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Como o cinema pode sobreviver a um ano sem blockbusters

Scarlett Johansson em "Viúva Negra" - Marvel/Disney
Scarlett Johansson em 'Viúva Negra' Imagem: Marvel/Disney
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

06/04/2020 05h36

Will Smith voltou a ser o rei das bilheterias. Seu "Bad Boys Para Sempre" senta no topo da arrecadação mundial com 425 milhões de dólares, se destacando como o maior filme de 2020. Embora não seja impossível, ainda é improvável que ele desça do pódio.

A pandemia do coronavírus mudou o mundo para sempre, reavaliando hábitos e deixando o futuro, mais do que nunca, uma incógnita. É difícil a essa altura apontar qual será o "novo normal". Mas é certo que, mesmo quando a quarentena global for aliviada, e o vírus estiver razoavelmente sob controle, dificilmente a população estará disposta a encarar uma sala fechada ao lado de estranhos.

A empresa de pesquisa EDO perguntou a 7 mil pessoas nos Estados Unidos se eles voltariam aos cinemas quando as postas reabrissem. Embora promissores 70 por cento dissessem que retomariam o hábito, 45 por cento desse recorte mostrou cautela e esperaria alguns dias antes de comprar um ingresso - já 11 por cento apontaram que sua espera seria de alguns meses.

Will Smith e Martin Lawrence em 'Bad Boys Para Sempre' - Sony
Will Smith e Martin Lawrence em 'Bad Boys Para Sempre'
Imagem: Sony

A ESCALADA DO STREAMING

Não que a indústria esteja paralisada. Os serviços de streaming tornaram-se o entretenimento favorito de quem pôde ficar em casa. A mesma pesquisa msotrou que as assinaturas do Hulo e do Disney+ dispararam desde o início da pandemia. Netflix e HBO Now viram seu consumo aumentar em 80 por cento. E metade dos entrevistados disse ter comprado filmes on demand pela Amazon, iTunes e YouTube.

Para o circuito exibidor, porém, as consequências da pandemia foram devastadoras. Grandes redes de exibição encontram-se de portas fechadas em todo o mundo. O governo americano, ciente do peso cultural de sua produção de entretenimento em todo o mundo, separou 454 bilhões de dólares do pacote de 2 trilhões aprovado pelo senado americano para empresas que incluem a rede exibidora - tudo ainda depende, claro, da canetada do presidente Trump.

Paralelamente, o próprio mercado tenta se ajudar. O selo Criterion Collection e a Janus Films juntaram forças em um fundo para ajudar cinemas independentes a pagar suas contas essenciais (como aluguel e salários), aberto para doações do público.

Sônia Braga em 'Bacurau' - Vitrine Filmes
Sônia Braga em 'Bacurau'
Imagem: Vitrine Filmes

Já a rede Alamo Drafthouse, uma das melhores do mundo e programação e qualidade de exibição, criou uma iniciativa, a Virtual Cinema, que permite a distribuidores independentes como Film Movement, Magnolia Pictures e Kino Lorber (que levou o brasileiro "Bacurau" ao circuito ianque) exibir seus lançamentos para o público em quarentena, reproduzindo em casa eventos como Terror Tuesday e Weird Wednesday.

O Cine Petra Belas Artes, em São Paulo, também mantém sua curadoria de filmes cult e clássicos com seu serviço on demand, À La Carte, ou como um canal na plataforma Looke. Logo faço um listão aqui na coluna do filé que eles disponibilizaram.

COMO FICAM OS BLOCKBUSTERS

Os grandes estúdios, por sua vez, continuam sua dança das cadeiras. Boa parte dos grandes lançamentos programados para o primeiro semestre de 2020 pisou no freio para a segunda metade do ano. Honestamente, alguns casos ainda soam como otimismo exacerbado por parte dos produtores.

É o caso de "Soul", animação da Pixar que mantém sua estreia no fim de junho. Já "Mulan", versão live action da animação Disney, deixou sua data original em março para ser reposicionado no final de julho. No mesmo mês, o novo filme de Christopher Nonal, "Tenet", permanece imutável (mas eu chuto que vai pegar a vaga de "Godzilla vs. Kong" em novembro, ou mesmo a de "Duna" em dezembro).

Gal Gadot em 'Mulher-Maravilha 1984' - Warner
Gal Gadot em 'Mulher-Maravilha 1984'
Imagem: Warner

O mesmo vale para "Mulher-Maravilha 1984" (remarcado para agosto), "Um Lugar Silencioso II", o novo "Candyman" e o prequel de "Kingsman" - todos movidos para setembro. Outubro ainda tem "Venom 2" listado (que eu duvido que mantenha a data), assim como "The French Dispatch" (novo filme de Wes Anderson" e "Viúva Negra" agendado para o último dia do mês. Dessa leva eu só coloco fé na data da aventura com Scarlett Johansson.

A Marvel, por sinal, paralisou suas produções, tanto em cinema quanto as séries do Disney+, pelo menos até setembro. "Viúva Negra" termina como único lançamendo do estúdio em 2020, tomando a data de "Eternos". Todos os filmes foram empurrados, com "Eternos" agora em fevereiro de 2021, "Shang-Chi" em maio de 2021, o segundo "Doutor Estranho" em novembro de 2021, com as sequências de "Thor", "Pantera Negra", "Capitã Marvel" e (possivelmente) "Homem-Aranha" agendadas para 2022.

Daniel Craig em '007 - Sem Tempo Para Morrer' - Universal
Daniel Craig em '007 - Sem Tempo Para Morrer'
Imagem: Universal

Mesmo com candidatos a blockbuster agendados já para julho e agosto, é improvável que o ânimo do público pegue tração imediatamente pós-quarentena. Talvez uma volta aos cinemas já no fim do ano traga otimismo ao sentimento do Natal e da virada para 2021.

Se tudo correr bem, a plateia deve retomar o hábito da experiência coletiva na sala escura em tempo de conferir "007 - Sem Tempo Para Morrer" em novembro. Curiosamente, a nova aventura de James Bond foi o primeiro filme a ter seu lançamento adiado pela ameaça do coronavírus e coroaria com louvor um respiro para a indústria e o entusiasmo do público, ávido por escapismo após meses de isolamento. Até lá, o futuro é dominado pela incerteza - ainda que salpicado com um pouco de esperança.

Roberto Sadovski