Topo

Música


Como um ex-Timbalada entrou para o Cirque du Soleil publicando vídeos no YouTube

Paulo Mustafa/Reprodução
Marquinho, 39 anos, que já fez mais de 700 shows com o Cirque du Soleil no mundo Imagem: Paulo Mustafa/Reprodução

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

22/01/2019 04h00

Até 2015, o percussionista baiano Marquinho da Luz, ex-Timbalada, morava de aluguel em São Paulo. Casado e com dois filhos, havia acabado de vender o carro para comprar um caríssimo vibrafone. A grana que ganhava tocando com a dupla sertaneja Leo & Junior não era das melhores e a perspectiva como músico de apoio parecia definhar. A sorte mudou de lado em agosto daquele ano, no dia em que recebeu um inesperado e-mail do diretor artístico do Cirque du Soleil. Ele estava sendo convidado para uma audição e, quem sabe, poderia integrar a banda da companhia.

"Foi maravilhoso. Minha mulher estava tomando banho, fiz ela abrir a porta do banheiro. Falei: 'Para aí um pouco'. Então comecei a ler o e-mail com ela, aos prantos", conta ao UOL o músico. Marquinho foi descoberto pelo circo quase por acaso, quando começou a postar vídeos no YouTube para divulgar seu trabalho, logo depois de deixar o sertanejo para trás.

Hoje, ele é um dos oito músicos --quatro deles, brasileiros-- que executam ao vivo a trilha do espetáculo "Ovo", produção do Cirque du Soleil dirigida pela brasileira Deborah Colker que roda o mundo desde 2009, inspirada no universo dos insetos. A música dos shows é assinada pelo compositor carioca Berna Ceppas, fortemente influenciada pelos sons do Brasil.

O show estará no Brasil entre março e maio, com datas em Belo Horizonte, Rio, Brasília e São Paulo. Um dos destaques do espetáculo é o habilidoso solo de pandeiro tocado por Marquinho em um dos atos, ideia sugerida por ele mesmo à direção musical.

Após ingressar no grupo no início de 2016, o percussionista já fez mais de 700 shows em três continentes. Com o bom salário da companhia canadense, muito superior ao que recebia tocando axé e sertanejo, Marquinho saiu do vermelho, mudou de vida e, atualmente, está construindo uma casa para a família em São José dos Campos, interior de São Paulo, onde vive desde que abandonou a Bahia em busca do sonho maior: ser reconhecido como músico profissional.

Divulgação
O percussionista Marquinho da Luz, ex-Timbalada e Leo & Junior Imagem: Divulgação

Veja abaixo os principais trechos da entrevista.

Trajetória

"Sou baiano e comecei muito novo na música, desde os 13 anos. Comecei a tocar em grupos percussivos em Salvador, que era muito comum na época. Acabei expandindo um pouco mais e cheguei na Timbalada do Carlinhos Brown. Toquei com ele durante dois anos nos Carnavais. Aos 18 anos tive uma proposta para ir pra São Paulo para fazer o Carnaval, e não voltei mais. Continuei tocando em banda de axé, comecei a fazer contatos e conheci o Chico Oliveira, trompetista do Jô Soares. Gravei muitos CDs e DVDs instrumentais até chegar no sertanejo, com a dupla Léo & Junior. Viajei o Brasil com eles, mas não tive retorno financeiro. O cachê não era legal. E eu já estava com 34 anos, morando de aluguel, com filhos. Tinha investido tudo que eu tinha e só tinha meus instrumentos. Não dava mais."

Com o jogo virou

"Foi quando eu comecei a gravar vídeos e colocar no YouTube, mas não tinham muitas visualizações. No Brasil, a música instrumental não tem muito apelo. Então, um dia eu estava em casa, recebi um e-mail escrito 'Cirque du Soleil'. Na hora eu pensei que eram os caras me convidado para comprar convite. Aí abri o e-mail, cara, comecei a ler. Era um texto grande. Li duas linhas e parei. 'Olá, tudo bem, Marquinhos.' Já falando meu nome. 'Sou fulano de tal. Sou diretor artístico do Cirque du Soleil, vi uns vídeos seus no YouTube'. Aí eu parei de ler, cara. Não podia ser. Foi maravilhoso. O diretor me perguntou se eu tinha como gravar um vídeo para uma audição. E, se eu pudesse gravar, para gravar o quanto antes. Porque já havia umas pessoas participando do teste. Ele viu meu vídeo e eu acabei entrando de última hora na disputa."

