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"Silverado" e outros 5 westerns incríveis para assistir na Netflix

Scott Glenn e Kevin Kline em "Silverado" - Netflix
Scott Glenn e Kevin Kline em "Silverado" Imagem: Netflix
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

01/04/2020 07h49

Os anos 80 foram um desastre para o western. O gênero havia florescido nos anos 50, quando a América buscava exaltar seu heroísmo nos anos pós-guerra, e experimentou seu auge na década seguinte quando a produção migrou para a Itália e os filmes ganharam mais profundidade.

Depois da desconstrução dos anos 70, em filmes como "O Pequeno Grande Homem", "Os Abutres Tem Fome" e até "Banzé no Oeste", caubóis e nativos perderam o brilho para o público ianque, mais interessado em se ver refletido em dramas urbanos intimistas.

Lawrence Kasdan cresceu assistindo aos grandes westerns americanos, era fã especialmente de "Sete Homens e Um Destino", e no meio da década seguinte havia acumulado cachê o suficiente para arriscar uma volta ao gênero.

Até ali, seu currículo incluia os roteiros de "O Império Contra-Ataca", "Os Caçadores da Arca Perdida" e "O Retorno de Jedi", além de dois filmes como diretor, "Corpos Ardentes" e "O Reencontro". Em 1985, promoveu um retorno ao western com "Silverado". E acertou em cheio.

Kevin Costner e Danny Glover em "Silverado" - Netflix
Kevin Costner e Danny Glover em "Silverado"
Imagem: Netflix

Eu não assistia a "Silverado" há pouco mais de duas décadas, e sempre cresce o temor de abalar a memória afetiva quando reencontramos nossos filmes de adolescência. Moleque, eu não vi o filme no cinema, e sim em glorioso VHS, atraído pelo nome de Kasdan e suas colaborações com Steven Spielberg e George Lucas.

Essa semana a Netflix disponibilizou o western em sua plataforma, e foi uma volta ao passado sem igual. "Silverado" continua sendo uma cápsula do tempo, um faroeste pós-moderno que agrega todas as paixões de Kasdan com uma sensibilidade contemporânea.

A história é praticamente copy/paste de grandes westerns que passaram pelos olhos de Kasdan. Silverado, uma cidade perdida em meio à expansão para o Pacífico, é dominada por um rancheiro criminoso (Ray Baker) e um xerife corrupto (o grande Brian Dennehy).

As coisas mudam com a chegada de quatro homens unidos pelo destino, todos envolvidos em histórias de vingança e justiça, todos com sua trajetória se cruzando em Silverado. São os irmãos Emmett (Scott Glenn) e Jake (Kevin Costner, caminhando rumo ao estrelado), além do pistoleiro Paden (Kevin Kline) e do caubói Mal (Danny Glover).

"Silverado" - Netflix
"Silverado"
Imagem: Netflix

"Silverado" continua tão saboroso quanto a mais de três décadas atrás. Kasdan recheou seu filme com elementos que, em 1985, soaram como novidade para um público que há mais de uma geração não era exposto a um exemplar tão bem acabado do gênero.

Embora caminhe por trilhas há muito desbravadas, Kasdan injeta entusiasmo de fã, similar ao que Spielberg fizera com seriados dos anos 30 em "Os Caçadores da Arca Perdida". O elenco abraçou o desafio e conferiu verdade à atmosfera nostálgica - em especial Costner, que nunca escondeu sua paixão irrestrita pelo gênero.

Apesar do sucesso, "Silverado" não cravou um retorno ao western. Nem ele e nem "O Cavaleiro Solitário", que Clint Eastwood dirigiu e protagonizou no mesmo ano. Curiosamente, o gênero só decolaria com força em 1990, quando o próprio Costner faria o opulento "Dança com Lobos", encontrando seu exemplar definitivo três anos depois com "Os Imperdoáveis", em que Eastwood faria o filme definitivo de sua carreira.

É curioso como o western continua pouco representado no streaming. Nada de Sergio Leone, um ou outro Clint Eastwood, nem sinal de clássicos com John Wayne. Ainda assim, é possível pincelar uma mini-maratona e recuperar o clima de cavalgada em direção ao Sol.

MATAR OU MORRER
(High Noon, Fred Zinnemann, 1952)

Gary Cooper em "Matar ou Morrer" - Netflix
Gary Cooper em "Matar ou Morrer"
Imagem: Netflix

Um dos clássicos absolutos do gênero, o filme de Fred Zinnemann ("A Um Passo da Eternidade") representa uma ruptura com a estrutura do gênero. Gary Cooper é um xerife de uma cidadezinha e, prestes a se aposentar, precisa enfrentar um bandido e sua gangue em busca de vingança.

