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'Milagre na Cela 7' é picaretagem que arranca lágrimas a marretadas

Cena de "Milagre na Cela 7" - Reprodução / Internet
Cena de 'Milagre na Cela 7' Imagem: Reprodução / Internet
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

24/04/2020 16h16Atualizada em 25/04/2020 12h07

Em "Trovão Tropical", comédia de 2008, o premiado ator Kirk Lazarus (Robert Downey Jr.) dá o melhor conselho (embora politicamente incorreto) para o astro de ação Tugg Speedman (Ben Stiller), que tenta ser levado a sério como artista: "Nunca interprete como um completo retardado".

A dica vem após Speedman fazer um caipira mentalmente incapaz em um dramalhão de quinta, que em vez de lhe trazer reconhecimento, só o expôs ainda mais ao ridículo.

O conselho serviria como uma luva para o ator Aras Bulut Iynemli, que em "Milagre na Cela 7" dá vida a Memo, pastor com deficiência mental, que termina preso ao ser acusado de assassinar uma garotinha.

Sem compreender a gravidade da situação, ele é jogado numa cela turca com outros criminosos e mantém um único apelo, quase infantil, em seu mundo limitado: quer rever Ova (Nisa Sofiya Aksongur), sua filha de 6 anos e centro de seu mundo.

Com caras e bocas que remetem mais ao já mítico Tonho da Lua da dramaturgia brasileira, e menos ao mais classudo Forrest Gump, Iynemli faz de seu Memo uma caricatura desastrosa, uma paródia que carrega todos os estereótipos de deficientes mentais cinematográficos.

Olhar perdido, mãos nervosas, histeria entrecortada por risadas infantis: todo clichê imaginável é jogado em cena, prejudicado ainda mais pela direção nada sutil de Mehmet Ada Öztekin, em nenhum momento preocupado em injetar credibilidade ou humanidade à trama.

O que é surpreendente, já que "Milagre na Cela 7" é a segunda refilmagem de um drama sul-coreano de 2013, posteriormente reinterpretado nas Filipinas ano passado. O texto original trazia uma abordagem mais pesada e menos lúdica. Essa nova versão, produzida na Turquia, tenta costurar a trama principal com o passado político do país, ensaiando a certa altura uma reflexão sobre a pena de morte e sua ineficiência.

O filme, claro, é a materialização do inferno das boas intenções. Não existe subtexto, não existe desenvolvimento de personagens, não existe arco dramático satisfatório. Qualquer discussão mais séria que pudesse criar uma base sólida para a trama é desperdiçada. O que sobra são intermináveis duas horas de Memo exposto a todo tipo de desgraça, unicamente para o deleite sadomasoquista da plateia.

"Milagre na Cela 7" pertence a uma categoria muito especial de filmes cuja única motivação é abraçar o sofrimento e fazer o público derreter-se em lágrimas. Mas elas não vêm por alguma conexão emocional com os personagens, e sim com o desfile de injustiças e tortura as quais Memo é submetido. É um filme sobre a desgraça, pela desgraça.

O pastor é flagrado com o corpo de uma garotinha nas mãos —ela escorregou em um rochedo e morreu ao bater a cabeça. Mas seu pai, um militar linha dura do exército turco, só consegue enxergar um assassino desalmado naquele homem com trejeitos infantis.

Memo é preso e espancado. Confessa o crime, é espancado mais um pouco. Condenado à morte, é transferido para a prisão e é novamente espancado. Cada fiapo de esperança jogado na trama é pulverizado com um certo sadismo. Entre uma sessão de miséria e outra, desespera-se pela filha ausente. Como resultado, tudo parece forçado, calculado para trazer choro fácil.

Filmes construídos em torno de injustiças não raro disparam um gatilho emocional irrefreável. O clássico "O Sol É Para Todos" traz essa sensação de impotência, mas havia um gancho emocional e social poderoso —o racismo era o subtexto que amarrava a trama.

"Um Sonho de Liberdade", do qual "Milagre na Cela 7" afana na cara de pau uma sequência-chave, navegou por águas similares, com o sofrimento de Andy Dufresne (Tim Robbins) servindo como alegoria para o espírito humano imbatível.

Aqui, por outro lado, o choro não tem contexto. Ele é arrancado com fórceps de forma rasa, usando uma pieguice similar a folhetins mexicanos, em que todos os sentimentos são absurdamente exagerados. Quando você acha que vai respirar, o filme joga uma nova desgraça. E tome mais choro!

A trama inverossímil não ajuda: mesmo levando pancadas, Memo conquista seus colegas de cela e até os guardas mais cruéis da prisão, todos unidos para levar sua filha a ele e aplacar seu sentimento.

São assassinos e criminosos, terroristas e ladrões, mas todos se tornam pessoas melhores ao serem expostos à "pureza" de Memo. É de uma picaretagem sem tamanho, amarrada em um filme emocionalmente desonesto.

Judd Apatow, diretor de "Ligeiramente Grávidos" e "O Virgem de 40 Anos", disse certa vez que comédia é o gênero mais complicado do cinema porque fazer rir é tarefa complicada. "Se eu quero que o público chore, eu atiro em um cachorro", cravou com razão. "Milagre na Cela 7" são duas horas de filhotes fofinhos sendo baleados na cabeça. No fim, você vai chorar. De raiva.

Roberto Sadovski