Topo

Música

Show de Johnny Cash que calou Casa Branca é resgatado em documentário

Divulgação
Richard Nixon e Johnny Cash Imagem: Divulgação

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

21/11/2018 04h00

Rebelde e dono de si, Johnny Cash criou uma das carreiras mais consagradas na música country e no rock, e se tornou tão importante que suas posições políticas passaram a ser consideradas influentes no cenários norte-americano. É sobre isso que trata o documentário "Tricky Dick and the Man in Black" que conta como o astro fez na década de 1970 um show cercado de polêmicas na Casa Branca, a convite do próprio presidente Richard Nixon, e o desfecho não foi o esperado.

O documentário faz parte da série "Remastered", da Netflix, que conta algumas histórias de famosos da música que são pouco conhecidas, ou caíram no esquecimento do grande público. Depois de retratar o atentado a tiros a Bob Marley, o novo personagem principal é Cash. E, assim como acontece com “Who Shot the Sheriff”, a produção não se propõe a ser apenas uma peça de entretenimento sobre os artistas, mas usa os temas principais para dar um panorama histórico e social.

Neste caso, num primeiro tempo ele cobre os Estados Unidos da infância de Cash, quando ele teve uma formação muito patriótica e religiosa e cresceu cantando e colhendo algodão no campo. Com ajuda de irmãos e filhos, descobre-se que o espírito rebelde do cantor, que ficou famoso por cantar na prisão e gravar por lá o seminal disco ao vivo "At Folsom Prison" (1968), tem muita influência da morte de seu irmão.

Um acidente trágico com uma serra matou este irmão, Jack, que era o mais temente a Deus e amado pelo pai da família, Ray Cash. O patriarca passou a renegar Johnny.

Anos depois, já famoso, Johnny Cash virou um dos personagens mais importantes dos Estados Unidos, em um período em que o país estava dividido: metade da população apoiava a Guerra do Vietnã; metade pedia o fim do confronto. Cash, que costumava se manter neutro, usou seu programa de TV para, em 1969, passar uma mensagem de apoio aos soldados, e que refletia em apoio a Nixon.

O presidente, então, aproveitou a deixa, a fama de Cash e a importância da música country entre os conservadores, seu público alvo, para convidar Cash para a Casa Branca. 

Polêmica antes mesmo do show

A apresentação de Cash tomou as manchetes nos Estados Unidos bem antes de acontecer. Nixon pediu para o cantor apresentar duas canções. Em ambas, as letras eram conservadoras. A primeira, "Okie from Muskogee", exaltava o padrão de vida caipira em oposição aos hippies que se opunham à Guerra no Vietnã. A segunda, "Welfare Cadillac", tem letra que critica cidadãos que ganharam pensões e bolsas do governo.

A equipe de Cash acenou que ele cantaria as músicas, o que gerou burburinho e protestos. Mas, homem rebelde que era, Cash tinha outros planos para seu show. Nixon assumiu o risco e quase teve do que se arrepender. O cantor country não apresentou as canções pedidas pelo presidente.

Cash escolheu para sua apresentação "The Ballad of Ira Hayes", a história de um índio americano que foi maltratado após servir o exército; "Man in Black" e uma canção chamada "What is Truth". Esta última foi a que deu mais o que falar. O cantor não foi ofensivo e muito menos colocou Nixon contra a parede. Mas a escolha desta composição mostrou que ele não estava alienado nos assuntos da Guerra do Vietnã e que ele tinha uma posição clara antiguerra e oposta ao que a Casa Branca pretendia passar.

Ao fim, a história da noite em que Cash chocou a Casa Branca é de fato muito interessante e teve implicações e influências reais, com mais um passo rumo ao fim da Guerra do Vietnã. 

No fim, Nixon não se sentiu atacado e até tomou para si a mensagem passada, ainda que a guerra tenha demorado mais cinco anos para acabar. Fato é que Cash fez valer sua fama de imprevisível, e mais uma vez fez as coisas à sua maneira, mesmo quando estava pisando na casa mais vigiada do mundo.