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'A Reconquista': O filme que quase enterrou a carreira de John Travolta

John Travolta em "A Reconquista" - Reprodução
John Travolta em 'A Reconquista' Imagem: Reprodução
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

13/05/2020 04h58

"O que ele estava pensando?" Essa frase estampava uma das críticas nos jornais ianques quando "A Reconquista" chegou aos cinemas duas décadas atrás. É uma pergunta justa.

A ficção científica, projeto de estimação de John Travolta que levou cerca de dez anos para sair do papel, tem a distinção de ser um dos piores filmes da história. Um fracasso que quase arrastou seu astro para um buraco do qual ele ainda não conseguiu se recuperar.

Para entender o fascínio de Travolta com o projeto, basta lembrar de uma única palavra: cientologia, a pseudo religião criada pelo escritor L. Ron Hubbard, autor de "A Reconquista".

John Travolta tira Barry Pepper para dançar em 'A Reconquista' - Reprodução
John Travolta tira Barry Pepper para dançar em 'A Reconquista'
Imagem: Reprodução

Membro da igreja desde 1975, Travolta ganhou do autor uma edição do livro em seu lançamento, em 1982, e desde então flertou com a ideia de desenvolver uma adaptação. "É como Star Wars, só que melhor", chegou a dizer o astro.

A carreira de John Travolta, porém, sempre foi uma montanha russa. Ao final dos anos 70, ele era indiscutivelmente o maior astro do planeta, com a dobradinha"Os Embalos de Sábado à Noite" e "Grease - Nos Tempos da Brilhantina" faturando rios de dinheiro.

Apesar de a década seguinte ter iniciado com o espetacular "Um Tiro na Noite", de Brian De Palma, os anos 80 viram Travolta afundar em uma série de decisões artísticas equivocadas. O único suspiro em sua folha de pagamento foi com a comédia boboca "Olha Quem Está Falando", de 1989, que rendeu mais dois filmes e colocou o ator em um nicho confortável, porém inerte.

Quando seu telefone tocou com Quentin Tarantino do outro lado da linha, Travolta ensaiou um dos retornos mais espetaculares do cinema moderno. "Pulp Fiction" lhe garantiu uma indicação ao Oscar e um retorno ao primeiro time de Hollywood - justamente em uma época em que o salário dos grandes astros passava 20 milhões de dólares.

Nos anos seguintes, Travolta escolheu uma série de filmes que lhe deram sucesso artístico e comercial. "O Nome do Jogo", "A Última Ameaça", "Fenômeno", "Michael", "A Outra Face" e "A Filha do General" alimentaram o poder do astro em Hollywood. Sua atenção, como consequência, voltou-se para "A Reconquista". Não poderia ter sido pior.

"É COMO STAR WARS. SÓ QUE MELHOR..."

De cara, Travolta não conseguiu que nenhum grande estúdio injetasse um centavo no filme. Não porque a história era ruim (e era, mas já já falamos disso), e sim pela distância que todo executivo na cidade queria manter de qualquer coisa relacionada à cientologia.

Mesmo tirando o fator da vontade da igreja em ter mais influência no cinema (projeto que murchou há tempos), "A Reconquista" era visto como expressão da vaidade de Travolta, como a insistência em uma história que o próprio L. Ron Hubbard tentara impulsionar sem sucesso antes de sua morte em 1986.

Por fim, o filme foi abraçado pela produtora Franchise Pictures, que no começo do novo século se especializara em "resgatar" projetos caros a astros do cinema, investindo com um contrato que previa custos mais modestos. Por fim, o próprio Travolta contribuiu com 5 milhões de dólares.

Honestamente, não tinha como dar certo. "A Reconquista" - ou "Battlefield: Earth", seu título original - era uma trama envelhecida, datada, absurda até para o gênero fantástico. No ano 3000, a Terra é há um milênio domínio de uma raça alienígena. Até que, entre os poucos escravos humanos, surge um escolhido, um libertador capaz de derrotar os conquistadores.

Nada no filme faz sentido. A linha temporal é bizarra - é pouco provável que a humanidade se lembrasse do que seria a "liberdade" após um milênio de escravidão. Os destroços das cidades humanas também já seriam uma lembrança distante após tantos séculos.

Ah, mas caças de combate, encontrados em um hangar, surgem 100 por cento operacionais após mil anos escondidos - e os "libertadores", humanos reduzidos a selvagens, aprendem a operar sua tecnologia em uma semana.

Travolta originalmente queria interpretar o herói, Jonnie Goodboy (papel que ficou com Barry Pepper), mas assumiu o papel do vilão, o alienígena Terl. E não dá para segurar as gargalhadas com a visão do astro como um ET humanóide de quase 3 metros de altura, a cabeça imensa coberta com uma cabeleira desgrenhada, patas estranhas no lugar de mãos, e um volume exagerado na virilha.

