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Roberto Sadovski


Assustador, O Homem Invisível traz inteligência ao reimaginar um clássico

Elisabeth Moss em O Homem Invisível - Universal/Divulgação
Elisabeth Moss em O Homem Invisível Imagem: Universal/Divulgação
Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

28/02/2020 06h25

A Universal bem que tentou soprar nova vida a seus monstros clássicos ao iniciar seu Dark Universe em 2017 com uma nova versão de A Múmia. Tinha Tom Cruise, tinha Russell Crowe, tinha a produção mais cara que o dinheiro pode comprar. Ainda assim, morreu na praia. Com seu fracasso, o Dark Universe foi engavetado, sobrando uma foto com Cruise, Johnny Depp e Javier Barden antecipando, literalmente, o nada.

Corta para 2020 com essa nova versão de O Homem Invisível chega aos cinemas. Mas não o filme anunciado com Depp, que ficou na promessa de monstros se tornando heróis, e sim uma visão original, surpreendente e genuinamente assustadora - cortesia do diretor e roteirista Leigh Wannell. Nada de mega orçamentos ou super astros na receita: com um conceito simples e elegante, o criador de Jogos Mortais e Sobrenatural passou a borracha na ideia de um universo compartilhado, mirou na ficção científica e reposicionou o personagem-título como vilão do filme. Mas não como seu protagonista.

O Homem Invisível tem seu ponto de partida, curiosamente, como o suspense Dormindo com o Inimigo, em que Julia Roberts empreende uma fuga desesperada de seu marido abusivo. O papel da vítima aqui é de Elisabeth Moss. A atriz de The Handmaid's Tale é a arquiteta Cecilia Kass, presa a um relacionamento física e mentalmente abusivo com um engenheiro bilionário (Adrian, papel de Oliver Jackson-Cohen, que por motivos óbvios é pouco visto em cena). Ela consegue escapar de sua mansão paradisíaca e prepara-se para uma nova vida longe de seu algoz.

Mas as cicatrizes mentais são evidentes, já que Cecilia, hospedada na casa do policial James Lanier (Aldis Hodge) é incapaz de caminhar até a caixa de correio na calçada. A coisa muda quando ela recebe uma notificação que Adrian cometeu suicídio, deixando-lhe a fortuna de 5 milhões de dólares com a condição de que ela não seja acusada de nenhum crime e nem seja declarada mentalmente incapaz... e você já deve desconfiar para onde e trama está caminhando, certo?

Universal/Divulgação
Imagem: Universal/Divulgação

Bom, o caminho é quase esse. É certo que Cecilia passa a desconfiar que não está sozinha mesmo quando tudo indica o contrário - anos de pavor aguçaram seu sexto sentido. Leigh Wannell mostra ser um diretor sádico ao costurar o suspense aos poucos, revelando às vezes de forma nada sutil a presença de alguém que não pode ser visto, aos poucos minando a sanidade da protagonista. O jogo não é ocultar o homem invisível - afinal, do lado de cá sabemos que tem alguém ali -, mas pressionar ao máximo a tortura em Cecilia até ela descobrir seu limite.

Wannell foi esperto ao trabalhar em parceria com Elisabeth Moss: o roteiro foi discutido com a atriz para incorporar ao máximo o ponto de vista feminino em um filme basicamente sobre o estado de pânico em experimentar um relacionamento abusivo elevado ao máximo. Quando a trama caminha para a ultraviolência, revelando o que a personagem de Moss sabia desde o início, é uma catarse coletiva para a plateia e uma vitória para uma mulher que, como muitas do lado de cá, é simplesmente rotulada como louca. Mas engana-se quem acredita que O Homem Invisível traz uma trama fácil de antecipar: as reviravoltas no texto são súbitas e verdadeiramente chocantes.

Não que o filme seja perfeito. Algumas soluções parecem fáceis e convenientes, e por vezes alguns personagens tomam decisões que só se justificam "porque deve estar escrito no roteiro". Mas são pecados menores, compensados por um elenco que empresta veracidade a uma trama fantástica e por efeitos visuais simples e eficazes que materializam o homem invisível com bastante realismo.

Filmado na Australia e produzido pela BlumHouse, a regra foi manter o orçamento em uma média que provavelmente custou o serviço de catering em A Múmia com Tom Cruise. Um gasto menor significa mais liberdade para riscos - o que é fundamental em um filme de terror que não pode se apequenar quando precisa ser mais intenso e impactante.

Universal/Divulgação
Imagem: Universal/Divulgação

Não é a primeira vez que o conceito de um homem invisível é reimaginado como um predador empoderado pela ciência. Paul Verhoeven fez sua própria versão em 2000 quando colocou Kevin Bacon como um cientista que se torna cobaia de seu próprio experimento em O Homem Sem Sombra. Mas ele ainda era o foco, e o filme buscava uma visão sobre um homem sem amarras morais para fazer o que quiser sem ser visto - o que inclui violentar sexualmente sua vizinha.

No novo O Homem Invisível o ônus psicológico recai sobre a vítima e a forma que ela busca manter a sanidade para provar ao mundo que, de fato, é alvo de um stalker, um ex-namorado abusivo que agora é capaz de aterrorizá-la sem ser visto. É o pesadelo de toda mulher, materializado em um filme esperto e sofisticado, que prova o poder de boas ideias sobre a força de astros que não são infalíveis.

Roberto Sadovski