Topo

Coluna

Chico Barney

Série com Drauzio Varella é a redenção de Casagrande como herói

Reprodução/Globo
Drauzio Varella e Casagrande em "Prisão Química: Casagrande e a Luta Contra Cocaína" Imagem: Reprodução/Globo
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

28/05/2018 22h41

Reinou durante muito tempo na cultura popular a imagem do herói como um ser infalível. Como a mais reluzente tradução de ideais romantizados, livres de maiores conexões com a realidade. Essa figura ajudou a estabelecer uma visão extremamente maniqueísta do mundo.

Nos quadrinhos, não é à toa que o maior ícone dentro desse perfil seja um alienígena. Superman é mais que um homem - e por isso foi ficando menos popular com o passar dos anos. A Marvel foi na contramão dos preceitos anódinos que eram o apelo dos super-heróis tradicionais. Todo mundo é um pouco desgraçado das ideias. E aquilo que torna um personagem especial também tem ligação íntima com o que atrapalha sua vida. É algo bem mais relacionável com a minha vida ou a sua, prezado leitor.

O maior clichê das histórias do Homem-Aranha é “com grandes poderes vem grandes responsabilidades”. É a frase que Tio Ben ensina ao jovem Peter Parker pouco antes de morrer - por um criminoso que o escalador de paredes deixou fugir por puro descaso. O equívoco define o resto de sua vida: escolher entre a autocomiseração ou tirar uma lição daquilo e trabalhar por uma contenção de danos.

Quando um cara com a relevância do Walter Casagrande Júnior decide deliberadamente dividir sua história com o público, muitas vidas serão tocadas. O ex-jogador é ídolo nos times por onde passou e é o principal comentarista de futebol da Globo. Em um país tão carente de educação, o tipo de atenção que ele atrai para assuntos importantes pode ter efeitos redentores.

“Prisão Química” é mais um excelente trabalho do médico Drauzio Varella, que há alguns anos também figura entre os melhores contadores de história do jornalismo brasileiro. Partindo da jornada de Casagrande, acompanhamos os passos de outros cidadãos tentando domar os efeitos da dependência química.

Com o pragmatismo sensível que dá corpo à obra do nobre doutor, a audiência do Fantástico conhece os bastidores de uma luta que ainda é vista com muito preconceito por grande parte da sociedade, que não compreende tratar-se de uma doença.

Casagrande poderia cuidar de seus demônios no conforto da privacidade, mas prefere encarar o julgamento de peito aberto e, assim, fazer a diferença para muitas pessoas que têm menos acesso e informação do que ele. É um altruísmo digno dos melhores heróis que conheço.

Dá pra ver os dois primeiros episódios de “Prisão Química: Casagrande e a luta contra cocaína” no site do Fantástico, que também possui um link com locais para pedir ajuda. O último capítulo vai ao ar no próximo domingo.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

Facebook Messenger

Receba as principais notícias do dia. É de graça!