Suas primeiras imagens já no trailer não eram animadoras. Não dava para levar nada daquilo a sério - dos efeitos canhestros à canastrice distribuída entre o elenco. Pobre Forest Whitaker, paramentado como outro alien desengonçado. O design parecia algo que Roger Corman faria nos anos 70/80, e não uma produção do século 21 que custou quase 100 milhões de dólares.

UM NICOLAS CAGE MENOS EXCÊNTRICO

Como era de se esperar, o público deu de ombros. "A Reconquista"chegou aos cinemas em 12 de maio de 2000 e encontrou salas vazias. Nas semanas seguintes, a evasão dos poucos que arriscara dar umas risadas com a presepada. Quando a poeira assentou, o filme não chegou aos 30 milhões de dólares nas bilheterias mundiais. E Travolta se enxergou em uma posição nada favorável.

A indústria do cinema é generosa. É possível que produtores e público perdoem um, até dois escorregões. Depois de "A Reconquista", entretanto, Travolta passou a ser visto como um risco, como alguém incapaz de gerenciar seu sucesso e as vantagens por ele obtidas.

Ele ainda encabeçou o thriller "A Senha: Swordfish", um veículo para ajudar na escalada de Hugh Jackman como astro, mas o projeto existia antes do flerte público com a cientologia. Depois disso, foi ladeira abaixo.

Travolta e Forest Whitaker estavam achando tudo um saco... - Reprodução
Travolta e Forest Whitaker estavam achando tudo um saco...
Imagem: Reprodução

O suspense "Basic", com Samuel L. Jackson, passou batido. Seu papel como vilão em "O Justiceiro", para uma Marvel pré Universo Cinematográfico, foi desastroso. Seu último sucesso legítimo foi com o musical "Hairspray", em 2007. E não era um filme que dependia de sua influência como astro.

Eu honestamente gosto de John Travolta. É um ator que ainda traz uma aura levemente fora do eixo, um Nicolas Cage menos excêntrico. Ele emprestou a voz para uma animação Disney decente e divertida: "Bolt".

Ele também não faz feio em filmes como "O Sequestro do Metrô 1 2 3" e o genérico "Dupla Implacável" (precisei consultar para lembrar o título no Brasil de "From Paris With Love"). Mas há pelo menos oito anos ele não emplaca nada que mereça atenção.

"Temporada de Caça", "O Impostor", "Um Negócio de Risco", "Eu Sou a Fúria" e "A Vida Por Um Fio" sequer foram lançados no cinema, fazendo com que Travolta seguisse os passos de outros atores condenados ao mundo do VOD, como Steven Seagal e Bruce Willis (um dos operários mais esforçados do cinema).

Ao lado de John Travolta, Forest Whitaker faz cosplay de Leão Covarde de Oz... - Reprodução
Ao lado de John Travolta, Forest Whitaker faz cosplay de Leão Covarde de Oz...
Imagem: Reprodução

Travolta insistiu em um lançamento "tradicional" para o drama "Gotti", sobre o mafioso que chefiou por anos o crime em Nova York. O filme fechou sua carreira com pouco mais de 4 milhões de dólares em caixa nos Estados Unidos. "The Fanatic", dirigido por Fred Durst, chegou aos cinemas no feriado do Labor Day ano passado. Não alcançou 15 mil dólares em sua estreia, fazendo que com seu distribuidor não divulgasse seus números de bilheteria.

Se uma vez ele já foi invencível nas bilheterias, capaz de encabeçar igualmente candidatos a blockbuster e filmes de prestígio e pretensões artísticas, hoje John Travolta não parece se preocupar com mais um retorno triunfal.

Talvez sua atenção esteja voltada para outros formatos. Ele ganhou um Emmy como um dos produtores de "The People v. O.J. Simpson: American Crime Story", em que também atuou ao lado de um elenco brilhante como o advogado Robert Shapiro. Seu futuro após "The Fanatic", porém, é uma incógnita.

Ao menos John Travolta honrou o pedido de L. Ron Hubbard e imortalizou "A Reconquista" em celulóide. Bom, não é melhor do que "Star Wars". Não é sequer melhor que "Showgirls". Ou "Crepúsculo". Ou "Howard, o Super-Herói".

É ruim de ponta a ponta, e as duas décadas desde seu lançamento não lhe fizeram bem. Com boa vontade dá para encarar com pipoca e bom humor. Mas John Travolta nunca disse uma linha negativa sobre o filme. Algo me diz que, se pudesse voltar no tempo, ele faria tudo outra vez.

Roberto Sadovski