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Josh Malerman: Escrevo como se um baterista invisível tocasse ao meu lado

Rodrigo Casarin

06/10/2017 10h04

Foto: Chris Stranad.

"Essa palavra hedionda Nuclear é um segredo sussurrado até mesmo às costas de presidentes, supostos líderes mundiais", escreve Josh Malerman em "Piano Vermelho", livro que acaba de chegar no Brasil pela Intrínseca. O escritor norte-americano se tornou conhecido por aqui graças ao seu primeiro romance, "Caixa de Pássaros", que surpreendeu os próprios editores brasileiros ao vender mais de 120 mil exemplares – a obra, que se passa em um futuro pós-apocalíptico onde pessoas surtam, cometem atos de extrema violência e depois se suicidam, está sendo transformada em filme pela Netflix, com Sandra Bullock interpretando a protagonista.

"Piano Vermelho", por sua vez, é um thriller com elementos sobrenaturais. Na narrativa, o leitor acompanha um grupo de músicos de Detroit, cidade no nordeste dos Estados Unidos, que procura descobrir a origem de um som amaldiçoado que vem da África. Apesar do enredo com elementos fantasiosos, são diversas as semelhanças que encontramos entre a obra e o mundo atual. A questão nuclear apontada na abertura deste texto, claro, é uma delas.

Em entrevista ao Página Cinco, Malerman falou sobre essa ameaça que voltou a frequentar diariamente o noticiário por conta de um possível conflito entre Estados Unidos e Coreia do Norte. Na visão do autor, tudo se dá principalmente por conta da personalidade de Donald Trump e Kim Jong-un, que posam de valentões, mas parecem não levar em conta a consequência de suas palavras. "É frustrante porque fica claro que isso acontece por conta do ego dos dois. É como se estivéssemos no Velho Oeste, quando xerifes levavam as coisas com punho de ferro e as leis nos Estados Unidos eram maleáveis. Talvez esses caras tenham assistido muitos filmes".

Sobre a questão, o autor considera que uma outra passagem de "Piano Vermelho" também é bastante pertinente: "A filosofia não viaja com a mesma velocidade que a tecnologia. Um homem leva quarenta anos para aprender aquilo que seu pai demorou quarenta anos para aprender. E, o que é pior, ele resiste às verdades que o pai aprendeu, até que ele mesmo as aprende. Mas a tecnologia não espera. Tudo o que um homem tem a fazer é adicionar outra peça ao quebra-cabeça tecnológico do pai, e as máquinas, as armas, os meios ficam mais fortes. No fim, você tem um exército com a mesma filosofia que os homens das cavernas, mas com armas de dez bilhões de mentes simplórias".

Outro ponto da obra que parece caro principalmente aos brasileiros é um personagem que, por conta dos acontecimentos, passa a ter dificuldades para discernir o que é verdade e o que é mentira. "Penso que a verdadeira questão não é a luta para determinar o que é real e o que é falso, isso me parece muito óbvio, mas mostrar que certas pessoas nos dizem que isso ou aquilo é falso e espera que acreditemos. É tudo mais claro do que uma criança que finge gostar de ir à casa da avó, mas que, na verdade, o que realmente quer é comer os doces", diz o autor sobre a desfaçatez de muitos.

Ritmo de um baterista

A ideia inicial de Malerman era ambientar "Piano Vermelho" em uma floresta. Após uma sugestão do editor que o cenário passou a ser um deserto africano, lugar onde o autor jamais esteve – apostou principalmente em pesquisas em livros e documentários para imaginar como a história aconteceria na nova paisagem. "Quando o editor sugeriu, pensei 'por que não?'. O deserto combina bem com o som, há todo o espaço aberto para o som viajar, o vazio… Além do mais, é um ambiente especialmente estranho para os personagens".

Se na obra o leitor acompanha uma banda que investiga um som, na vida do autor as notas também são importantes – além de escritor, Malerman é músico, o que impacta em sua literatura. "Antigamente, se eu tivesse uma ideia longa, virava um romance, se fosse curta, virava música, mas essa linha está borrada há algum tempo. A maior influência que a música tem em meus livros é no ritmo. Sempre imagino um baterista invisível tocando ao meu lado enquanto escrevo. Às vezes isso me confunde até; quando releio os rascunhos não consigo lembrar da batida exata que havia imaginado, e tudo pode soar um tanto estranho. Mas na maior parte das vezes funciona. Eu e esse baterista invisível somos ótimos amigos".

Por fim, o autor também falou de suas expectativas para a adaptação de "Caixa de Pássaros", que começará a ser filmada nos próximos dias. Diz que não terá grande influência no que será feito, mas deseja que o longa seja diferente do livro. "Espero algo único. Eu amo a Sandra Bullock e achei que ela foi uma escolha incrível. Estou realmente entusiasmado para, quando terminarem as gravações, sentar com a minha noiva e dizer 'Vamos lá!', aí abraçá-la e me preparar para algo assustador".

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Sobre o autor

Rodrigo Casarin é jornalista pós-graduado em Jornalismo Literário. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Sobre o blog

O blog Página Cinco fala de livros. Dos clássicos aos últimos sucessos comerciais, dos impressos aos e-books, das obras com letras miúdas, quase ilegíveis, aos balões das histórias em quadrinhos.