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Chico Barney

Como Ivete e Claudinha tentam continuar relevantes no Brasil pós-Anitta

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Imagem: Divulgação
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

15/08/2017 13h49

Ivete Sangalo e Claudia Leitte lançaram clipes recentemente. Nossa reportagem foi ao YouTube entender como as artistas pretendem continuar relevantes no fascinante Brasil pós-Kondzilla e Anitta, responsáveis por injetar novo fôlego em nosso mercado audiovisual.

"Baldin de Gelo" - Claudia Leitte

A música da menina que levou um pé na bunda do namorado e agora só quer curtir não chega a ser ruim --muito pelo contrário. A nova tour de force de Claudia Leitte é popular na medida certa, mas curiosamente prejudicada pela intérprete.

Claudinha é uma camaleoa. A cada novo trabalho, ressurge com as cores e texturas da estação, contando histórias que sejam parecidas com qualquer coisa que esteja dando certo. Como os répteis da família Chamaeleonidae, contudo, a estratégia faz a cantora se misturar à paisagem em vez de se destacar.

Cantar em espanhol, colocar roupas coloridas, dançar como a Shakira e contar uma história adolescente não parece ter nenhuma relação com o que se espera dela. O excesso de produção parece mascarar uma angustiante falta de substância, em vez de exaltar algum traço de personalidade.

Os números são um tanto cruéis com "Baldin de Gelo". Mesmo o esforço dos fãs para burlar as métricas do YouTube não vem ajudando a turbinar a performance do clipe. Lançado há dez dias, penou bastante para fechar 2 milhões de visualizações.

Para efeitos de comparação: "Regime Fechado" de Simone & Simaria conseguiu quase 9 milhões em apenas quatro dias. E até "O Faraó Voltou pra Tumba" de MC Bin Laden já teve mais de 3 milhões e meio de visualizações --sendo que foi lançado uma dia depois do clipe de Claudinha.

Há quem diga que o "Desafio do Baldin de Gelo" é ouvir a música até o fim. Divirjo. Mas creio que seria um sucesso melhor resolvido na voz de alguém mais alinhado à proposta conceitual, como Ludmilla ou MC Guimê.

"À Vontade" - Ivete Sangalo & Wesley Safadão

Ivete Sangalo resistiu com bravura ao processo da própria gentrificação. A mesma sorte não teve Wesley Safadão. Cada vez mais genérico, o Pitbull dos trópicos faz presença VIP nas músicas de quase todo mundo com acesso a um estúdio de gravação.

Apesar de sinalizar para um remelexo eletrônico que poderia soar como uma resposta pra lá de mercadológica ao sucesso de Anitta, "À Vontade" chega a parecer uma música da Ivete Sangalo.

Um pouco esquisita na primeira audição, ela vai se agravando até grudar de maneira irremediável na cabeça. Isso é característico nos melhores sucessos da cantora, que são mesmo como dor nas costas --você acaba se acostumando.

Devemos admitir que o clipe infelizmente ficou aquém até das expectativas mais tímidas. Uma homenagem sem eira nem beira ao filme "Grease - Nos Tempos da Brilhantina" (1978), além da edição absolutamente equivocada que faz parecer que a internet não está carregando direito. A ideia de realizar a première no "Fantástico" também não foi algo particularmente alinhado a uma sociedade que superou há tanto tempo o bug do milênio.

Mas é louvável que artistas do quilate de Ivete e Claudinha tenham percebido a importância de ir além das gravações de shows ao vivo. Devemos isso a Anitta, Nego do Borel e todos os funkeiros que criaram uma nova linguagem para o meio.

E fica aqui um apelo: o próximo grande acontecimento da indústria do entretenimento brasileiro precisa ser Ivete Sangalo dirigida por Kondzilla.

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