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Leitores ignoram que Exupéry vai além do "Pequeno Príncipe", diz estudiosa

Arquivo Succéssion Saint-Exupéry
O escritor Antoine de Saint-Exupéry Imagem: Arquivo Succéssion Saint-Exupéry

Rodrigo Casarin

Do UOL, em São Paulo

30/07/2015 12h48

O dia 31 de julho marca o desaparecimento de Antoine Saint-Exupéry, que teve seu avião abatido por alemães enquanto fazia uma missão de reconhecimento em 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Mais do que autor de “O Pequeno Príncipe”, cuja adaptação para os cinemas chega ao país em meados de agosto, o francês é dono de uma obra respeitável, porém sufocada pelo seu clássico infanto-juvenil.

Mônica Cristina Corrêa, pós-doutora em Literatura Comparada Brasil-França, ligada à Succession et Fondation Saint-Exupéry e que desde 2005 se dedica a estudos sobre o autor, diz que, ao se aterem ao clássico absoluto de Saint-Exupéry, as pessoas perdem a oportunidade de conhecer o autor em si. “Muitos leitores se limitaram a repetir trechos do 'Pequeno Príncipe' como clichês de cartões de aniversário e não se deram a oportunidade de conhecer o piloto pioneiro. Menos ainda, o piloto militar que morreu pela França, que se deixou imolar por seu país... É lamentável, mas é consequência do mundo em que vivemos, no qual o 'produto' se sobrepõe a tudo”.

Todos os livros do escritor dialogam fortemente com seu ofício de aviador, em uma época na qual guiar um avião era algo de extrema periculosidade. Cruzando os céus, Saint-Exupéry foi o responsável pelo correio entre a França e suas colônias na África. Também viveu dois anos no deserto do Marrocos, onde precisava dissuadir rebeldes a cessarem com os sequestros de outros pilotos franceses. “Seu dom para a comunicação fez dele um homem rapidamente estimado pelos árabes e possibilitou que salvasse alguns camaradas”, pontua a pesquisadora. Em seguida, o francês se tornou piloto militar.

Essa experiência está presente em seis de seus títulos, “Correio do Sul” (1929), “Voo Noturno” (1931), “Terra dos Homens” (1939), “Piloto de Guerra” (1942), “Carta a um Refém” (1943), e, claro, “O Pequeno Príncipe”, também de 1943, e em alguns outros textos e contos. A exceção à regra é “Cidadela”, publicado postumamente. “Não se trata simplesmente de falar dos aviões ou da profissão: Saint-Exupéry diz que o avião, para ele, é 'uma ferramenta' e não uma 'finalidade'. Ou seja: é o meio que lhe permite observar a vida – e literalmente do alto”, diz Mônica, que também é tradutora das novas edições de "O Pequeno Príncipe" e "Piloto de Guerra" que serão lançadas pela Cia. das Letras.

A especialista lembra que o autor afirmou em uma entrevista: “Tenho horror da literatura pela literatura. Por ter vivido ardentemente, pude escrever fatos concretos. Foi meu ofício que determinou meu dever de escritor”, o que escancara como todos os seus livros refletem suas próprias experiências.

"'O Pequeno Príncipe' foi transformado num produto"

Mônica lamenta que o restante dos livros de Saint-Exupéry seja praticamente sobrepujado pela história do pequeno aviador perdido em um deserto. Segundo ela, isso acaba por simplificar e banalizar a vida e a obra do autor e diminui o próprio “O Pequeno Príncipe”, que, recortado e afastado dos outros títulos, perde muito de sua riqueza.

“É claro que uma obra pode e deve ser lida como texto independente e cada leitor terá seu momento e sua interpretação. Mas o 'O Pequeno Príncipe', por ter sido o último livro escrito por um autor do quilate de Saint-Exupéry, mereceria uma leitura mais aprofundada e que conduzisse ao universo específico e maravilhoso de seu criador. Isso não acontece. São suas frases que viraram clichês, muitas vezes através de traduções únicas e pouco ligadas ao original, desenhos que viraram produtos de consumo, fantasias que desviam de um profundo senso de reflexão e de filosofia que o livro efetivamente tem”.

