PUBLICIDADE
Topo

Caco Ciocler, diretor de 'Partida': "Meu grande medo era não ter um filme"

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

26/06/2020 07h41

Caco Ciocler não tem medo do perigo. Consagrado em frente às câmeras por mais de duas décadas, um dos atores mais consistentes do país, ele embarcou na aventura de se aventurar como diretor, imprimindo sua visão no documentário "Partida". E foi, literalmente, uma aventura.

Rodado com recursos próprios, o filme acompanha Caco e uma turma de amigos, alguns mais próximos, outros nem tanto, em uma jornada de ônibus de São Paulo até o Uruguai. O gatilho é o desejo da atriz Georgette Fadel em a) lançar sua candidatura à presidência do Brasil em 2022 e b) conhecer o ex-presidente José Mujica.

Eu digo que "Partida" é um documentário no sentido mais abrangente da palavra, já que é um registro da viagem da trupe. O filme, porém, tomou corpo ao traçar alguns paralelos incômodos com a vida do lado de cá das câmeras. Sua produção começou há quase dois anos, no auge da polarização experimentada no Brasil com as eleições presidenciais, ao mesmo tempo em que vivia a vigília em torno do cárcere do ex-presidente Lula.

partida caco onibus - Pandora - Pandora
'Partida", documentário de Caco Ciocler
Imagem: Pandora

Ao longo de uma extensa pós-produção, "Partida" é agora lançado em plataformas digitais com o Brasil ainda mais dividido após a eleição de Jair Bolsonaro, e ainda experimentando os efeitos de uma longa quarentena, necessária para a desaceleração da pandemia do coronavírus.

Conversei com Caco pouco antes do lançamento do filme para entender a, digamos, "futurologia" em fazer um filme sobre pessoas confinadas em uma jornada, cujo fim só esteve claro quando ele se apresentou, lançado agora quando as pessoas estão confinadas, igualmente sem saber de que forma a luz no fim do túnel será formada.

"O que me motivou foi o medo", disse, a certa altura. "O medo de fazer a viagem, produzir "Partida" e, no fim, não ter um filme." Embora houvesse um rascunho de roteiro, a natureza do documentário foi traçada ali, na estrada, em conflitos que surgiam organicamente e outros que precisaram de um certo estímulo. "Quase todos éramos atores, então eu esperava que, no fim, o material tivesse riqueza dramática e narrativa."

Missão cumprida! Como não podia deixar de ser no Brasil contemporâneo, "Partida" espelha em seus diálogos anseios e preocupações muito reais do lado de cá da câmera. Ainda assim, consegue momentos de tensão ao se aproximar de seu clímax. É como acompanhar a conversa de amigos queridos sobre temas tão urgentes, testemunhando a temperatura elevar-se e esperando que, ao fim, o afeto seja maior que a mágoa.

E foi assim, capturando com um acidente feliz o país em que hoje habitamos, que Caco Ciocler encontrou sua voz, descobrindo ao longo do caminho como é complexa a vida de quem decide contar uma história com uma câmera na mão. É justamente um papo sobre seu processo criativo, cultura, política e o papel da arte no Brasil de hoje e de sempre que você encontra em minha entrevista com o agora diretor.

Roberto Sadovski