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'O Atirador': diretor conta como fazer um filme veloz, furioso... e barato!

Tom Berenger em "O Atirador: O Fim de Um Assassino" - Sony
Tom Berenger em 'O Atirador: O Fim de Um Assassino' Imagem: Sony
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

01/07/2020 04h57

Todo ator quer uma série para chamar de sua. No mundo às vezes inconstante do cinema, interpretar um personagem popular que pode retornar em infinitas continuações é uma aposentadoria e tanto. Que o diga, por exemplo, Bruce Willis ("Duro de Matar"), Tom Cruise ("Missão Impossível"), Keanu Reeves ("John Wick") e até Jean Claude Van Damme ("Kickboxer").

Pode somar Tom Berenger à lista. "O Atirador: O Fim de Um Assassino" é o oitavo (!) episódio de uma série iniciada em 1993 (!!), e o sexto a contar com o ator veterano de "Platoon" e "A Origem". O que começou como um filme de ação modesto, dirigido por Luis Llosa (que depois faria "O Especialista", "Anaconda" e adeus), tornou-se uma máquina bem azeitada que segue forte há quase três décadas.

O segredo da longevidade é uma matemática simples. Cada filme é um produto barato (o orçamento não paga um almoço no set de "Vingadores Ultimato"), rodado e finalizado em pouco mais de dois meses. Embora tenha iniciado no cinema, a série "Atirador" alimenta o mercado de home entertainment, antes baseado em DVDs, hoje gravitando para streaming e VOD.

sniper kaare - Sony - Sony
Kaare Andrews, diretor de 'O Atirador: O Fim de Um Assassino"
Imagem: Sony

"Uma situação longe do ideal pode começar uma nova forma de fazer filmes", arrisca Kaare Andrews, que assumiu a direção deste oitavo exemplar, "O Fim de Um Assassino". "Os sets de Kubrick eram assim: equipe menor, mais tempo para rodar, menos dinheiro." É uma operação industrial que, por envolver menos risco, termina dando ao diretor mais liberdade.

A segunda carreira de Andrews fez dele o diretor ideal para o projeto. Quando não está trabalhando em filmes, ele é um artista de histórias em quadrinhos, tendo trabalhado em projetos para a Marvel e DC. A sensibilidade visual o ajudou a definir o design do filme.

"É um filme modesto, então eu peguei para mim a tarefa de criar o visual de alguns personagens", explica. "Em uma produção grande, os produtores passam até um ano apurando o visual de um filme. Mas como tempo e dinheiro eram curtos, eu decidi rabiscar uns esboços que terminaram dando mais diversidade ao filme."

FILME CAFÉ COM LEITE

Outro segredo para uma produção suave é o entrosamento da equipe. Principalmente em uma série com atores que a conhecem tão bem: o ator Chad Michael Collins, que interpreta o filho do personagem de Berenger, assumiu o protagonismo na quarta aventura e divide a cena com o veterano.

"Eu entendi desde o começo que eles sempre vão conhecer os personagens melhor do que eu", continua Andrews. "Então eu preferi ouvir e ser humilde. Não houve nenhuma tensão no set, até porque Tom gosta de improvisar. Assim como o personagem, ele mora no coração da América, as coisas que ele diz combinam com o personagem."

A trama é café com leite, uma história básica condensada em uma hora e meia de filme. O atirador Brandon Beckett (Chad Michael Collins) torna-se pricipal suspeito de um assassinato político. Para limpar seu nome, ele procura seu pai, Thomas Beckett (Tom Berenger), e logo a dupla está fugindo da CIA e de um assassino treinado pela Yakuza. E é isso.

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Tom Berenger em 'O Atirador', filme de 1993
Imagem: Sony

Curiosamente, Karee Andrews mantém as duas carreiras - a do cinema e a dos quadrinhos - em atividade paralela sem entrar em choque. "É fácil fazer os dois", conta. "Eu só piso no freio com os quadrinhos quando começo a pré-produção de um filme. Daí as filmagens consomem um mês, e o mês seguinte é para finalizar."

O trabalho em longas e em TV (Andrews dirigiu episódios de séries como "Van Helsing" e "V Wars") encontra similaridades com os quadrinhos. "A TV é como desenhar uma HQ", explica. "Eu recebo o roteiro, faço minha parte e outras pessoas cuidam da finalização." Já um longa ele compara com o trabalho do lápis, arte-final e cor. "A TV é o lado da adrenalina em audiovisual. O filme é onde é possível injetar mais personalidade."

Acumular funções, por sinal, é um traço que veio dos quadrinhos. "Na vida as pessoas esperam que você seja bom em uma única coisa", filosofa. "Se você pedir para assumir outras funções, especialmente em uma estrutura corporativa, vai ouvir não. Eu fiz do mesmo jeito, até que perceberam que não precisavam me colocar em uma caixa."

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'Homem-Aranha: Potestade', minissérie escrita e ilustrada por Kaare Andrews
Imagem: Reprodução

Foi assim em seu trabalho mais conhecido nos quadrinhos, a minissérie "Reign" (batizada "Potestade" no Brasil, de 2006), que mostrou um futuro distópico para o Homem-Aranha. "Eu era jovem, queria provar que era capaz. Como desenho rápido, achei que podia poupar tempo arte-finalizando meu traço. Depois fui no embalo e fiz as cores", lembra. "Eu queria escrever, e escrevi sem conversar com nenhum editor. Quando apresentei o projeto na Marvel, ele já estava basicamente pronto."

"Homem-Aranha: Potestade" foi lançado quando as adaptações de super-heróis nos cinemas ganhavam fôlego, e uma pergunta constante é por que os estúdios não buscam roteiristas dos quadrinhos para traduzir os personagens para o cinema. Kaare acredita que nem sempre as duas mídias caminham juntas, e um profissional dos quadrinhos pode ser engolido ao arriscar a mão no cinema.

"O histórico de roteiristas de Hqs no cinema é terrível", ressalta. "São mídias totalmente diferentes. Além do que dinheiro e sucesso não são os objetivos de quem trabalha com quadrinhos, é um trabalho totalmente passional." Ele lembra que a Marvel estava em processo de recuperação financeira após declarar falência quando ele começou na editora.

ROTEIRISTAS NÃO TEM A FORÇA

"Só trabalha com historias em quadrinhos quem entende totalmente essa paixão", continua. "Hollywood funciona de forma totalmente diferente. Roteiristas não possuem tanto poder assim. Todd MacFarlane é um dos sujeitos mais ricos e poderosos do mundo dos quadrinhos e, ainda assim, ele não consegue tirar um novo filme do "Spawn" da gaveta."

Ainda assim, não resisto em jogar uma isca, e lembro que, assim como a série "O Atirador", a Sony também é dona dos direitos para cinema do Homem-Aranha. Alguma chance de um crossover? "Cara, eu adoraria, sem hesitar", empolga-se. "Vamos fazer acontecer!"

O Atirador: O Fim de um Assassino está disponível para aluguel e compra nas plataformas digitais: Apple Store | iTunes, Google Play, Looke, Microsoft Filmes e TV (Xbox), NOW, Oi Play, PlayStation Store, SKY Play e Vivo Play

Roberto Sadovski