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'Dick Tracy': 30 anos do primeiro filme que repetiu a fórmula de 'Batman'

Warren Beatty em "Dick Tracy" - Disney
Warren Beatty em 'Dick Tracy' Imagem: Disney
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

15/06/2020 04h49

No cinema, o dinheiro manda. Ok, não é uma regra assim tão rígida. Existe espaço para criatividade e ousadia. Mas o ganha-pão de dúzias e dúzias de executivos depende do tilintar das caixas registradoras. Por isso, um sucesso gera uma série de derivados que tentam, de alguma forma, surfar na mesma onda.

Foi exatamente o que aconteceu quando "Batman" tornou-se um dos maiores fenômenos do cinema em 1989, um furacão que dominou o ano e fez com que as histórias em quadrinhos fossem cool mais uma vez para os homens do dinheiro. De repente, todo estúdio com direitos de personagens de gibis percebeu que tinha uma mina de ouro em potencial em mãos.

Um destes personagens era Dick Tracy, criação de Chester Gould, em desenvolvimento nas mãos de Warren Beatty. O ator e diretor, um dos nomes mais respeitados em Hollywood, já estava de olho nas aventuras do detetive de casaco amarelo desde 1975. Na década seguinte, a ideia de levar o personagem para o cinema circulou por diferentes astros e diretores. Em 1985, Beatty garantiu os direitos da HQ e fincou sua produção na Disney.

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O logo estilizado de 'Dick Tracy' tentou fazer tanto barulho quanto do de 'Batman'
Imagem: Disney

Decidido a criar um design ultra estilizado para "Dick Tracy", Beatty voltou às tiras originais para inspiração. Tudo no filme é um absurdo de detalhes: da paleta limitada em sete cores (com destaque para vermelho, azul, verde e amarelo, sem variação de tons) à maquiagem dos vilões, espelhando o visual grotesco do traço de Gould.

As filmagens, inteiras em estúdio, terminaram em maio de 1989. "Batman" chegou aos cinemas no mês seguinte. E a máquina de marketing da Disney enxergou uma oportunidade. Assim como o logo do Homem-Morcego tornou-se onipresente um ano antes da estreia do filme, o estúdio bombardeou sua campanha com a silhueta de Dick Tracy, agora desenhada com o perfil de seu astro.

Mesmo sem a intenção de seguir à risca a fórmula de "Batman", as semelhanças com "Dick Tracy" são inegáveis. A começar pelo desenho de produção afastado do "realismo", o que hoje tornou-se uma norma estranha, evocando de alguma forma o clima do gibi original. Para compor a trilha sonora Beatty convocou o mesmo Danny Elfman. Finalmente, seu protagonista foi cercado de nomes famosos.

MARKETING AGRESSIVO

O elenco de "Dick Tracy", por sinal, dá uma surra no casting de qualquer filme de quadrinhos moderno. Além obviamente de Warren Beatty, entram em cena Al Pacino (como o vilão Big Boy Caprice), William Forsythe, James Caan, Charles Durning, Mandy Patinki, Paul Sorvino, Dustin Hoffman e Dick Van Dyke. Além, é claro, de Madonna.

Com a virada da década, o marketing em torno de "Dick Tracy" tornou-se ainda mais agressivo. Promoções com cadeias de fast food espalhavam o mundo colorido do personagem. Brinquedos lotavam as prateleiras. Um sem número de produtos licenciados acompanhava a campanha, aumentando as expectativas. A própria Madonna seguiu o caminho de Prince e lançou um disco temático.

Havia uma pessoa nada contente com o comércio em torno do filme, e seu nome era Warren Beatty. Fruto de outra era em Hollywood, o astro não entendia a obsessão com a avalanche de material promocional. Não entendia como o lançamento de um filme, uma obra de arte, tinha de obedecer tabelas de dados demográficos. Achava que tudo era a antítese de um trabalho cultural e criativo.

