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Pandemia: Quando o cinema não busca respostas... mas oferece conforto

Gwyneth Paltrow em "Contágio" - Divulgação
Gwyneth Paltrow em "Contágio" Imagem: Divulgação
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

24/03/2020 06h50

"Nada se espalha como o medo." "Contágio" foi lançado em 2011 e usava como combustível exatamente o medo. Neste drama de Steven Soderbergh, o mundo precisa lidar com os resultados de uma pandemia enquanto cientistas buscam uma cura.

O diretor fragmenta a narrativa entre políticos militares e civis, focando-se no personagem de Matt Damon e em como ele lidou com as tragédias e triunfos do cidadão comum quando ameaçado por um inimigo invisível. Nas últimas semanas, Contágio também se tornou uma das produções mais procuradas nos serviços de streaming globais (por aqui ele está disponível por meio do HBO GO).

Não foi o único. Das produções mais realistas aos filmes mais fantásticos, temas relacionados com pandemias mundiais capturaram mais uma vez o interesse do planeta. Na lista dos títulos mais procurados na Netflix no Brasil destaca-se "Epidemia", thriller de Wolfgang Petersen lançado em 1995, em que Dustin Hoffman, Renée Russo e Morgan Freeman surgem cientistas militares que buscam a cura para um vírus mortal que alastra-se rapidamente.

Dustin Hoffman e Renée Russo tentam achar uma cura em "Epidemia" - Divulgação
Dustin Hoffman e Renée Russo tentam achar uma cura em "Epidemia"
Imagem: Divulgação

Uma procura mais detalhada pela internet vai trazer outros títulos hoje no zeitgeist, de "Eu Sou a Lenda" (Will Smith busca a cura de um vírus zumbificante) a "Os 12 Macacos" (Bruce Willis viaja no tempo para impedir uma pandemia global) a "Guerra Mundial Z" (Brad Pitt busca a cura de um vírus zumbificante) a "Extermínio" (Cillian Murphy lida com o resultado de um vírus zumbificante). É o medo de uma contaminação global como combustível para a ficção

O que experimentamos hoje não é ficção. Termos como "pandemia" e "quarentena mundial" deixaram de pontuar histórias fictícias para se tornar parte do dicionário rotineiro. A pandemia do COVID-19 - o coronavírus - colocou o planeta em estado de alerta, com esforços concentrados em diversos países para encontrar uma cura. Enquanto isso, a população busca no isolamento social a melhor e mais abrangente forma de prevenção (reforço o recado, mantenha-se em casa!).

Sem poder usufruir de nenhuma experiência coletiva, cresce a procura por diversão indoors. Quem está em família pode jogar truco, mas a opção mais óbvia para quem gosta de cultura pop são videogames e plataformas de streaming. E a curiosidade em ver como a ficção lida com o tema tornou-se conversa de bar - ou melhor, de transmissões ao vivo via redes sociais.

Brad Pitt vê as consequências de um vírus global em "Guerra Mundial Z" - Divulgação
Brad Pitt vê as consequências de um vírus global em "Guerra Mundial Z"
Imagem: Divulgação

O roteirista de "Contágio", Scott Z. Burns, foi a público logo quando a pandemia do coronavírus foi decretada. Para escrever o filme ele cercou-se de especialistas, inclusive os epidemiologistas Larry Brilliant e Ian Lipkin, para garantir a veracidade das situações apresentadas em seu longa. "Muita gente tem me acusado nas redes sociais de ser capaz de viajar no tempo", disse Burns em tom jocoso.

"Mas o que as pessoas querem saber é seu eu tenho alguma informação sobre o que está acontecendo ou sobre o que virá em seguida", completa. Sua sugestão é simples: ouça os especialistas e siga a orientação de pessoas treinadas para esse tipo de situação. Ou, como disse Harrison Ford há alguns anos: não confie em políticos que não acreditam na ciência!

A ficção, afinal, não vai trazer respostas para a ameaça do coronavírus. E nem deveria: não é o papel da fantasia buscar soluções para a vida real, e sim refletir nossos anseios e inseguranças acerca do mundo real. "Contágio" acertou ao prever os charlatões sensacionalistas que aparecem com alguma cura mágica, mas errou na velocidade de resposta do governo americano.

Cillian Murphy leva seu distanciamento social a sério em "Extermínio" - Divulgação
Cillian Murphy leva seu distanciamento social a sério em "Extermínio"
Imagem: Divulgação

"Nunca pensei quando escrevi o roteiro que uma das variáveis seria um governo que não acredita em ciência e que desinforma sua população", dispara Burns. "Mas é o que temos." Outros trabalhos de ficção apostam mais na aventura em torno da pandemia do que em seu controle.

O que todos possuem em comum, entretanto, é um sinal de esperança. De "Eu Sou a Lenda" a "Guerra Mundial Z", seus protagonistas (SPOILER ALERT!!!!!) conseguem por fim desenvolver alguma cura que possa reverter o estado de sítio global causado pelas doenças. A viagem no tempo de "Os 12 Macacos" pode ter impedido um proverbial fim do mundo. A jornada pelo futuro distópico de "Filhos da Esperança" aponta um final em que nossa sobrevivência como espécie pode estar garantida.

Assistir a filmes ancorados em vírus mortais, ao contrário do que possa parecer, é menos um fetiche de destruição e mais um alento, o desejo de chegar um final feliz. Ah não ser, claro, que a trama envolva chimpanzés inteligentes: daí nosso futuro repousa mesmo na Estátua da Liberdade destruída na praia como testemunho de nossa estupidez.

"Ardam todos no inferno!" - Divulgação
"Ardam todos no inferno!"
Imagem: Divulgação

Roberto Sadovski