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Outro apocalipse? Livro relata momentos em que o mundo se aproximou do fim

Triunfo da Morte. - Pieter Bruegel, o Velho.
Triunfo da Morte. Imagem: Pieter Bruegel, o Velho.
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos – Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

06/05/2020 09h32

Dois autores viraram gurus de muitos brasileiros nesta época conturbada: o pensador indígena Ailton Krenak e o historiador israelense Yuval Noah Harari. Já eram pessoas com bom destaque, mas textos feitos para refletir sobre a pandemia enquanto o coronavírus se alastrava pelo mundo os colocaram em outro patamar. Nas redes, entre leitores, há algumas semanas era impossível navegar sem trombar com fotos de "Na Batalha Contra o Coronavírus, Faltam Líderes à Humanidade", de Harari, ou "O Amanhã Não Está à Venda", de Krenak, ambos publicados pela Companhia das Letras.

Mesmo com estilo, foco e abordagem completamente distintos, em "O Fim Está Sempre Próximo - Momentos Apocalípticos, do Colapso da Idade do Bronze até Ameaças Nucleares" Dan Carlin dialoga involuntariamente com ideias sustentadas por Krenak e Harari. Apesar de o título soar apelativo e perfeitamente pensado para este momento de pandemia, é válido fazer uma defesa de Carlin: a obra foi publicada originalmente em outubro de 2019, quando ainda não vislumbrávamos o vírus que nos aterrorizaria em poucos meses. Já a versão nacional, lançada pela HarperCollins Brasil com tradução de Flora Pinheiro, me chegou há poucas semanas, quando o álcool em gel já era produto essencial.

Mas eu falava que Carlin dialoga involuntariamente com ideias defendidas por Krenak e Harari. Como este, o autor acredita piamente que vivemos no melhor mundo que já existiu (tenho minhas dúvidas sobre isso); como aquele, Carlin enxerga que o planeta não precisa acabar por completo para que certas civilizações vivenciem o seu próprio fim de mundo. Com essa perspectiva que Carlin leva o leitor a diversos momentos do passado para lembrar de crises provocadas por doenças, fome, migrações em massa, revoltas ou sistemas colapsados responsáveis por históricos pontos finais (ou algo próximo disso).

Carlin é a voz por trás do podcast "Hardcore History", para o qual produz episódios que costumam durar mais de quatro horas e que alcançam milhões de ouvintes. Ao gosto do homem médio contemporâneo, assume-se como um leigo que lida com a história como "um não especialista, pois é o que sou". Em "O Fim Está Sempre Próximo", ao menos entrega ao leitor um texto acessível e saboroso, com pegada ensaística, ainda que por vezes se prolongue mais do que o necessário em certas questões ou períodos históricos.

Outro problema da obra é a perspectiva adotada pelo autor. "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse são comumente chamados de Conquista (ou Peste), Guerra, Fome e Morte. Em grande parte do mundo moderno, eles não parecem mais tão assustadores quanto costumavam ser", escreve em determinado momento. Bem antes, ao desenhar um cenário apocalíptico, Carlin convidava o leitor para imaginar o caos tomando conta de Nova York, Tóquio ou Londres. Quem olha para essas cidades (ou para países como Estados Unidos, Japão e Inglaterra), até pode pensar que problemas como a fome, a morte e a guerra são hoje cavaleiros apocalípticos aposentados ou com pouco trabalho, mas vai lá ver o que se passa no Sudão do Sul, Líbia ou Síria. Na verdade, é difícil achar algum canto do planeta completamente livre desses males que só não assustam ainda mais gente graças à falta de empatia.

Divulgação.
Imagem: Divulgação.
Por falar nisso, um bom ponto para uma reflexão. "A história mostra que nossos avós, sem dúvida, eram capazes de usá-las. Existe hoje alguma situação em que os cidadãos (ao contrário de governos) considerariam isso aceitável?", indaga Carlin ao falar sobre a bomba atômica e a iminência de um conflito nuclear explodir o mundo durante a Guerra Fria. Respondo olhando para o que vemos hoje nas ruas do Brasil. Se pessoas não conseguem seguir uma orientação tão simples quanto ficar em casa para salvar vidas próximas, será que se importariam mesmo com uma bomba sendo arremessada na cabeça de desconhecidos de outro continente? Arrisco dizer: o povo que empina pipa e faz churrasco nos botecos aqui do Tucuruvi não se preocuparia muito com isso.

E assim entramos no fim mais próximo que podemos projetar em nossos dias. Ao tratar especificamente de pandemias, Carlin lembra de como temos certo privilégio. "Nenhuma praga atual nos faria entender como era a vida dos nossos antepassados, porque nós, seres humanos modernos, compreendemos a ciência básica por trás de tudo isso, ao contrário deles. [...] Durante a maior parte da história, ninguém entendia doenças ou germes". Hoje, pelo menos, sabemos que é o tal de Sars-CoV-2 que anda nos atazanando.

Ao supor o que poderia causar o fim de certos mundos (ou do mundo inteiro) no futuro, Carlin elenca algumas possibilidades: danos ambientais, incapacidade de sustentar níveis modernos de consumo, falta de energia e eletricidade para atender toda nossa demanda, um asteroide, algum vírus... É curiosa a forma como o autor trata desse último ponto: "Pensar o mundo do século XXI sendo assolado por uma grande praga como as pandemias do passado é fantasia, mas, também, é algo possível e que aconteceu muitas vezes antes". Bons tempos quando, há poucos meses, a ideia de algo do tipo não passava de fantasia.

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