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Liga da Justiça: Nenhuma versão do diretor pode salvar um desastre completo

Os maiores heróis da Terra em "Liga da Justiça" - Warner
Os maiores heróis da Terra em 'Liga da Justiça' Imagem: Warner
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

21/05/2020 04h42

A versão do diretor Zack Snyder para "Liga da Justiça", que um grupo estridente de fãs exige que saia da gaveta desde o lançamento do filme mais de dois anos atrás, finalmente se tornará realidade. Não para o cinema, mas para a nova plataforma de streaming HBO Max.

Eu não acreditava que pudesse ser real. Provavelmente você também não. Muito menos o próprio Zack Snyder. Mas a pandemia que colocou freio no mundo também traz consequências estranhas. E a falta de produtos originais com a estreia do novo serviço também fez os executivos abrirem a carteira para finalizar o Frankenstein.

Zack Snyder dirige Ben Affleck e Gal Gadot em 'Liga da Justiça' - Warner
Zack Snyder dirige Ben Affleck e Gal Gadot em 'Liga da Justiça'
Imagem: Warner

"Liga da Justiça", como eu escrevi à época, é um filme confuso, incoerente, indeciso e parece improvisar à medida que avança. Um produto com zero emoção genuína, que mal funciona como diversão ligeira. Um desserviço a quem esperava um épico pelo menos no nível de (e você já sabe!) "Os Vingadores".

Quase que imediatamente após seu lançamento fracassado, um grupo de fãs indignados lançou a hashtag #ReleaseTheSnyderCut, exigindo que o estúdio honrasse a visão original do diretor. A "campanha" incluiu um billboard em Times Squase, no coração de Nova York, e um avião carregando uma faixa nos céus de San Diego durante a Comic-Con. Esse filme, claro, não existia. E ainda não existe.

Mas a chegada do HBO Max, e a falta de produtos originais em seu lançamento, aceleraram a decisão de capitular ante o desejo dos fãs fervorosos - gritaria funcionou para J.J. Abrams criar "A Ascensão Skywalker", e a gente sabe como aquilo terminou... Em uma sessão de "O Homem de Aço" comentada no twitter, por fim, Zack Snyder deu a notícia. A pergunta é: como melhorar um desastre completo?

A resposta começa simples: com dinheiro. A Warner pretende injetar entre 20 e 30 milhões de dólares na finalização dessa nova versão de "Liga da Justiça", mesmo que não exista consenso em como ela será apresentada. Pode ser a versão de quase quatro horas originalmente concebida por Snyder. Pode ser como minissérie, dividindo a coisa toda em seis capítulos. O tempo dirá.

O buraco, porém, raspa o fundo do poço. Existe mais tropeços em "Liga da Justiça" do que simplesmente a não-realização da visão de Zack Snyder. Para começo de conversa, essa sempre foi uma visão equivocada, uma desconexão completa do que faz os personagens tão envolventes nos quadrinhos e em outras mídias que foram apresentados ao longo de oito décadas.

No universo imaginado pelo diretor, Batman não age como Batman. Superman é a antítese do Superman. O fracasso artístico e comercial do filme, portanto, não foi devido ao trabalho de Joss Whedon, e sim pela total ausência de uma base sólida para construir uma narrativa. Nunca existiu nada com que o público pudesse se identificar. Whedon é ótimo, mas não faz milagre.

A versão de Snyder, pelo que pode ser colecionado ao longo dos últimos dois anos com relatos de quem trabalhou no filme, previa personagens melhor desenvolvidos - como Cyborg e o vilão Lobo da Estepe - e traz uma ligação mais clara com eventos mostrados em "Batman v Superman", em especial o futuro distópico causado pela chegada do vilão Darkseid (o Thanos da DC).

O "novo deus" maligno, segundo fragmentos reunidos por fãs, é parte fundamental da trama, inclusive na decisão de ressuscitar o Superman - a versão que conhecemos coloca esse recorte perturbador da história inteiramente nas costas do Batman. Mesmo com as supostas mudanças, "Liga da Justiça" mantém a mesma estrutura canhestra que reúne os heróis para combater uma ameaça global.

UMA GUERRA DE LUZ E SOMBRAS

O diretor de "300" e "Watchmen" estava em uma posição de prestígio com a Warner quando assumiu o leme de "O Homem de Aço" em 2013. A aventura com Henry Cavill não fez o mundo morrer de amores pelo Superman, mas colocou o primeiro tijolo para um universo compartilhado com os heróis da DC, que então levavam surra da concorrente, Marvel, nos cinemas.

O projeto levou ao mais ambicioso "Batman v Superman: A Origem da Justiça" em 2016. Apesar da bilheteria poderosa de 870 milhões de dólares, o filme que somava Ben Affleck como o Batman e Gal Gadot como a Mulher-Maravilha também não incendiou fãs ou crítica, e pousou como uma aventura pesada e sem foco, indigna dos personagens que abrigava.

Ainda assim, o estúdio deu sinal verde para Snyder seguir com "Liga da Justiça", projeto apressado e mal amarrado que pretendia competir pelo pódio com "Os Vingadores" no clube do bilhão de dólares. Então "Mulher-Maravilha" aconteceu, encantou o planeta e a dúvida foi plantada na cabeça dos executivos.