Divulgação
O percussionista baiano Marquinho da Luz Imagem: Divulgação

Como foi a audição?

"Contratei um cara de câmera para fazer legal. Eu me tranquei dentro de um quarto por dois dias, estudei as músicas que ele tinha mandado a partitura e juntei uma equipe para poder fazer. Foram três vídeos. Eles demoraram um mês para responder. Posso dizer que foi o mês mais longo da minha vida (risos). Recebi o e-mail deles mais ou menos em agosto, e eles responderam em setembro. Comecei a turnê em fevereiro de 2016."

Divulgação
O percussionista posta com os filhos no Cirque du Soleil Imagem: Divulgação

Adaptação no exterior

"Eu não falava o inglês, que é a língua oficial ali dentro. É outro mundo, cara. Tudo é muito profissional e todos têm uma mentalidade muito bacana. Eu tive que correr atrás, aprender o idioma, me adaptar. Somos artistas de 16 nacionalidades diferentes. A gente faz uma média de, no mínimo, sete shows por semana. Fazemos 11 semanas de espetáculo e tiramos uma pausa de duas semanas. Depois, a gente volta. A gente ganha [o dinheiro] na quantidade. E, nessas duas semanas de folga, elas bancam nossa volta para casa. Quem quiser ir para outros lugares pode ir. A gente é totalmente 'free'. E vivemos muito bem no Cirque. Sempre estamos em bons hotéis, sempre com alimentação na faixa."

O processo de ensaios e a apresentação

"A música é praticamente, 85%, composta em cima do contexto da música brasileira. Vai do carimbó, baião, axé, samba, reggae, forró, frevo, bossa nova. A gente tem um 'bandleader' [diretor musical], e às vezes tem que fazer algumas mudanças nas músicas quando algum performer se machuca e não pode participar. O bandleader recebe as coordenadas do diretor artístico, e ele adapta as músicas para alguma seção do show. Apesar disso, não existe uma regra fixa. Cada um tem uma responsabilidade, mas é bastante livre pra gente colocar nossa interpretação.

A gente toca dentro do que a gente chama de 'caverna'. Há uma parede cênica em que os artistas pulam, e a gente toca embaixo dela. É como se fosse uma tela, pela qual a gente consegue ver o palco e público. Mas a gente é orientado por um monitor. Assistimos ao show em tempo real."

Divulgação
Solo de pandeiro de Marquinho no espetáculo Ovo Imagem: Divulgação

Como criou um solo de pandeiro no espetáculo

"Quando mudei para São Paulo aos 18 anos, morando em república, eu era o pior pandeirista do mundo. É muito difícil tocar. Mas decidi que precisava aprender. Um amigo baiano me deu um material do Marcos Suzano, que é uma referência no pandeiro de couro no Brasil e no mundo inteiro, e eu comecei a estudar o tempo todo, por três meses. Quando eu já estava no circo, Debora me chamou e falou: 'Queria que você fizesse alguma coisa lá na frente, como palhaço, e queria que você fizesse um solo'. Sugeri o pandeiro. Fiz o solo para ela na hora, e ela pirou. 'Pô, meu, é isso!'. Esse solo acabou virando uma identidade do show, um momento maior de brasilidade."

Futuro

"O circo tem 22 shows atuando. Agora em 2019 dois shows novos vão abrir. O nosso vai fechar no fim do ano. Normalmente, eles dão prioridade no casting a quem já trabalha com o circo. A partir do fim do ano, eles vão começar a olhar pra gente e pra outros músicos que trabalharam em outros shows. Eu pretendo continuar. Já deixei bem claro para eles. Mas tenho uma condição. Não quero fazer o tipo de show que estamos fazendo, que é show de arena, e acontece todos os dias da semana. Minha vontade é pegar um show de tenda, que eles montam por três meses em uma cidade, ou um show permanente em uma cidade."

Dicas para quem quer chegar onde você chegou

"Para ser um bom músico, independente do instrumento que se toca, primeiro tem que ter paixão. Segundo é montar um plano de carreira. Entender onde você quer chegar e se juntar com pessoas que possam te levar pra frente. Também acho importante ter uma cabeça mais aberta para vários segmentos. Aqui, a maioria dos músicos está presa a um gênero musical ou instrumento. Temos que ter a cabeça mais ampla e também estudar bastante."