado em Física na Universidade de La Plata.

Trabalhou com radiações atômicas no laboratório Curie de Paris, mas acabou abandonando esse caminho em 1945 desestimulado porque, como disse, estava desencadeando um Apocalipse.

Decepcionado com a ciência, abraçou a literatura e no mesmo ano escreveu o ensaio "Nós e o Universo". Depois, com seus únicos três romances "O túnel" (1948), "Sobre heróis e tumbas" (1961) e "Abaddón, o exterminador" (1974), traduzidos para mais de trinta idiomas, consagrou-se definitivamente como escritor.

"Meu pai tem uma mistura louca de pensamento racional com fantástico, um dos pontos de partida de suas obras. Isso diferencia um cientista que examina com racionalidade o mundo com seu contexto de um criador que o transforma", disse seu filho, o cineasta Mario Sábato, em uma recente homenagem.

Mario é o filho mais novo de Sábato com sua falecida esposa Matilde Kusminsky Richter, e é autor do documentário "Ernesto Sábato, meu pai".

Matilde Kusminsky morreu em 1998 e a partir de então sua colaboradora de sempre, Elvira González Fraga, tornou-se sua inseparável companheira e foi quem anunciou sua morte neste sábado.

O outro filho do casamento, Jorge Sábato, foi vice-chanceler e ministro da Educação do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983/89). Foi a primeira autoridade do setor de Educação do país a se declarar publicamente agnóstico e morreu em um acidente rodoviário em 1995.

O aniversário de 100 anos de Sábato, no dia 24 de junho, seria festejado com vários atos em todo o país, mas o coração do escritor parou de pulsar neste sábado na cidade de Santos Lugares, no bairro em que viveu toda sua vida.

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