Saint-Exupéry não conheceu todo o sucesso de sua obra mais famosa. Depois de publicar “O Pequeno Príncipe” em 1943, em Nova York, o autor embarcou para a guerra que o vitimaria antes que o livro infanto-juvenil chegasse à França, em 1946. Em vida, o escritor foi reconhecido, e inclusive premiado, por tudo o que precedeu o título que agora vira filme, chegando a ser o francês mais lido nos Estados Unidos naquela época. “Para quem lê apenas 'O Pequeno Príncipe', sinceramente, Saint-Exupéry, em toda a sua grandeza, inexiste. Há nos dias de hoje quem leia a obra e nem saiba quem a escreveu”, diz Mônica. “Mas talvez essa também seja a função de uma obra, imortalizar uma ideia e não um homem”, completa.

As obras de Saint-Exupéry comentadas

  • Imagem: Divulgação
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    "Correio do Sul"

    "É tida como uma obra menos madura, o que é natural. Mas foi através desse livro que Saint-Exupéry começou a tornar conhecida uma realidade ?a da aviação civil à época? praticamente ignorada pelo público", diz Mônica Cristina Corrêa.

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    "Voo Noturno"

    "Escrito na América do Sul e vencedor do Prêmio Femina, constituído por um júri feminino. Imagine um livro que versa sobre a problemática da aviação, os voos noturnos que mal haviam começado, enfim, um universo basicamente masculino naquele tempo, ganhar o prêmio Femina? Dá para se ter a dimensão do discurso de Saint-Exupéry! O livro virou filme e tem até hoje um perfume com seu nome. Esses dois primeiros são romances baseados no cotidiano dos pilotos da Aeropostale [a companhia de correios aéreos da França na qual o autor trabalhou]".

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    "Terra dos Homens"

    "Premiadíssimo dentro e fora da França, é um livro mais autobiográfico, com o aprofundamento das reflexões do autor a partir das experiências que narra. É belíssimo, talvez sua obra-prima. Até essa fase nós temos um piloto civil e um homem ligado a essas experiências. A ruptura de tema se dará, no meu entender, com o advento da Segunda Guerra Mundial. Então, o mundo está de cabeça para baixo. Saint-Exupéry é mobilizado, vai fazer missões de reconhecimento de altíssima periculosidade e verá seu país invadido pelos nazistas, verá muita destruição. Do alto, claro, mas também de sua profunda análise da vida. É um homem mais maduro que enfrenta a derrocada da França, que quer convencer os Estados Unidos a entrarem na guerra, é um homem desesperado, que já sofreu muitos acidentes aéreos e que teme por seu país e pelo futuro da humanidade".

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    "Piloto de Guerra"

    "Pouco se comenta que há uma profunda relação entre este livro e 'O Pequeno Príncipe', bem como os demais da obra de Saint-Exupéry. 'Piloto de Guerra' foi publicado em 1942, enquanto o autor já escrevia 'O Pequeno Príncipe'. É a mesma fase da vida do escritor, é a mesma maturidade, o mesmo momento. São obras inextricavelmente ligadas".

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    "Carta a um Refém"

    "Obra pequena que deveria ser prefácio a um livro de seu amigo Léon Werth (a quem ele dedicou 'O Pequeno Príncipe') e acabou se tornando obra independente. Como 'Piloto de Guerra' e 'O Pequeno Príncipe', é uma criação do tempo que o escritor passou, em exílio voluntário, nos Estados Unidos. Esses três títulos são reflexo de um homem amargurado e preocupado, de um piloto militar".

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    "O Pequeno Príncipe"

    "Apesar de escapar à forma dos demais livros do escritor, por ser dirigido a um público infanto-juvenil e ilustrado pelo próprio autor, deve ser interpretado como reflexo de sua trajetória, afinal, trata-se de um piloto que cai no deserto. É uma obra sucinta, uma espécie de síntese de uma filosofia que Saint-Exupéry desenvolveu ao longo de toda a sua vida. O tom de parábola que se mostra no 'Pequeno Príncipe' já era algo que o autor estava 'praticando'. Em 'Piloto de Guerra' há várias passagens em que se percebe isso; são as mesmas repetições, o mesmo tom de ensinamento e aprendizado. Isso já acontecia até em 'Terra dos Homens', de 1939. Eu diria que é algo que vai se intensificando na trajetória do escritor, à medida que ele amadurece como artista e como homem".

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    "Cidadela"

    "Livro que ficou inacabado e foi postumamente publicado, é todo feito de parábolas que Saint-Exupéry escrevia paralelamente às demais obras. Ele mesmo dizia que seria sua 'obra póstuma'. É o título que realmente difere dos demais".

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