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Por que o funk incomoda tanto?

Baile funk Nitro Point, no Estádio do Canindé, em São Paulo - Jardiel Carvalho/UOL
Baile funk Nitro Point, no Estádio do Canindé, em São Paulo
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Ronald Rios

Especial para o UOL

12/12/2019 04h00

O funk sempre incomodou. Eu era criança com minhas fitinhas K7 da Furacão 2000, equipe Pipo's, DJ Marlboro e por aí vai. Gostava de ir no banho de espuma. Como o nome sugere, era um banho de espuma que caía do teto enquanto o DJ libertava as batidas. Eu adorava o bordão "liberta, DJ!". Era engraçado e ao mesmo tempo fazia reverência ao DJ, mesmo que os olhos da plateia, tal qual no rap, sempre acabem mais fixados no MC, o DJ merece igual carinho. E é responsabilidade do DJ libertar o pancadão, do contrário o MC fica igual uma mosca ali em cima. Isso era 1995, 1996.

A reação de qualquer familiar mais velho era "isso não é música".

Imagina falar para alguém que está há horas dançando, cantando e decorando letras, ficando colado no rádio para dar "rec" quando tocava um funk novo? Imagina a arrogância e chatice para essa pessoa falar que o que os jovens estavam fazendo? Curtindo uma música. Eu não entendia. Parecia música. Sim, rolava uma desafinada. Muitas gravações tinham uma vibe - quando não exatamente a procedência - caseira, mas isso não importava. Era até mais fácil para nós imitarmos as performances dos nossos funks favoritos. Não vejo muita diferença entre isso e o Bob Dylan. E isso não é uma frase de efeito.

Eu entendo que Dylan tem uma discografia maior e carreira mais longeva, mas isso não muda o conceito de que ele, tal qual vários funkeiros, cantava sua verdade de um jeito particular. Particularmente desafinando. E isso soava cool. Era real, tinha o sotaque do morro. Se você cresceu em periferia que nem eu e meus amiguinhos, era irado ouvir alguém com o sotaque largado que nem o seu no rádio. Falando sobre as festas e morros que a gente frequentava, os campinhos que a gente frequentava, os terrores que a gente lidava.

Titãs ou Legião não interessavam a gente - felizmente.

Jardiel Carvalho/UOL
Imagem: Jardiel Carvalho/UOL

Meu pai adorava falar que funk não era música - ele gostava de Tom Jobim, a tal "música de verdade". Ao mesmo tempo, ele abandonou a mim e a minha mãe em 1998 em uma favela onde nascem esses funks que não são música. A ironia é doce.

Um homem velho conservador que não sabe o que é ser pai dita que funk não sabe ser música. Ele não está sozinho nessa. Eu vejo jornalistas musicais "consagrados" (por quem?) na mesma pegada. Pelo menos eu não tenho daddy issues com eles.

Anos se passaram, chegou o tamborzão para tomar espaço do miami bass. A sexualidade aumentou no funk. Passamos de trocadilhos ao papo reto. O funk ganhou playboys e patricinhas. Ele foi apresentado à Europa de forma irônica pelo Cansei de Ser Sexy.

Avança mais um pouco: a ostentação torna ele maior que o rap. As letras são mais simples, o visual mostra todas as riquezas que são proibidas ao público. É a fórmula dum novo fenômeno.

Anitta surge e faz barulho com seu funk pop. Atrai olhos americanos. Kevin O Chris grava com Drake.

E ainda assim não é música.

É algo atípico. É o convidado das estrelas dos festivais - mas não a atração principal.

O que aconteceu em Paraisópolis tem a ver indiretamente com o funk. Tem a ver diretamente com os pobres. Tem a ver com o valor que o Estado e sua polícia dão pro pobre e tudo que lhe circunda, funk incluído.

Sob a desculpa de que bandidos entraram numa festa de funk de rua, a polícia agiu não muito diferente do modus operandi da OVRA, Organizzazione per la Vigilanza e la Repressione dell'Antifascismo; a truculenta polícia fascista de Mussolini. Primeiro os jovens teriam sido pisoteados na confusão - o que já não é certo. A polícia, em teoria, deve agir com estratégia para prender criminosos, mas sem no processo aterrorizar as pessoas, a não ser que nesse momento eles nem olhem as pessoas como isso, o que surpreende um total de algumas pessoas que tudo é caso isolado. O doido é que é tanta caso isolado que eles acabam se embaralhando. Parece até que não é tão isolado assim.

Depois surgem laudos indicando enforcamento - tecnicamente "asfixia mecânica" - e você vê que não foi só uma ação atrapalhada da PM. Foi um ataque. Simples.

Aí você ouve os mesmos "datenismos" de sempre: "Quem mandou estar lá no meio do fluxo?"

Ninguém mandou. Era a festa. Você não precisa mandar as pessoas para uma festa. Elas vão pois é divertido.

O baile funk é divertido.

Aí tem os "datenismos" mais brandos: "Se tivesse outras atrações culturais na favela, as pessoas não precisariam ir pro baile funk, a única opção cultural que tem na favela."

Iriam.

Agradecemos a condescendência, mas ir no baile funk é uma atividade cultural. Tem música, tem dança. É claro que quanto mais diversa as opções de acesso cultural nas periferias são, mais legal é. Mas entenda: aprender violino e jogar xadrez não eliminam o barato que é curtir um baile funk no fim de semana. Na verdade, há muitos anos a playboyzada rica em opções culturais cai pros bailes funks - uns mais gentrificados, outros mais raiz, de quebrada mesmo.

Toda vez que falam que se houvesse outra opção, o funk não seria consumido. Seria. É nossa música eletrônica. É nossa música pop. É maior que o rap, que o samba.

Tem inteligência no bagulho, tem engenharia, tecnologia, criatividade e sentimento. Não dá para esperar a próxima estrela internacional vir gravar um funk com alguém daqui - ou simplesmente levar nossos produtores para lá e meterem um funk pro mundo sem um brasileiro para dividir a track. Drake não quer salvar a vida de nenhum funkeiro. A Madonna quer se manter interessante.

O funk é música. Incomoda pois é periférica. Já foi assim com o samba. O rock de condomínio, a bossa nova, os folks tilelê, a música eletrônica internacional? Nenhuma festa de nenhum desses gêneros é mais pura que um funk. E a droga está em todas as festas desde o Império Romano. Mas a polícia não apavoraria ninguém nessas festas.

Qual foi a última vez que você ouviu falar de algo do gênero em outro tipo de festa? Nem toda festa no Brasil tem a polícia pronta pra tocar o terror. Porque nem toda festa é gueto, nem toda é com preto e claro, "não é esse lixo que é o funk".

A solução? Eu não sei. Eu sou só um moleque que curtia usar macacão jeans com Rebook branco e camiseta da Bad Boy pra tirar um barato no viaduto de Madureira. Mas eu olho pros meus amigos e hey, a gente jura que escuta música. Funk é de verdade. Os velhos como meu pai que aceitem. Mas a idade não basta para se ter uma cabeça velha. Tem velhos de 15 anos também, o barato tá doido. A molecada tá achando ser bonitinho ser careta. Bando de garotos mamãe-falei. Eu só torço pra que os meninos e meninas saiam pra curtir e voltem de manhã felizes. Curtam seu funk na moral igual eu curti no meu tempo.