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Chico Barney


Como a Marvel se transformou no império da ansiedade

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Stan Lee, a lenda da Marvel, só na espreita para ver se você está acompanhando tudo atentamente Imagem: Reprodução
Chico Barney

Chico Barney

Entusiasta e divulgador da cultura muito popular. Escreve sobre os intrigantes fenômenos da TV e da internet desde 2002.

21/07/2017 04h00

Acredito que a indústria de quadrinhos foi a primeira a perceber que seu público sofria de uma intensa crise de ansiedade. E conseguiu muito sucesso ao moldar todo o mercado com o intuito de agravar tal condição.

Há anos que as edições são anunciadas com um trimestre de antecedência. Existe a justificativa técnica de que os lojistas precisam definir quais revistas vão comprar, é verdade. Mas o fato é que essa manobra faz o público passar muito mais tempo discutindo o que pode vir a acontecer no futuro em vez de todas as maravilhas que estão acontecendo nas revistas que já estão à venda.

O cliffhanger (um recurso utilizado na ficção, colocando o personagem em uma situação limite) deixou de ser meio para se tornar fim. Não existe muita gente falando sobre o conteúdo dos quadrinhos em si --a maior parte do conteúdo que esbarramos por aí trata de confabulações especulativas a respeito de anúncios enigmáticos de grandes editoras.

São os rumores que levam o mercado para frente, ao mesmo tempo que emburrecem as discussões, mais confundindo que qualquer outra coisa. Com o sucesso das adaptações cinematográficas da Marvel, essa máquina de deixar gente triste passou a operar em escala ainda maior.

São quase dez anos de filmes do tal universo cinematográfico inspirado nas histórias da editora. Robert Downey Jr. com a armadura do Homem de Ferro já é uma presença mais certa que o inevitável Woody Allen na programação anual de Hollywood. Mas quem se importa com o que passou?

Ao fim das 2 horas de explosões coloridas e diálogos engraçadinhos, o relevante é procurar guias para entender os easter eggs e elucubrar a respeito do que acontecerá nos capítulos seguintes da interminável jornada dos heróis --sem contar os acalorados debates sobre cenas pós-créditos, evidentemente.

Não me surpreenderia se revelassem que a Disney possui alguma patente de ansiolíticos, pois os burocratas da empresa fizeram questão de divulgar há alguns anos toda a programação de filmes até o então longínquo 2020.

Foram meses de especulação sobre quem seriam os protagonistas de filmes que sequer tinham roteiro, como Capitã Marvel, Pantera Negra, Doutor Estranho, dentre outros. E o mais surreal: os lançamentos do último ano dessa agenda tiveram apenas suas datas anunciadas, para que o público tivesse a oportunidade de debater também sobre quais serão os títulos, os heróis e as histórias.

O afã de divulgar novidades a perder de vista funciona como se fosse um crediário da Casas Bahia em que você compra felicidade e paga com pequenas parcelas de sua sanidade espiritual.

Depois de lançar "Guardiões da Galáxia Vol. 2" em abril e "Homem-Aranha: De Volta ao Lar" na semana passada, a Marvel colocou na praça teasers, trailers e spots de tudo o que vem por aí: séries na TV aberta, séries na Netflix e até de três filmes ao mesmo tempo --para que ninguém entenda direito se o próximo filme desse ano será Thor, Pantera Negra ou Vingadores.

O entusiasta padrão desse tipo de entretenimento certamente será alvejado com os raios cósmicos da ansiedade durante a corrente edição da San Diego Comic-Con, graças à revelação de mais uma porção de desinformações. O superpoder advindo disso não será outro senão algum nível de frustração.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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