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Chico Barney

Mr Catra Racional: A esquecida fase gospel do funkeiro

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Mr Catra em cena do clipe "Pepeka Chora" em homenagem à ex-namorada Imagem: Divulgação
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

28/07/2017 13h19

Em dado momento dos loucos anos 70, Tim Maia resolveu que já havia se divertido demais e acabou entrando para a seita Cultura Racional. O breve período de fé professada por um dos mais elevados nomes da música mundial garantiu discos até hoje celebrados como fundamentais.

Oriundo da mesma Tijuca que nos presenteou com o saudoso Dom Maia, Mr Catra também se encantou pelos desígnios divinos, o que rendeu ótimas passagens de sua pitoresca discografia.

Os dois primeiros trabalhos de Catra, "Bonde do Justo" de 1995 e "O Esconderijo do Altíssimo" de 1996, traziam todo o sincretismo microfonado de nossa cultura popular.

Entre alguns famigerados proibidões, com crônicas saborosas sobre o cotidiano da bandidagem, o funkeiro até mantinha a libido sob controle. Pouca coisa do primeiro álbum remete ao artista que atualmente lança sutilezas pós-eróticas como "Pepeka Chora" e "Senta em Mim".

O clássico "Retorno de Jedi", além da curiosa referência a "Star Wars", abre com uma insuspeita citação ao salmo 23. E não para por aí: a música apresenta os perfis daqueles que não merecem ser salvos.

Bolidor, tu vai e o retorno é de Jedi
Bilha, tu vai e o retorno é de Jedi

X-9, tu vai e o retorno é de Jedi
Conspirador, tu vai e o retorno é de Jedi

Deus não fez de um homem um réu, existe o juízo eterno:
Se tu crer tu vai pro céu, não crendo, vai pro inferno
Pense bem no seu futuro, que vale mais que essa vida
Com o Justo estará seguro lá na Terra Prometida.

O trabalho seguinte já começava a indicar que o sexo seria a marca de sua carreira, o que deixou a mistura ainda mais curiosa. Ao formatar uma espécie de gangsta-gospel pornô, Catra estabeleceu seu legado.

Se fazia ameaças pouco sutis em músicas como "Vacilão Vai Virar Carvão”, acalmava os ânimos com a balada "Líquido do Amor" e ainda louvava ao Senhor na faixa-título "O Esconderijo do Altíssimo".

Essa última, por sinal, é certamente a mais interessante dos anos de formação do cantor. Uma versão suingada para Salmos 91.

A importância da fé nesse caldeirão de emoções fica ainda mais clara no hit "Seja Humilde":

"Seja humilde, pense bem / Se não fosse Jesus Cristo / Catra não era ninguém".

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