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Um ano de Vingadores Ultimato: a experiência do cinema ainda é insuperável

Chris Evans como Capitão América em "Vingadores Ultimato" - Marvel/Disney
Chris Evans como Capitão América em 'Vingadores Ultimato' Imagem: Marvel/Disney
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

27/04/2020 07h12

Parece uma eternidade. Mas foi há apenas um ano que a aventura "Vingadores Ultimato" fechou seu primeiro fim de semana com absurdos 1.2 bilhões de dólares em caixa, primeiro de uma série de recordes que culminou com a maior bilheteria da história: 2.8 bilhões, pouco à frente da ficção científica "Avatar".

Os números, porém, são frios para traduzir a experiência única que foi acompanhar "Ultimato" em sua estreia. Uma das febres da internet são os vídeos de reações, e uma busca rápida pelo YouTube traz dúzias de gravações com o áudio de plateias ao redor do mundo experimentando a culminação de uma década do Universo Cinematográfico Marvel. É um show de rock e uma final de campeonato combinados, energia capaz de acender uma cidade!

Foi uma celebração merecida. "Ultimato", além de ser um filmaço, serve como lembrança de como a experiência coletiva no cinema é insuperável. É o espaço para todo tipo de criação audiovisual artística.

A sala de cinema pode (e deve) ser lugar para reflexão, para introspecção, para emoções verdadeiras. Para histórias que elevam o espírito humano, seja no cinema independente, seja com filmes autorais e pessoais. Mas também é o templo dos blockbusters gigantes, que combinam entusiasmo e antecipação com júbilo e catarse.

Eu sinto falta de ir ao cinema. Acredito que o isolamento social é absolutamente necessário para enfrentar a pandemia que aflige o planeta. Quem puder ficar em casa, não saia de casa! Ver filmes, porém, é parte do meu trabalho. É possível resolver minha vida com um notebook, uma boa conexão à internet e o mundo maravilhoso do streaming.

Mas nada substitui a experiência. Ver filmes no cinema não é só sentar na sala escura e se deixar levar pelo espetáculo que invade os sentidos. Ver filmes no cinema não é só experimentar as emoções anabolizadas pela escuridão quebrada pela luz projetada na tela.

Ver filmes no cinema é sobre momentos, sobre viver e compartilhar esses momentos! Sair de casa. Comprar o ingresso. A antecipação antes do começo da sessão. Quando o filme te agarra pela garganta, golpeia seu estômago e afaga seu coração, é um momento que jamais vai deixar sua memória.

Faça o teste. Quem se lembra de momentos quando assistiu a um filme especial em casa? As lembranças são difusas, compartilhadas com a tentação do smartphone e as redes sociais, com a pausa para ir à geladeira, com as inevitáveis conversas paralelas quando não existe a preocupação de importunar o fulano na poltrona E-7.

Chris Hemsworth em 'Vingadores Ultimato' - Marvel/Disney
Chris Hemsworth em 'Vingadores Ultimato'
Imagem: Marvel/Disney

Não entenda mal, eu adoro o conforto de ver um filme em meu sofá! Lembro-me de uma palestra, anos atrás, em que um "especialista" profetizava o fim das televisões como protagonistas da diversão em casa. Olho para minha widescreen com som digital e percebo o quanto avançamos na tecnologia que simula a melhor experiência possível de um cinema em nossa sala.

Mas é isso, um simulacro, a melhor alternativa possível. Mas ela não nos dá os momentos tão preciosos e marcantes. Na hora de puxar pela memória os melhores filmes que assistimos na vida, a lembrança de quando e de como vem a reboque do qual.

Minha educação cinematográfica foi nos anos 80. Uma dieta regular de clássicos em VHS (ou qualquer outro filme que eu pudesse colocar minhas mãos), misturada com o compromisso religiosos de conferir as estreias da semana no cinema. O som não era Dolby Atmos, a projeção não era digital, mas o entusiasmo de pegar uma fila com meus amigos do colégio para assistir a uma sessão noturna de "Os Caça-Fantasmas" não tem paralelos. Ou "RoboCop". Ou "Os Bons Companheiros". "Matrix". "O Senhor dos Anéis". "Homem-Aranha". "Mad Max: Estrada da Fúria".

Robert Downey Jr. em 'Vingadores Ultimato' - Marvel/Disney
Robert Downey Jr. em 'Vingadores Ultimato'
Imagem: Marvel/Disney

Cada fã de cinema tem uma história sobre uma sessão especial. Ou várias! Um ano atrás, uma nova geração construiu e compartilhou novas histórias com "Vingadores Ultimato". Claro, muita gente torce o nariz para a Marvel, ou para o cinema de entretenimento, ou para filmes que são, claro, um produto. Ou, como colocou Martin Scorsese, uma "montanha-russa", e não propriamente cinema.

É inegável, portanto, que a experiência fez parte do pacote. E que não existe absolutamente nada errado em um filme como "Vingadores Ultimato" ocupar lugar especial no inconsciente coletivo. Porque, acima de tudo, ele é a lembrança do quanto a experiência é especial. E do quanto sentimos falta dessa experiência.

Ah, e vale ressaltar que a aventura dirigida pelos irmãos Joe e Anthony Russo continua sendo um filme poderoso, que ganha uma outra dimensão quando visto em casa. Em tempos de pandemia global, "Ultimato" surge como um filme de emoção genuína, um conto sobre como as forças mais poderosas da Terra se uniram em nosso momento de maior necessidade. Ao encarar a catástrofe, nos diz a ficção, o triunfo só vem com a união de mentes e de propósitos. Mensagem poderosa.

Thor, Capitão América e Homem de Ferro encaram Thanos em 'Vingadores Ultimato' - Marvel/Disney
Thor, Capitão América e Homem de Ferro encaram Thanos em 'Vingadores Ultimato'
Imagem: Marvel/Disney

Não houve nenhum filme com essa combinação de golpe emocional e entretenimento superlativo desde "Vingadores Ultimato". Não nessa escala, não com esse alcance. Quando a quarentena for suavizada, quando for seguro para que todos possamos nos abraçar, caminhar pelas ruas e dividir um espaço coletivo com o propósito de diversão, o cinema vai precisar de filmes assim.

Porque a sala de cinema pode (e deve) ser lugar para reflexão, para introspecção, para emoções genuínas. Para histórias que elevam o espírito humano, seja no cinema independente, seja com filmes autorais e pessoais.

Mas também é o templo dos blockbusters gigantes, que combinam entusiasmo e antecipação com júbilo e catarse. E é com esses filmes que o mundo vai reaprender o caminho do cinema. E as emoções que só a experiência coletiva pode trazer. E não vamos deixar que o sacrifício de Tony Stark tenha sido em vão.

Roberto Sadovski