No auge do Macarthismo, "Matar ou Morrer" trocou tiroteios e perseguições por diálogos introspectivos sobre dever e honra, sobre pacifismo e violência. Décadas depois, sua mensagem permanece.

OS BRUTOS TAMBÉM AMAM
(Shane, George Stevens, 1953)

Alan Ladd em "Os Brutos Também Amam" - Netflix
Alan Ladd em "Os Brutos Também Amam"
Imagem: Netflix

George Stevens ("Assim Caminha a Humanidade") criou não só um filme, mas uma bússola moral que influenciou gerações de cinemastas. Na superfície, "Shane" traz mais um pistoleiro solitário ajudando os desassistidos contra forças opressoras.

O filme traz, porém, a carga emocional da violência por trás do romantismo da conquista do Oeste, com pistoleiros cruéis e crianças que abandonam a inocência, especialmente quando a trama é vista pelo olhar do pequeno Joey, ainda incapaz de compreender o preço cobrado pela liberdade.

RÁPIDA E MORTAL
(The Quick and the Dead, Sam Raimi, 1995)

Sharon Stone em "Rápida e Mortal" - Netflix
Sharon Stone em "Rápida e Mortal"
Imagem: Netflix

Saltando para a década de 90, "Rápida e Mortal" é um prazer proibido, um exercício de estilo nas mãos de Sam Raimi ("A Morte do Demônio", "Homem-Aranha"). Mais curioso é ver como os estúdios não sabiam exatamente o que fazer com Sharon Stone, alçada ao estrelato três anos antes com "Instinto Selvagem", aqui assumindo o papel de uma pistoleira em busca de vingança.

O elenco, por sinal, é estelar. Reunidos em uma cidade para uma série de duelos, os gatilhos mais rápidos do Oeste incluem um bandido sádico (Gene Hackman), seu filho impetuoso (Leonardo DiCaprio) e um pastor com passado de violência (Russell Crowe). É uma grande bobagem, mas uma bobagem acelerada e divertida.

OS INDOMÁVEIS
(3:10 to Yuma, James Mangold, 2007)

Russell Crowe e Christian Bale em "Os Indomáveis" - Netflix
Russell Crowe e Christian Bale em "Os Indomáveis"
Imagem: Netflix

Não é por acaso que James Mangold incluiu uma longa citação a "Os Brutos Também Amam" na aventura mutante "Logan": o western é uma das grandes paixões do diretor. "Os Indomáveis" é sua tentativa em criar um faroeste tradicional, refilmando "Galante e Sanguinário", que Glenn Ford protagonizou em 1957.

A trama aqui concentra-se no veterano da Guerra Civil Dan Evans (Christian Bale), que agora tenta levar a vida como rancheiro. Desesperado para acertar uma dívida, ele aceita a tarefa de conduzir um criminoso, Ben Wade (Russell Crowe), que o atacara anteriormente, para o trem que o levará à prisão. Os dois astros trazem equilíbrio à trama sobre amizade e honra, traduzida com mão firme por Mangold. Filmaço.

A BALADA DE BUSTER SCRUGGS
(The Ballad of Buster Scruggs, Joel e Ethan Coen, 2018)

Tim Blake Nelson em "A Balada de Buster Scruggs" - Netflix
Tim Blake Nelson em "A Balada de Buster Scruggs"
Imagem: Netflix

Os irmãos Coen já haviam flertado com o gênero antes de criar um western tradicional com a belíssima refilmagem de "Bravura Indômita". "A Balada de Buster Scruggs", por outro lado, é uma antologia que captura, ora com humor, ora com doçura, ora com realismo brutal, as contradições da mais americana das mitologias.

São seis histórias, com o tom gradativamente abandonando o otimismo e o clima de aventura dos primeiros filmes do gênero, abraçando por fim a brutal realidade da colonização do Oeste e suas consequências.

Apesar do formato episódico, é uma experiência que merece ser consumida de uma só vem, abraçando a narrativa melancólica e agridoce tão familiar aos Coen. Meu capítulo favorito? "O Canyon Dourado", com Tom Waits como um garimpeiro que encara sua mortalidade na busca efêmera por ouro.

O final poético de "Os Brutos Também Amam" - Netflix
O final poético de "Os Brutos Também Amam"
Imagem: Netflix

Roberto Sadovski