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Homem-Coisa: 15 anos do filme que a Marvel não quer que você assista

"Homem-Coisa - A Natureza do Medo" - Divulgação
'Homem-Coisa - A Natureza do Medo' Imagem: Divulgação
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

07/05/2020 04h56

2005 foi um ano eclético e emblemático para adaptações de histórias em quadrinhos no cinema. Foi o ano do desastroso "Elektra" e do cult "Constantine". Da violência estilizada de "Sin City" ao recomeço glorioso do Homem-Morcego em "Batman Begins". Do infantil "Quarteto Fantástico" ao casca grossa "Marcas da Violência". Tinha gibi em celuloide para todos os gostos!

Um filme baseado em HQ, porém, voou abaixo do radar. Tão baixo que passou reto pelo lançamento em cinemas, tendo sua premiére na TV antes de desaparecer no mercado de home entertainment sem fazer muito barulho. Mesmo com o selo Marvel estampando os créditos, não teve poder no mundo que salvasse "Homem-Coisa - A Natureza do Medo" do esquecimento.

Esse bonitão é o Homem-Coisa.... quando conseguimos vê-lo em cena! - Divulgação
Esse bonitão é o Homem-Coisa.... quando conseguimos vê-lo em cena!
Imagem: Divulgação

Os planos originais, claro, apontavam um caminho radicalmente diferente. A Marvel em 2005 experimentava um poder inédito no cinema. Depois de anos fora dos holofotes, o produtor Avi Arad, um dos figurões da editora, aos poucos emplacava seu sonho de ver os personagens materializados em carne e osso. Foi um começo tímido, com "Blade" em 1998 e "X-Men" em 2000.

Tudo mudou, porém, com o sucesso sem precedentes de "Homem-Aranha" em 2002. De repente, todo estúdio que tinha uma fatia dos direitos dos personagens para o cinema acelerou para arriscar um novo sucesso. Foi assim com "Hulk" (da Universal) e "Demolidor" (da Fox) em 2003. Foi assim com "Justiceiro" (da LionsGate) em 2004. E assim a banda tocava com as continuações de "Homem-Aranha" e "X-Men".

A essa altura, nos escritórios da Marvel em Los Angeles, os planos eram partir para a produção independente, garantindo financiamento que permitisse a criação da Marvel Studios. Havia um esboço de uma parceria de distribuição com a Paramount, e a compra da editora e seu catálogo pela Disney não existia nem em sonho.

O que existia na mente de Avi Arad era mostrar ao mundo que os personagens da Marvel não eram somente "super-heróis", e sim criações complexas que permitiam aventuras por diversos gêneros - da comédia à ficção científica, dos thrillers de espionagem aos épicos espaciais. E, não menos importante, o potencial em criar histórias de terror.

No mesmo ano, 'Batman Begins' mostrou como é que se coloca um gibi no cinema - Warner
No mesmo ano, 'Batman Begins' mostrou como é que se coloca um gibi no cinema
Imagem: Warner

O Homem-Coisa, ou Man-Thing, apareceu pela primeira vez na primeira (e única!) edição de "Savage Tales", em 1971. Criado por Roy Thomas, Gerry Conway e Gray Morrow, a criatura era originalmente Ted Sallis, um cientista em busca de recriar a fórmula do supersoldado que deu origem ao Capitão América.

Emboscado por tecno-terroristas, Sallis injeta a única amostra da fórmula em si mesmo antes de acidentar-se com seu carro no pântano. A combinação de ciência com forças mágicas no lugar o fazem renascer como um mostro feito de plantas, com zero memórias de sua vida humana e olhos vermelhos protuberantes. Um "monstro do pântano".

Claro que houve uma dor de cabeça nos escritórios da Marvel à época. Afinal, "Savage Tales" chegou às bancas um ano e meio depois de a DC Comics tem apresentado seu Monstro do Pântano, com origens praticamente idênticas. Conway era colega de quarto do roteirista Len Wein, houve um choque de ideias mas bizarramente não o bastante para as editoras entrarem em uma batalha legal.

O fato é que os anos distanciaram tanto o Homem-Coisa quanto o Monstro do Pântano de suas origens - em especial o segundo após uma chacoalhada radical em seus conceitos pelas mãos do escritor britânico Alan Moore. O "primo" pantanoso da Marvel, porém, jamais alcançou o mesmo nível de reconhecimento.

Avi já estava de olho no Homem-Coisa desde o começo do novo século. Disposto a provar que era possível associar a Marvel com um filme de terror, ele reativou a parceria com a produtora Artisan, que em 2000 tinha cerca de quinze personagens da editora sob suas asas. Para diminuir custos, a produção armou acampamento na Austrália sob comando do diretor Brett Leonard. E tudo, obviamente, deu errado.

A Marvel combinou um orçamento de 30 milhões de dólares com a Artisan - mais do que suficiente para rodar um terror decente. Ao contrário dos outros filmes co-produzidos pela empresa até então, ninguém da Marvel acompanhou as filmagens no outback australiano. Enquanto os dólares eram queimados, o material que chegada em Los Angeles era menos que promissor.

