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'E o Vento Levou': Apagar filmes da história não vai apagar o racismo

Vivien Leigh e Hattie McDaniel em "E o Vento Levou" - Warner
Vivien Leigh e Hattie McDaniel em 'E o Vento Levou' Imagem: Warner
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

12/06/2020 06h58

Essa é a notícia: essa semana, a plataforma de streaming HBO Max removeu de seu catálogo o clássico "E o Vento Levou", de 1939. Ainda no calor da comoção em torno do assassinato de George Floyd, morto por um policial racista em Minneapolis, o roteirista de "12 Anos de Escravidão", John Ridley, pediu a retirada do filme por ele perpetuar estereótipos raciais e glorificar o Sul escravocrata americano pré-Guerra Civil.

"E o Vento Levou" conta a história de amor de Scarlett O´Hara (Vivien Leigh), filha de um fazendeiro abastado, com o aristocrata Rhett Butler (Clark Gable). O pano de fundo é a Guerra Civil americana e a narrativa concentra-se na jornada da heroina, que passa de dondoca mimada a mulher dona de seu futuro. Bom, ao menos o máximo que era "socialmente aceitável" oito décadas atrás.

Em seu apelo, publicado em um artigo para o jornal LA Times, John Ridley descreve a obra de Victor Fleming como "um filme que, quando não está ignorando os horrores da escravidão, desacelera apenas para perpetuar alguns dos estereótipos mais dolorosos das pessoas de cor". Sua voz foi ouvida pela HBO, que decidiu remover o filme de seu catálogo até providenciar uma discussão sobre seu contexto histórico.

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Vivien Leigh e Clark Gable em 'E o Vento Levou'
Imagem: Warner

Ridley, obviamente, não está errado. Somente quem sente o racismo na pele consegue dimensionar a dor acumulada por décadas de opressão. Os Estados Unidos continuamente mostram sua face racista, representada em especial pela brutalidade policial com a população afro-americana. Não é uma teoria, e sim uma prática dolorosamente observada nas ruas, com corpos pretos acumulados e seus algozes não raro gozando de privilégios.

Ainda assim, o ativismo ao remover "E o Vento Levou" de uma plataforma de streaming é meramente simbólico. O racismo não deixa de existir quando jogamos um véu sobre ele, e o filme obviamente não foi apagado da existência. A história nos mostra que só quem aprende com ela está preparado para encarar o futuro.

E que futuro queremos? Um em que as pessoas possam desenvolver a consciência de que somos imperfeitos e podemos melhorar, ou um em que livros são queimados em praça pública? Os temas levantados em "E o Vento Levou" eram errados em 1939 e continuam errados hoje. Ainda assim, exibir o filme pode despertar discussão e reflexão.

Mesmo como obra de ficção, é um espelho para o passado - um passado que devemos nos envergonhar mas que precisamos encarar para que ele não seja repetido. Eu acredito que toda obra produzida na história da cultura pop, sem nenhuma exceção, deve estar perpetuamente disponível em todas as plataformas. Porque sempre - sempre! - podemos aprender com elas. Assistir a "E o Vento Levou" é uma opção individual. Mas essa opção definitivamente precisa existir.

A discussão sequer é nova. Em 1989, "E o Vento Levou" retornou aos cinemas americanos celebrando seu cinquentenário, e encontrou resistência similar de ativistas de movimentos progressistas. No mesmo ano, "Conduzindo Miss Daisy" chegava aos cinemas, perpetuando a figura do "negro subserviente", encarnado por Morgan Freeman, como motorista por uma vida da personagem-título, papel de Jessica Tandy. Quanto mais as coisas mudam, sem um diálogo sério elas permanecem as mesmas.

Será que a solução seria, portanto, varrer filmes assim para debaixo do tapete e fingir que o problema não existiu? O mesmo ponto, por sinal, pode ser feito para obras mais recentes, como "A Espera de Um Milagre" (o "negro mágico" é um estereótipo global), "Lendas da Vida" (no mesmo Sul que era palco de linchamentos, Will Smith ensinava Matt Damon a jogar golfe) e o recém-oscarizado "Green Book" (o "herói" da história do pianista Don Shirley é seu... motorista racista?). E nem me deixem falar sobre "Histórias Cruzadas"...

Um olhar atento pode pulverizar qualquer obra de arte. Por que a arte em si nasce do confronto, e muitas vezes esse confronto revela uma realidade feia. Injetar um novo contexto a "E o Vento Levou", especialmente agora que o filme voltou aos holofotes, parece mais adequado do que a promoção de um banimento pontual. Que termina um exercício em futilidade, já que as vendas do filme dispararam na Amazon e na Apple e ele continua disponível em mídia física.

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Morgan Freeman em 'Conduzindo Miss Daisy'
Imagem: Europa Filmes

O mundo encontra-se hoje em um momento delicado. A pandemia do coronavírus deixou países de joelhos, em especial os Estados Unidos sob Donald Trump, um bufão incapaz de assumir a responsabilidade pela crise e que ameaçou as pessoas nas ruas em protesto com a morte de George Floyd com repressão policial pesada.

Ao pedir o banimento de um filme, mesmo com as melhores intenções, surge também o risco de alimentar trolls racistas que enchem a boca ao dizer que "os progressistas são truculentos". A arte deve bater de frente com esse tipo de argumento com leveza, com reflexão, com respeito à história e com o cuidado de contextualizá-la.

Até porque "E o Vento Levou" não é um documentário, é uma obra de ficção que ambienta-se em um recorte na história. O tempo mostrou que o filme, apesar de sua posição como clássico absoluto e de sua importância inegável para a história do cinema, pode e deve ser ressignificado devido a sua descrição canhestra de estereótipos raciais vergonhosos.

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'O Triunfo da Vontade', de Leni Riefenstahl
Imagem: Reprodução

Se a arte não serve como régua para medir nossa evolução, quem decide a próxima obra a ocupar a guilhotina? Devemos apagar da existência "O Triunfo da Vontade", de Leni Riefenstahl, um documentário brilhante de 1934 que também era peça de propaganda registrando um comício do Partido Nazista em Nuremberg, na Alemanha?

Olhando para nosso quintal, devemos pulverizar as cópias de todo programa humorístico dos anos 70 e 80, que abusavam de um senso de humor ofensivo que hoje soa totalmente deslocado? A resposta está em um comentário que vez por outra pipoca nas redes sociais: um programa como "Os Trapalhões" jamais seria feito no século 21.

Quer saber? Não seria mesmo - e ainda bem! Isso mostra que existe esperança em nossa evolução como seres humanos, e que piadas grotescas que "eram a norma nos bons tempos" perderam espaço em um mundo mais consciente. E não se deixe enganar com a falácia do "somos contra o politicamente correto": devemos, sim, ser contra a ignorância e o contra o direito de sermos ignorantes!

Por isso que o apelo apaixonado de John Ridley é completamente fundamentado. E é também inegável que "E o Vento Levou" é uma obra-prima, o ápice de um tipo de cinema épico produzido por Hollywood, que marcou a carreira de todos os envolvidos. Inclusive o da atriz Hattie McDaniel, primeira atriz negra a ganhar um Oscar, o de melhor atriz coadjuvante.

Sua vitória na época foi marcada por uma vergonha atroz, já que Hattie, que interpretou a empregada Mammy, não pode sentar-se ao lado do elenco durante a cerimônia: o Hotel Ambassador, em Los Angeles, impôs uma política de segregação racial até 1959. Não podemos esquecer nunca.

Roberto Sadovski