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Por que 'Tubarão' é o filme perfeito para entender o Brasil de hoje

Roy Scheider ataca o predador supremo em "Tubarão" - Universal
Roy Scheider ataca o predador supremo em 'Tubarão' Imagem: Universal
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

06/07/2020 04h53

São Paulo hoje se prepara para reabrir lentamente o comércio após meses de... errr... "quarentena", adotada para frear a velocidade de contágio do coronavírus. Bares e restaurantes assumem horários regrados, com as autoridades esperando que a população obedeça as regras de convívio social adequadas a este novo momento.

Longe de mim especular sobre saúde pública ou protocolos para enfrentar uma pandemia. Mas a julgar pela turma reunida no Leblon, no Rio de Janeiro, uns dias atrás, "distanciamento social" não é exatamente prioridade.

É uma situação que espelhou a volta à vida social em metrópoles como Londres, em que a polícia se viu incapaz de controlar a massa nas ruas. As autoridades, por sua vez, continuam dando de ombros.

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A turma no Leblon foge do... não, pera!
Imagem: Universal

Daí tirei o domingo para desligar a mente da realidade e catar algum conforto na Netflix. Coloquei "Tubarão", de Steven Spielberg, um clássico verdadeiro que não só mudou a cara do cinema como também é um dos grandes filmes da história.

A história do predador marinho que assombra uma cidade costeira americana já é parte do tecido da cultura pop. De certa forma, é também mais atual do que nunca, já que nos ajuda a entender esse momento estranho que vivemos. Por isso ver (ou rever) "Tubarão" é, hoje, essencial!

Grosso modo, o filme que Spielberg lançou em 1975, que adapta o romance de Peter Benchley lançado um ano antes, é sobre uma ameaça invisível. As autoridades possuem total conhecimento dessa ameaça, mas preferem ignorá-la em nome da "economia". A ciência é jogada para escanteio em nome da impunidade - afinal, não dá para prejudicar os negócios por conta de alguns mortos...

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A diferença de Amity e do Brasil? Não temos Quint, Brody ou Hooper
Imagem: Universal

Os paralelos com a vida real, com o que enfrentamos hoje, são óbvios. Cada elemento em "Tubarão" pode ser emparelhado com as reações do mundo (e do Brasil em particular) ante o coronavírus.

A população não entende uma ameaça que não pode ser vista, mas que se torna real quando os corpos são empilhados à frente de todos. As "autoridades" são despreparadas e, por fim, ignorantes. O prefeito da cidade de Amity é um negacionista com zero senso de liderança que tenta repassar a responsabilidade (lembra alguém?). E o tubarão é a força da natureza que não faz distinção de cor, credo ou posição social em seus ataques: ele é irrefreável.

O que falta do lado de cá do balcão, por fim, é o chefe de polícia Martin Brody. O policial interpretado por Roy Scheider é inicialmente hesitante em fechar as praias, atendendo o apelo do prefeito parvalhão. Mas ele percebe o tamanho da encrenca ao ouvir do cientista Matt Hopper (Richard Dreyfuss) que o predador no mar é um tubarão sem a predisposição de interromper seu banquete.

DESINFORMAÇÃO COMO PROTEÇÃO DO INIMIGO

Seus apelos são recebidos por ouvidos surdos. Assim como a rapaziada no Leblon, a população de Amity prefere a folia à segurança, e a praia está cheia, já que estamos no auge do verão, quando o tubarão faz mais vítimas e o sangue fica impossível de ser ignorado.

Ainda não chegamos nesse estágio de consciência, já que passamos de 60 mil vítimas fatais no país e nosso "prefeito" perde seu tempo celebrando a independência de outro país e não ressaltando a importância de itens de segurança mínimos, como o uso de máscara. É como se o prefeito de Amity, vendo o tubarão retalhar a população, instigasse a turma a voltar ao mar.

O terceiro ato de "Tubarão" substitui o suspense e o terror pelo desconhecido por uma aventura no mar que vê Brody, Hooper e o caçador de tubarões Quint (Robert Shaw) lançando-se ao mar numa tentativa de eliminar a fera. O tubarão, claro, é protegido pela escuridão do oceano, e vencê-lo exige habilidade e paciência. A "proteção" do coronavírus ainda é a desinformação.

A genialidade de "Tubarão" está em sua sutileza. Sem uma fera mecânica convincente, Spielberg a representou com o poder da sugestão e o tema musical de John Williams. Quando ele finalmente aparece em toda sua glória, o impacto é avassalador.

Muito mais que um filme sobre um tubarão assassino, o clássico consegue refletir o espírito do tempo. Na época foi visto como uma parábola sobre a Guerra do Vietnã, a derrota do "espírito americano" ante um inimigo invisível.

Fidel Castro, ditador e, aparentemente, crítico de cinema nas horas vagas, cravou que "Tubarão" era "um parecer Marxista devastador sobre o capitalismo americano". Errado ele não estava.

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Bruce, o tubarão mecânico, faz pose em 'Tubarão'
Imagem: Universal

Cá estamos, 45 anos depois de seu lançamento, percebendo como mais uma vez a obra-prima de Spielberg entrelaça-se com a vida real. O que ninguém esperava era que uma ameaça invisível fosse jogar sua sombra em todo o planeta.

Já a reação apatetada de alguns líderes, e o clima de festa torto por parte da população, infelizmente não são exatamente uma surpresa. Esse tubarão moderno, entretanto, continua percorrendo os oceanos, e a praia continua lotada! De fato, "Vamos precisar de um barco maior". O mais rápido possível.

Roberto Sadovski