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Quem é Tony Montana, traficante "visto" em esconderijo de Fabrício Queiroz

Al Pacino em "Scarface" - Universal
Al Pacino em 'Scarface' Imagem: Universal
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

18/06/2020 19h41

Tony Montana é a materialização do "sonho americano". Parte da massa de cubanos buscando refúgio da ditadura de Fidel Castro no começo dos anos 1980, ele terminou sua fuga pelo mar em Miami. Mesmo depois de ter seu visto recusado, trabalhou duro para ser contemplado com o direito de se tornar cidadão americano.

A partir daí sua trajetória foi meteórica. Do começo humilde lavando pratos em uma biboca na região de Little Havana em Miami, Tony teve visão empresarial e passou a articular diferentes negócios com sócios em outros países. Logo, o imigrante visto como "bandido" pela sociedade ianque era dono de uma mansão nababesca e milhões de dólares em caixa.

Da pobreza em Cuba para o sucesso nos Estados Unidos, Tony pode ser considerado exemplo para muitos. Um bom exemplo foi visto nos noticiários brasileiros, em que estátuas colecionáveis em miniatura com seu rosto foram notados adornando a casa em que o policial militar aposentado e ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz foi preso em operação policial.

scarface pacino de palma - Universal - Universal
Al Pacino e o diretor Brian De Palma no set de 'Scarface'
Imagem: Universal

Tony Montana é, claro, obra de ficção. Protagonista do clássico moderno "Scarface", que Brian De Palma dirigiu em 1983, o personagem é a personificação da tragédia nas entrelinhas do mesmo "sonho americano". É também um dos papéis icônicos na carreira de Al Pacino, que viu sua criação tornar-se parte do tecido da cultura pop nas décadas que seguiram o lançamento do filme.

Pacino insistiu em fazer o personagem depois da desistência de Robert De Niro, escolha inicial de Brian De Palma. Nos anos 70, o ator firmou-se como um dos maiores talentos de uma geração de astros viscerais de Hollywood, emplacando pérolas como os dois primeiros "O Poderoso Chefão", "Sérpico" e "Um Dia de Cão".

Para interpretar Tony Montana ele estudou técnicas de briga de rua (como usar facas e os punhos), além de inspirar-se na interpretação de Meryl Streep em "A Escolha de Sofia" como uma imigrante marcada pela tragédia que recomeça sua vida na América.

Curiosamente, sua carreira desacelerou nos anos 80 após "Scarface" e o fracasso de "Revolução" em 1985, refugiando-se então no teatro. Pacino recobraria o fôlego já em 1989 com "Vítimas de Uma Paixão", reencontrando sucesso de público e crítica, coroando o retorno com um Oscar pelo drama "Perfume de Mulher", de 1992.

Ano passado ele esteve em dois filmes brilhantes: o drama "O Irlandês", de Martin Scorsese, e o acelerado "Era Uma Vez em Hollywood", de Quentin Tarantino.

Mas foi Tony Montana que, mesmo entre outros personagens memoráveis, tornou-se ícone da cultura pop. Transcendendo o filme de De Palma (ele mesmo a refilmagem do clássico do mesmo nome rodado por Howard Hawks em 1932), o imigrante cubano foi protagonista de um videogame em 2006, sua imagem icônica no poster do filme adorna paredes pelo mundo, e ele é representado como boneco colecionável em vários formatos.

scarface queiroz - Divulgação/Polícia Civil - Divulgação/Polícia Civil
Cartaz com 'AI-5' entre os bonecos de Tony Montana em 'Scarface'
Imagem: Divulgação/Polícia Civil

Miniaturas assim, completadas por um cartaz em que se lia "AI-5" em letras garrafais, foram flagradas no imóvel de propriedade do advogado Frederick Wassef, onde a polícia prendeu Fabrício Queiroz. É mais um toque bizarro aos desdobramentos por vezes irreais da crônica político-social brasileira contemporânea.

Afinal, a fortuna de Tony Montana, refugiado político e imigrante cubano, foi acumulada com assassinatos e tráfico pesado de drogas. Seu fim foi violento, enfrentando rivais colombianos com uma metralhadora M16 acoplada com um lança-granadas, disparando a frase imortal "Digam 'olá' para meu amiguinho". A ironia do roteirista do filme "Brasil 2020" parece ter zero limites.

Roberto Sadovski