A estreia de "Dick Tracy" obteve o resultado esperado pelo estúdio: cerca de 22 milhões de dólares no primeiro fim de semana, o maior da Disney até então. A alegria dos executivos, porém, amarelou quando os números das semanas subsequentes não acompanharam a mesma euforia. No fim, "Dick Tracy" cravou uma bilheteria mundial de 162 milhões de dólares, menos da metade dos 411 milhões que "Batman" arrecadara um ano antes. Não havia espaço para dois gênios na mesma garrafa.

Os números, claro, em nada refletem a obra de Warren Beatty. "Dick Tracy" é exatamente o filme que ele queria fazer. Uma homenagem às tiras de jornais dos anos 30, com seus gângsters e femme fatales, habitando um mundo bidimensional de violência e sexo estilizado ao extremo. Um filme adulto, para adultos.

Os homens do marketing, por sua vez, nem se preocuparam em entender a proposta do astro. Viram uma oportunidade ("É baseado em uma revistinha, como 'Batman', é para crianças, a gente sabe fazer!") e embalaram tudo como se fosse a merenda para o recreio da criançada. O filme, porém, aborda o tema do artificialismo inerente à nostalgia, disfarçado de aventura de ação para o cinemão ianque.

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Madonna, Al Pacino e os vilões grotescos de 'Dick Tracy'
Imagem: Disney

"Batman", por outro lado, possuía uma riqueza psicológica que criou uma conexão emocional com a plateia: o herói e sua nêmesis, o Coringa, são duas aberrações criadas em uma tragédia, caminhando uma linha tênue entre loucura e justiça. "Dick Tracy" é a celebração do estilo (narrativo, visual, temático) que encantou Beatty quando criança. Mas não há muito espaço para tons de cinza em suas cores brilhantes.

Os anos, porém, foram generosos com "Dick Tracy". À medida que o cinema fantástico e as adaptações de histórias em quadrinhos se aproximavam de um tom "realista", o filme passou a ser visto como uma celebração dos gibis como arte pop, uma diversão ligeira mas de altíssima qualidade.

A Academia de Hollywood reconheceu seus feitos, premiando "Dick Tracy" com três Oscar: direção de arte, maquiagem e canção, a sedutora "Sooner or Later (I Always Get My Man)", interpretada (lógico) por Madonna.

BATALHA NOS TRIBUNAIS

A Disney pretendia fazer de "Dick Tracy" uma série cinematográfica aos moldes de "Indiana Jones" e "Batman", mas os resultados nas bilheterias minaram o entusiasmo do estúdio. Além disso, após seu lançamento uma batalha pelos direitos dos personagens chegou aos tribunais, com Beatty de um lado e a empresa da qual ele adquiriu os direitos em 1985. Advogados, sabemos, são os melhores vilões.

Sem o interesse da Disney, o próprio Beatty traçou uma cruzada para garantir a integridade de Dick Tracy, determinado a fazer mais filmes como o herói. A disputa foi finalmente resolvida em 2011 - contou a favor do astro um especial exibido na Turner Classic Movies três anos antes: em "The Dick Tracy TV Special", e paramentado como o personagem, Beatty conversou com o crítico Leonard Maltin e garantiu sua disposição em retomar o casaco amarelo do policial.

Warren Beatty tinha 53 anos quando lançou "Dick Tracy". Em 2016, aos 79 anos, ele ventilou mais uma vez a possibilidade de rodar uma sequência, mas nada foi ouvido nos últimos quatro anos. Com a tecnologia cinematográfica atual, não é impossível que o ator possa mais uma vez voltar ao set como o personagem - os efeitos digitais certamente seriam uma contribuição a seu mundo artificial.

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Warren Beatty no cenário arificial de 'Dick Tracy'
Imagem: Disney

Mas talvez o momento tenha ficado para trás. Ao contrário de seus pares coloridos das páginas das histórias em quadrinhos, Dick Tracy não encontrou lugar na cultura pop do novo século. O próprio filme de Beatty é, hoje, uma cápsula do tempo, uma relíquia de 30 anos que, como vinho, melhorou com o passar do tempo.

Há duas coisas, entretanto, que Hollywood adora: nostalgia embalada como produto e o som das caixas registradoras. Propriedades intelectuais são o ativo mais valioso no entretenimento. E no cinema, o dinheiro manda.

Roberto Sadovski