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Chico Barney

Como um livro de receitas arruinou centenas de vidas

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William Powell no lançamento de "O Livro de Receitas do Anarquista", em 1969 Imagem: Reprodução
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

24/07/2017 14h32

Alguns livros fazem tanto sucesso que acabam provocando um intenso impacto cultural e se tornam verdadeiros ícones.

"Harry Potter" criou um novo gênero, o famigerado "young adult", que movimenta bilhões de dólares por ano. "O Senhor dos Anéis", por sua vez, acabou diminuindo drasticamente o número de matrimônios em determinado espectro demográfico, ao mesmo tempo em que impulsionou a venda de bonequinhos e fantasias para adultos.

Podemos falar também da transformação turística que Santiago de Compostela sofreu graças às reflexões de Paulo Coelho em "Diário de um Mago", ou sobre o aquecimento do mercado de palestras motivacionais, cuja origem remete aos livros de Augusto Cury.

Mas nada disso é páreo para a triste relevância de "O Livro de Receitas do Anarquista". A publicação se tornou célebre por ser o livro de cabeceira dos jovens desajustados que nutriam certo interesse em assassinar colegas de colégio ou estranhos no cinema.

Trata-se do mais irresponsável produto literário de todos os tempos, um infame manual ilustrado do caos e da desordem. O guia ensina a construir armas e bombas, fraudar o sistema financeiro e produzir drogas no aconchego do lar.

Exemplares do livro foram usados pelos responsáveis por diversos massacres ao longo dos últimos 40 anos, inclusive em tragédias como a de Oklahoma em 1995 e Columbine em 1999.

É até normal que o primeiro livro seja motivo de constrangimento para um autor. Mas nenhum causou tantos problemas quanto a estreia de William Powell. O documentário "American Anarchist" traça um interessante perfil do homem que facilitou o caminho para tantas histórias tristes.

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William Powell no documentário "American Anarchist", 2017 Imagem: Reprodução

Powell tinha 19 anos quando o livro foi lançado --em 1969, período de plena ebulição da contracultura e variadas convulsões sociais na América. E passou o resto da vida recluso, vivendo bem longe dos Estados Unidos para evitar a notoriedade maldita de sua obra mais popular.

"American Anarchist" é um bom filme para entender o que acontece quando a rebeldia juvenil tem o azar de se tornar influente para além do discurso. Com 2 milhões de cópias vendidas, "O Livro de Receitas do Anarquista" encontra-se em sua 29ª edição e surpreendentemente pode ser adquirido em livrarias nem um pouco obscuras.

A versão disponível atualmente na Amazon tem frustrado seus compradores. As resenhas reclamam que o livro foi "saneado" pelas autoridades e todas as receitas "divertidas" foram suprimidas.

De qualquer forma, reforço que é uma péssima ideia para o "amigo secreto" da firma.

SERVIÇO

"American Anarchist"
Documentário disponível na Netflix
Cotação: 25 anos de prisão, de 30 possíveis

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