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O dia em que Ennio Morricone me ensinou a importância da música no cinema

O compositor Ennio Morricone - Christoph Soeder/dpa Picture-Alliance via AFP
O compositor Ennio Morricone Imagem: Christoph Soeder/dpa Picture-Alliance via AFP
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

07/07/2020 04h48

Eu não devia ter nem 10 anos de idade quando sentei no sofazão da sala para assistir a "Três Homens em Conflito". Era uma sessão nas madrugadas da Globo, e eu dividia um balde de pipoca com meu pai (um entusiasta de westerns) e minha avó (uma entusiasta de Clint Eastwood).

O filme começou, achei divertido o modo como o título original surgia - "O Bom, o Mau e o Feio", pontuando a apresentação de seus intérpretes. Em minha inocência infantil, esperava um faroeste agitado, como os que eu conferia naquela mesma TV em muitas tardes após o dever de casa.

O que eu não sabia era que, quase três horas depois, estaria naquele sofá, boquiaberto, ainda sem entender o impacto do que tinha visto. A bem da verdade, levaria mais alguns anos para absorver tudo. Longe de tiroteios e cavalgadas, o que havia desenrolado ante meus olhos fora um estudo sobre a natureza humana, refletido na sombra da guerra civil americana.

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Clint Eastwood em 'Três Homens em Conflito'
Imagem: Warner

A história, entretanto, não teria um décimo do impacto se não fosse a trilha sonora onipresente, reverberando em meus ouvidos com temas que evocavam uma mistura de emoções, da tristeza ao júbilo, culminando em uma das cenas determinantes para cravar a minha paixão pela arte de construir histórias com luz e sons.

Em um cemitério estranhamente circular, o Bom (Clint Eastwood), o Mau (Lee Van Cleef) e o Feio (Eli Wallach) travam o duelo climático, em que a troca de tiros é substituída por uma montagem sufocante, mais e mais fechada nos olhos de seus protagonistas. Toda a história, e a infinita gama de emoções experimentada pelos personagens, é narrada pelos acordes de um mestre. Ele era Ennio Morricone.

Com quase quinhentas composições para cinema e TV em seu resumé, Morricone, que morreu em Roma no último 6 de julho aos 91 anos, alterou irremediavelmente a forma de criar música no cinema. Em "Por Um Punhado de Dólares", sua primeira parceria com o diretor Sergio Leone, seu colega de colégio na infância, ele abriu mão de um arranjo orquestral tradicional ao incorporar elementos atípicos nos arranjos, como guitarras e gaitas, influenciando o "som" usado por outros compositores no gênero.

Sua parceria com Leone, por sinal, tornou-se uma das mais festejadas na história. Assim como Alfred Hitchcock e Bernard Herrmann, Federico Fellini e Nino Rota, Steven Spielberg e John Williams, e Tim Burton e Danny Elfman, houve verdadeira simbiose entre diretor e compositor, entrelaçados como um único contador de histórias.

Essa era a função de Morricone quando assumia a trilha de um filme: elevar emoções com a precisão de um cirurgião e a paixão de um poeta. Os westerns foram certamente sua janela para o mundo - a trilha de "Era Uma Vez no Oeste" espelhou o sucesso comercial do filme. Mas ele nunca se furtou em experimentar outros gêneros e outras canções.

Ele trouxe o espírito de aventura no deslumbrante "A Missão", de Roland Joffé. Sublinhou o inconformismo político de "A Batalha de Argel" e de "Queimada!", ambos de Gillo Pontecorvo. Foi grandioso em "Bugsy", de Warren Beatty, e empolgante em "Os Intocáveis", de Brian De Palma. Fez o mundo chorar com Giuseppe Tornatore em "Cinema Paraíso".

Incensado na Europa, Morricone foi esnobado nos Estados Unidos ao longo de boa parte de sua carreira. Foi indicado cinco vezes ao Oscar antes de ser agraciado com uma estatueta honorária em 2007. Finalmente o mestre foi reconhecido pela Academia em 2015, por seu trabalho em "Os Oito Odiados", de Quentin Tarantino.

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O diretor Sergio Leone e o compositor Ennio Morricone
Imagem: Reprodução

Os louros da indústria, porém, empalidecem ante uma carreira iniciada como trompetista em bandas de jazz nos anos 1940, carreira que floresceu na década seguinte antes de ele e Sergio Leone mudarem a face do western nos anos 1960. O volume de seu trabalho só não impressiona menos que sua qualidade constante em traduzir em acordes a gama de emoções impressas em celuloide.

O que remete novamente a seu trabalho absolutamente genial e profundamente influente em "Três Homens em Conflito". Poucas composições são reconhecíveis em meros segundos como a trilha para a obra-prima de Leone. "Il Triello", que emoldura o tiroteio climático, ainda afeta minha alma com a mesma intensidade do momento em que descobri seus acordes.

A música no cinema já me havia impactado emocionalmente antes, especialmente com "Guerra nas Estrelas" e "Superman, O Filme". Mas eu não percebera o quanto ela era parte inseparável da narrativa até acompanhar a jornada de três homens em busca de um tesouro de ouro escondido. Ennio Morricone fizera a separação entre a história em cena e sua trilha sonora impossível.

Ao fim daquela sessão no sofá de casa, eu ainda tentava, envergonhado, disfarçar as lágrimas que teimavam em molhar meu rosto. Eu sabia que algo havia mudado em minha percepção de cinema, mas ainda seriam mais alguns anos até processar o espetáculo que eu acabara de ver. Meu pai percebeu minha reação, sorriu e, antes de me deixar com meus pensamentos, resumiu bem aquele momento: "Filmão, né?". Só balancei a cabeça. A arte, acredite, molda o caráter.

Roberto Sadovski