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Chico Barney

Está na hora de "Malhação" voltar a respeitar a própria cronologia

TV Globo/Divulgação
Miyuki (Danielle Suzuki) e Cabeção (Sérgio Hondjakoff) Imagem: TV Globo/Divulgação
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

10/03/2018 04h00

Estreou nessa última semana outra temporada de "Malhação", o novo dramalhão das 17 horas. “Vidas Brasileiras” é o título da trama, adaptação de um sucesso do Canadá. E pela primeira vez desde a estreia da novelinha jovem, no já distante ano de 1995, a protagonista é uma adulta que não está fingindo ser adolescente. Camila Morgado encontra-se confortável no papel da professora que decide largar a escola particular para dar aulas a alunos de baixa renda.

A nobre atitude da eterna Olga abre espaço para que diferentes histórias sejam contadas a cada quinzena, sempre mudando o aluno em foco. Tudo muito bacana, as intenções parecem ótimas, embora o Canadá seja mais conhecido por Celine Dion do que bons programas de TV.

Meus principais questionamentos a respeito do atual momento da Malhação são de ordem moral e cívica. Onde está Cabeção? Que fim levou o colégio Múltipla Escolha? O Professor Afrânio conseguiu se livrar da cadeia? A Magali ainda estabelece contatos imediatos do terceiro grau? E o Pasqualete, alguém sabe me informar se está tudo bem com ele?

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Nuno Leal Maia como o professor Paqualete Imagem: TV Globo/Divulgação

Durante muitos anos, Malhação foi um experimento dramatúrgico fascinante. Ano após ano, as histórias daquele universo ficcional eram criadas por grupos diferentes de autores. Cada titular ia colaborando com sua visão acerca de personagens e cenários. Na época da academia e no colégio que veio a seguir, a novela foi nossa versão para universos compartilhados como o da Marvel.

Por mais que protagonistas mudassem e personagens ganhassem maior ou menor destaque, invariavelmente saindo de cena quando os 30 ou 40 anos já pareciam indisfarçáveis na telinha, tratava-se de uma história sem fim. A continuidade podia ser cheia de buracos, mas os personagens eram conscientes do mundo em que viviam e tinham lembranças sobre temporadas passadas.

O próprio Cabeção surgiu como irmão atrapalhado de um galãzinho. Os romances foram mudando e a obra-prima de Serginho Hondjakoff sobreviveu gloriosamente, aventurando-se em novas emoções com outros personagens.

Eis que "Malhação" virou o nome da faixa em que são exibidas diferentes novelas água com açúcar. Agora é nome de sessão, como Tela Quente, Domingo Maior e Corujão. Os verdadeiros títulos vem na sequência: "Seu Lugar no Mundo", "Viva a Diferença" e outros.

O maior laboratório da TV brasileira se tornou uma série de antologia, como "American Horror Story" e tantas outras atrações por aí. Acho uma pena. Em vez de recomeçar tudo do zero anualmente, seria ótimo ver de volta alguns personagens do passado, retomar a cronologia e revisitar antigos núcleos.

Enquanto isso, ficamos aqui especulando sobre a situação atual de Dona Vilma, Bigodão e Solene. Voltamos a qualquer momento com novas informações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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