O motivo era a direção planejada por Snyder, que mantinha seu mundo de super-heróis equivocadamente coberto em sombras, enquanto a aventura comandada por Patty Jenkins triunfou justamente por sua leveza, com humor e humanidade caminhando ao lado dos horrores da Primeira Guerra Mundial.

A vida antes dos efeitos digitais não tem a menor graça... - Reprodução
A vida antes dos efeitos digitais não tem a menor graça...
Imagem: Reprodução

Esse choque criativo ficou evidente quando Snyder apresentou, em janeiro de 2017, um corte inicial de "Liga da Justiça", com quase três horas de duração, montado em cima das quatro horas de material que ele achava pertinente para contar seu filme. Os engravatados balançaram, esperando uma versão com no máximo duas horas de duração. O projeto voltaria ao estaleiro. Então, aconteceu uma tragédia.

A filha de Zack Snyder cometera suicídio, e o trabalho no filme mostrou-se impossível ao diretor, ainda em luto. A decisão foi tomada para entregar o filme a Joss Whedon, justamente o diretor de "Os Vingadores". Ele reescreveu algumas cenas, cortou outras, refilmou mais um tanto e finalizou a versão de "Liga da Justiça" entregue ao mundo. E o mundo deu de ombros.

A expectativa de um filme reunindo indiscutivelmente os maiores super-heróis dos quadrinhos mundiais era enorme. Mas a aventura jogou água fria em fãs apaixonados com uma trama desengonçada, cenas de ação patéticas e personagens agindo como se estivessem em filmes diferentes.

TRABALHO EM MEIO À PANDEMIA

Embora tenha faturado 660 milhões de dólares, "Liga da Justiça" foi visto como um fracasso retumbante, o último prego no caixão do universo estendido da DC. "Aquaman" apostou em uma aventura fantástica mais tradicional, distanciou-se de "Liga" e se deu bem. Até "Shazam!" é um filme mais redondo e bem acabado.

O fato é que o próprio diretor, ao lado de sua produtora/esposa Deborah Snyder, foram surpreendidos com um telefonema em novembro. O presidente da Warner estava ciente do movimento e queria saber se havia interesse por parte do casal em tocar o projeto.

"Imaginei que isso pudesse acontecer em uns vinte anos", disse Snyder, em meio ao processo de pós-produção de seu filme de zumbis "Army of the Dead", ao Hollywood Reporter. "Deixar que eu termine minha visão com esse formato, com essa duração, é uma ação corajosa e sem precedentes."

O material bruto de "Liga da Justiça" estava em um HD na casa de Snyder, e logo eles montaram uma apresentação para um grupo de executivos do estúdio. De cara havia uma certeza: um lançamento nos cinemas seria impraticável, mas a HBO Max poderia ser a plataforma perfeita.

O trabalho sendo executado hoje consiste em reunir profissionais em pós-produção para finalizar o corte original do diretor, além de recriar a trilha sonora e a montagem. Em tempos de pandemia, com o trabalho em Hollywood paralisado, a oportunidade de colocar as mãos em "Liga da Justiça" também representou um incentivo à atividade econômica da indústria.

O elenco, que ao longo de dois anos engrossou o coro dos fãs que queriam ver a versão de Snyder, também está a postos para gravar novos diálogos - e sabe-se lá o que mais pode ser necessário. É curioso, entretanto, observar essa atividade em torno de "Liga da Justiça" quando a DC no cinema já avançou duas casas no tabuleiro.

É oficial: 'Liga da Justiça: Versão de Zack Syder' está a caminho! - Reprodução
É oficial: 'Liga da Justiça: Versão de Zack Syder' está a caminho!
Imagem: Reprodução

"Coringa" foi um sucesso sem precisar de dúzias de conexões com outros filmes. "Aves de Rapina" mostrou-se uma aventura ligeira e simpática sem forçar sua ligação com "Esquadrão Suicida". Ben Affleck sequer é mais o Batman, passando o trampo para Robert Pattinson no novo filme do Homem-Morcego agendado para o segundo semestre do ano que vem.

Ainda assim, são projetos individuais, que não funcionam como o "universo compartilhado" tão bem executado pela Marvel. Essa versão de "Liga da Justiça" que está no forno lembra pizza adormecida, requentada para o café da manhã - pode até matar a fome, mas o sabor original já disse adeus há tempos.

Por sinal, é bom que esse HD que Snyder guarda em casa tenha de fato algo que lembre uma narrativa coerente. Mas todos vimos "Batman v Superman". Para "Liga da Justiça" se tornar de fato o filme que seus protagonistas merecem, ele teria de ser recriado do zero.

Essa "Versão de Zack Snyder" será uma curiosidade, um arremedo tocado com mais verniz do que a versão de Richard Donner para "Superman II" ou a recriação da visão original de Guillermo Del Toro para "Mutação". Será um mimo para recompensar a legião de fãs que por dois anos torraram a paciência dos executivos da Warner para forçar à existência um filme que existia aos pedaços.

Uma vitória? Talvez. Do lado de cá, já vou achar um tremendo avanço se eles consertarem os lábios digitais que escondiam o bigodão bolerão de Henry Cavill como Superman. A gente pode sonhar!

Roberto Sadovski