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Chico Barney

Anitta, a Grande, conseguirá conquistar o mundo?

Manuela Scarpa e Marcos Ribas/Brazil News
Imagem: Manuela Scarpa e Marcos Ribas/Brazil News
Reprodução
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

05/09/2017 09h09

Na introdução do livro "Uma História Cultural da Rússia", o autor Orlando Figes chama atenção para um trecho de "Guerra e Paz", obra fundamental de Leon Tolstoi. A cena em questão trata da desenvoltura com que Natasha, jovem da aristocracia, dança uma canção camponesa que jamais havia ouvido.

"O que permitiu a Natasha captar tão instintivamente o ritmo da dança? Como pôde entrar tão facilmente nessa cultura da aldeia da qual, pela educação e pela classe social, estava tão afastada? Devemos supor, como Tolstoi nos pede nessa cena romântica, que uma nação como a Rússia pode se manter unida pelos fios invisíveis de uma sensibilidade nativa?".

A resposta do autor vem nas mais de 800 páginas seguintes da formidável obra lançada recentemente pela editora Record.

Mas essas questões me vieram à mente quando ouvi a nova música da Anitta, "Will I See You".

Pedro, o Grande, levou para a Rússia hábitos europeus no intuito de ocidentalizar seus súditos, mas muito do espírito russo permaneceu incólume ao longo das décadas.

Anitta, a Grande, também age com muito pragmatismo no sentido de universalizar cada vez mais sua retórica. É curioso como nada soa particularmente brasileiro. Apesar de ter surgido no funk carioca, já faz tempo que a cantora não inclui qualquer traço regional em seu trabalho.

Isso porque não há nada mais forte do que a identidade pós-nacional nessa realidade onde millennials como Anitta nasceram com uma janela escancarada para o mundo por meio da internet.

Não é à toa que em todos os comerciais em que participa, a cantora apareça com um celular em punho. Ela é a mais palatável materialização de uma sociedade que possui cada vez menos diferenças culturais por questões geográficas.

Os jovens consomem coisas muito parecidas, independente de estarem nos subúrbios do Rio de Janeiro ou perto da casa de Chico Buarque em Paris.

O crescente ultranacionalismo observado em grandes centros e a crise envolvendo refugiados na Europa demonstram que estamos vivendo no limiar de uma nova fase, onde os efeitos da globalização encontram-se em franca decadência.

Do ponto de vista mercadológico, isso pode representar um desafio a mais na capacidade de Anitta comover a molecada acima da linha do Equador. Mas dificilmente significará um impeditivo.

A talentosa carioca vem fazendo história por conta do planejamento estratégico que usa para guiar sua carreira. Mas nem tudo pode vir da frieza dos brainstorms com executivos com cargos de nome engraçado ou tabelas de Excel.

O que permite captar instintivamente o ritmo da grande dança universal é o fato dela também ser uma jovem consumidora voraz do formidável pastiche que é a cultura popular.

Por mais que os radicais tenham pretensões de provar o contrário, hoje nos mantemos unido pelos fios invisíveis de uma sensibilidade global, e não mais meramente nativa.

Relembro outra vez a questão russa: a cidade de São Petersburgo foi criada por Pedro, o Grande, na intenção de incluir a Rússia na modernidade ocidental. Foi atrás de "colabs" e "feats" com o que havia de mais brilhante na inteligentsia internacional. A carreira da cantora parece depositar expectativas similares no projeto CheckMate.

Dostóievski escreveu que a cidade parecia a mais "intencional e abstrata em todo o mundo". Há o risco de Anitta, a Grande, ser perseguida pelos mesmos adjetivos em sua empreitada, mas isso certamente não diminuirá seu tamanho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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