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Chico Barney

Com Whindersson e Tom Cavalcante, "Os Parças" é um filminho sem vergonha

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Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

29/11/2017 04h00

"Os Parças" é um filminho sem vergonha. E digo isso com as melhores intenções e, sobretudo, impressões. É um filminho porque não tem qualquer pretensão além de divertir o cidadão brasileiro por algo em torno de 90 minutos. Sem qualquer pudor de ser feliz, cumprindo tal missão com tranquilidade.

Trata-se de um fiapo de história. Tom Cavalcante provoca um "corno", vivido com graça pelo Seu Beiçola da "Grande Família". Whindersson e Tirulipa, praticando pequenos golpes na região da rua 25 de março, confundem a tentativa de assassinato proveniente das ações de Tom com uma rapa da polícia. E aí tem o Bruno de Luca, que acaba levando os desconhecidos para a agência de casamento onde trabalha, cujo dono é Oscar Magrini.

O argumento inicial é um rascunho de esquete d'Os Trapalhões. Mas daquela fase, daquela mesmo, quando não tinha coré coré com os caras. Tom é Didi, Bruno é Dedé, Whindersson e Tirulipa se revezam como Mussum e Zacarias o tempo todo.

Para apreciar "Os Parças", contudo, convém lembrar que as situações criadas não passam de plataforma para os protagonistas brilharem. Se a história começa de maneira absolutamente inconsistente, a sucessão de eventos a partir do encontro dos quatro faz com que o filme ganhe ritmo e eloquência. E é muito engraçado, quase o tempo todo, depois dos primeiros 15 ou 20 minutos.

É inevitável que a gente fique buscando por gabaritos pré-estabelecidos, principalmente dos filmes americanos. Essa não parece ser a busca de Claudio Torres Gonzaga, o roteirista, ou Halder Gomes, o diretor. E melhor assim. Claro que o jeito truncado da formação do grupo incomoda, e as referências estéticas absolutamente aleatórias e fora de qualquer linearidade também não são fáceis de digerir.

Em alguns momentos, o filme tem intervenções de arte e edição que parecem o reel de um publicitário apaixonado por filmes de profissionais equivocados que gostavam muito de Quentin Tarantino ou coisa que o valha. Mas nada disso atrapalha a alegria de ver excelentes artistas brilhando com a brejeirice do humor deveras brasileiro.

Tom Cavalcante está ótimo, principalmente pela generosidade de não se assumir como único destaque do filme. Está junto e misturado com a rapaziada da nova geração, tanto que a diferença de idade nem se faz notar. Whindersson e Tirulipa são um show à parte, impressionante o talento e a química desses dois. Espero que a performance faça crítica e público ignorarem quantos milhões de seguidores Whindersson tem no YouTube e passem a focar no gigantesco humorista que ele é. E o Bruno de Luca, caricato com o sotaque de paulista, também surpreende como o mocinho de um enlace romântico que não faz sentido nenhum, mas garante ótimas risadas.

É curioso que todo mundo está muito bem no filme. Oscar Magrini é brilhante como o cara que quer ser mais picareta que os picaretas. Paloma Bernardi faz um papel difícil, de mocinha e filha de bandido, em uma narrativa que também carece de nexo, e consegue brilhar do jeito que merece. Taumaturgo Ferreira entrega o melhor papel de sua carreira desde, sei lá, "Top Model", que foi quando foi visto pela última vez. Ricardo Macchi faz uma participação especial comovente. E ainda tem o Carlos Alberto de Nóbrega em um momento de pura catarse, genial.

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Carlos Alberto de Nóbrega é um traficante colombiano em “Os Parças” Imagem: Divulgação

Existe uma trilogia de comédias italianas chamada "Amici Miei", que no Brasil ganhou a alcunha de "Meus Caros Amigos". O primeiro filme, indispensável, é de 1975, dirigido pelo fascinante Mario Monicelli. O internautinha que for assistir a essa obra-prima com os olhos ignorantes da era pós-blockbuster, consegue até ver algum valor, mas vai desconfiar de tudo porque é antigo e europeu. Porém creio que o tempo tenha menos a ver com essa estranheza, mas a nacionalidade.

Para repetir um clichê dos mais rasteiros, somos acostumados a prestigiar pacotões bem resolvidos de entretenimento gentrificado via Hollywood, via Globo, via Netflix. Ver "Os Parças" na telona é um privilégio até por conta dessa quebra. Se "Amici Miei" é um retrato divertido da distopia italiana daquela época, "Os Parças" exibe com leveza o Brasil feio, mal-encarado e decadente ao qual não estamos mais acostumados a nos divertir assistindo. Mas não podemos perder a graça.

Colonizado que sou, o comentário mais positivo que posso tecer é que torço para que o filme se torne uma franquia. Que o quarteto retorne em remessas anuais, talvez vire desenho animado e história em quadrinhos. Uma série na Netflix. Estampa de caixa de cereais, talvez. Já faz tempo desde a última vez que algo tão despretensioso e engraçado deu certo por aqui. Espero que o inevitável sucesso de "Os Parças" venha representar a retomada dos filminhos sem vergonha.

Fecha a conta e passa a régua.

Voltamos a qualquer momento com novas informações.

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