É aí que a história fica interessante. Eu sou amigo de Avi Arad desde o lançamento de "X-Men", e acompanhei de perto a gênese de todos os projetos da Marvel no cinema desde então. Em dezenas de viagens a Los Angeles, para cobrir outros lançamentos para a SET, aproveitava para visitar os escritórios da empresa e papear com o produtor. Uma dessas conversas girou em torno de "Homem-Coisa", que eu assistira em seu lançamento em DVD.

O produtor explicou que o orçamento pequeno não justificava acompanhar as filmagens que aconteciam do outro lado do mundo, e que eles se sentiam seguros com a direção de Brett Leonard - responsável por filmes B de luxo como "O Passageiro do Futuro" e "Assassino Virtual". Para isso, a Marvel contratou um produtor local para administrar o projeto na Austrália.

Nos gibis da Marvel ao menos ele parece alguma.... coisa! - Reprodução
Nos gibis da Marvel ao menos ele parece alguma.... coisa!
Imagem: Reprodução

Nas mãos desse produtor, porém, o orçamento foi esvaziando por "motivos misteriosos". Quando o dinheiro acabou, e o filme não estava nem perto de estar filmado, Avi encarou um dilema: despejava mais alguns milhões na produção, ou deixava que eles terminassem o filme com os recursos em mãos. Venceu a segunda opção, o estanque da sangria em vez de colocar um band-aid por cima de um talho de navalha.

Claro que havia uma grande expectativa por parte da Marvel e da Artisan - que então já fora absorvida pela mini major LionsGate - em expandir os limites da Marvel no cinema. Uma data para a estreia de "Homem-Coisa" estava inclusive agendada, o Halloween de 2004. O martelo seria batido depois de uma sessão teste para sentir a reação do público. Quando metade já havia deixado a sala de exibição com metade do filme exibido, a decisão final foi fácil.

Na teoria, a trama de "Homem-Coisa" é sólida, emprestando conceitos da fase em que seus gibis foram escritos pelo genial Steve Gerber (criador do protagonista de outro filme zicado, "Howard, o Super-Herói"). A história tem um pouco de mensagem ambiental, uma pitada de eco-terrorismo e violência explícita. No centro, uma criatura gerada pela magia em terras nativas invadidas por um gigante petrolífero, agora em busca de vingança.

O filme é um desastre, e nas entrelinhas é possível enxergar o esforço de Leonard em navegar pela narrativa sem absolutamente um centavo de produção. Cenas grandiosas no papel, como uma cidade inteira zumbificada a mando da criatura, desapareceram em um pântano que parece o quintal bagunçado da cabana de Yoda em Dagobah.

A própria criatura é uma vergonha total. A teoria era construir um Homem-Coisa onipotente com uma mistura de animatrônicos e efeitos digitais. Não colou. O que surge em cena é um refugo de maquiagem relegado à escuridão para ninguém perceber o quão picareta a coisa toda é. Com o desastre em mãos, a Marvel fez bem em ensaiar uma "estreia" na TV antes de se livrar das evidências do crime no mercado doméstico.

Nos quinze anos que separam "Homem-Coisa" do atual estado triunfante do estúdio, muita coisa mudou. A Marvel foi comprada pela Disney, Avi Arad decidiu não acompanhar a empresa e permanece atrelado à Sony - ele foi visto no palco do Dolby Theater entre a turma que recebeu o Oscar de melhor animação por "Homem-Aranha no Aranhaverso". A atriz australiana Rachael Taylor, estrela de "Homem-Coisa", retornou à Marvel pela porta da frente na série "Jessica Jones", da Netflix.

Rachael Taylor, sobrevivente do desastre chamado 'Homem-Coisa' - Divulgação
Rachael Taylor, sobrevivente do desastre chamado 'Homem-Coisa'
Imagem: Divulgação

O Universo Cinematográfico Marvel, por sua vez, já colocou no mundo 23 filmes - inclusive "Vingadores Ultimato", maior bilheteria da história do cinema. Nessa mistura, enxerga-se a execução da visão de Avi Arad, com um catálogo de filmes dos mais diversos gêneros ancorados na aba dos "filmes de super-heróis".

O que a Marvel ainda não entregou nesse hiato foi um filme de terror genuíno ("Quarteto Fant4stico", de 2015, é terrível mas não qualifica). Com o esforço para eliminar "Homem-Coisa" do olhar público, é possível que o personagem possa ser reaproveitado no futuro do estúdio.

Filmes como "Doutor Estranho no Multiverso da Magia", agendado para março de 2022, podem abrir espaço para o "nexo das realidades", o centro místico no pântano habitado pela criatura. O próprio reboot de "Blade", que até o momento só possui seu protagonista na pele de Mahershalla Ali, pode abrigar um companheiro criado por forças arcanas.

Ao menos fica a certeza de "Homem-Coisa - A Natureza do Medo" (que está disponível para ser garimpado em DVD no Brasil) não é o pior filme que a Marvel já injetou seus trocados. A honra duvidosa ainda é de "X-Men: Fênix Negra", que não vale sequer uma sessão de comédia involuntária.

Roberto Sadovski