PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Roberto Sadovski


Como Ben Affleck arruinou minha ressaca do Carnaval com um filme horroroso!

Roberto Sadovski

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Colunista do UOL

27/02/2020 02h51

Com o fim do Carnaval - e do caos, dos bloquinhos, do clima pós-apocalíptico -, a quarta-feira de cinzas trouxe serenidade, aquele momento para renovar as energias e, de fato, dar um start no ano aqui em nossas terras tropicais. E nada melhor do que seguir a farra momesca com um thriller bacana, recheado de gente de peso no elenco, gente de currículo elegante na direção e uma mistura de política, ação e drama familiar para ajudar a mente ancorar-se na realidade. O algoritmo (sempre ele) estampou um poster virtual com Anne Hathaway e Ben Affleck preenchendo o quadro, e apesar do título estranho, mergulhei em A Última Coisa Que Ele Queria. Mal sabia eu que seria um presságio, que pouco mais de duas horas depois eu perceberia o quanto o nome traduzia exatamente o sentimento para um feriado chuvoso com as luzes e os sons da folia reverberando à distância. "O horror, o horror", diria o coronel Kurtz.

Anne Hathaway nitidamente incerta sobre o filme que está fazendo - Netflix/Divulgação
Anne Hathaway nitidamente incerta sobre o filme que está fazendo
Imagem: Netflix/Divulgação

Antes de mais nada, é bom limpar o ar. Eu honestamente gosto de Ben Affleck, simpatia que vem de seu Holden McNeil em Procura-se Amy. Desde que sua carreira disparou com Gênio Indomável, acompanhei seus altos e baixos enquanto ele tentava descobrir seu lugar em Hollywood - e combatia seus próprios demônios. Alçado à condição de tesouro americano, Affleck teve um período como astro genuíno (Armageddon, Pearl Harbor, A Soma de Todos os Medos, Demolidor), afundou em bobagens como Contato de Risco, Menina dos Olhos e Sobrevivendo ao Natal, antes de se reinventar como diretor em Medo da Verdade. Seus filmes seguintes, Atração Perigosa e Argo, o reposicionaram para um terceiro tempo em Hollywood, culminando com o papel de Bruce Wayne em Batman vs. Superman e Liga da Justiça. Mas o alcoolismo e o divórcio que corroíam sua vida pessoal inevitavelmente invadiram a profissional. A Última Coisa Que Ele Queria foi rodado em meio a esse turbilhão, e fica a dúvida se o papel de Affleck foi reduzido por ele não estar no nível do resto do elenco.

Não que seja desculpa, claro, já que o astro é o menor dos problemas neste filme incoerente, que coloca em Anne Hathaway a tarefa de conduzir a trama. Ela é Elena McMahon, repórter mais à vontade em zonas de guerra do que numa redação. Em 1984, porém, ela abandona a profissão temporariamente, em meio à cobertura da eleição que manteve Ronald Reagan no poder em 1984, para cuidar de seu pai (Willem Dafoe, sempre um porto seguro até nos filmes mais toscos). Num passe de mágica, Elena se vê na Costa Rica, assumindo o lugar do pai como traficante de armas para guerrilheiros insurgentes na América Central. A essa altura a trama inicial era uma lembrança distante e eu já havia desistido de encontrar qualquer coerência narrativa. Dee Rees, que conduziu com delicadeza e intensidade o drama Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississipi, mostra-se incapaz de encontrar seu chão. Cenas parecem fora de ordem, personagens vem e vão indiscriminadamente, o tom é uma completa bagunça, anabolizado por uma performance destrambelhada de Hathaway, que não faz nada além de acompanhar o caos ao redor.

Voltamos, portanto, a Ben Affleck. Apresentado nas primeiras cenas como agente da CIA, seu Treat Morrison toma um chá de sumiço e ressurge já no terceiro ato. Mas não como cavaleiro na armadura para salvar a protagonista (a essa altura, enfronhada em tantas reviravoltas que nem ela parece interessada no passo seguinte), e sim como uma espécie de avatar para costurar um mínimo de coerência na trama. A certa altura repórter e espião sentam, literalmente ditam o que aconteceu até ali e nem assim o filme fica claro. Para piorar, Affleck parece cansado, sem fôlego, inchado e com olhar distante - o total oposto do agente da CIA despachado pelo governo para resolver tretas além das fronteiras. É uma atuação opaca, sem gás, com o astro tentando sem nenhum sucesso impor algum peso dramático, mas A Última Coisa Que Ele Queria a essa altura está além de qualquer salvação.

A diretora Dee Rees observa o estrago seguir em frente.... - Netflix/Divulgação
A diretora Dee Rees observa o estrago seguir em frente....
Imagem: Netflix/Divulgação

E isso é o mais frustrante! Com o quilate do talento envolvido, o filme de Dee Rees tinha tudo para se firmar como um dos grandes filmes abrindo 2020. E as ferramentas estão lá, com a diretora entregando (poucos) momentos de brilho real em meio ao caos. A primeira "missão" da personagem de Anne Hathaway carrega tensão e senso de perigo genuínos, e a atmosfera claustrofóbica em que a protagonista se deixa envolver sugere que a história talvez precisasse não mais que um par de revisões no roteiro para consertar alguns buracos narrativos. Do jeito que está, é um desperdício - e o pior choque de realidade possível para curar uma ressaca de Carnaval. O único consolo mórbido é ver que A Última Coisa Que Ele Queria estava no topo dos filmes mais assistidos na Netflix na semana da folia. Ao menos eu não sofri sozinho.

Roberto Sadovski