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Parece que o jogo virou: quando o oprimido zoa o opressor

JoaoSeuPimenta -  Florian Boccia
JoaoSeuPimenta Imagem: Florian Boccia
Andreza Delgado

Andreza Delgado, baiana da terra do cacau, é uma das criadoras da Perifacon, a Comic Con da favela. Tem um canal no YouTube para resenhar séries, HQ's, filmes e livros e o game perifa, mas quando dá tempo tuíta pelos cotovelos.

Colunista do UOL

29/07/2020 13h59

Com 745 mil inscritos no seu canal no YouTube, Seu Pimenta TV aposta na mistura do universo nerd com a gastronomia e histórias pessoais para fazer humor e contar boas piadas. Isso sem cair na onda de reclamar do "politicamente correto", como muitos de seus colegas ainda insistem em fazer em pleno 2020. Criador do canal, João Pimenta viralizou na internet com um quadro chamado "Larica do Ódio", onde faz receitas enquanto "tira um barato" com a preguiça dos filhos que moram com suas mães e não ajudam no trabalho doméstico.

Um problema que ficou ainda mais evidente em tempos de quarentena

Num papo diretamente da Favela da Pojuca, em Salvador, João me arrancou boas gargalhadas, enquanto me falava sobre seu início no stand-up comedy e a responsabilidade de quem faz humor.

A forma irreverente de João contar um "causo" é o que chama atenção. Seu poder de narrar uma história e torná-la cômica é surpreendente.

Por exemplo, quando ele nos explica como foi pegar um carreto numa mudança e quase morreu por causa do motorista que dirigia sem precaução nenhuma.

Isso poderia ser descrito simplesmente assim como fiz, mas quando é João que conta você se acaba de rir. Eu prometo.

O talento para tirar humor das situações mais banais começou a ser lapidado desde cedo.

João explica que contava muitas histórias desde quando era guri. Na roda de amigos, ele era sempre escolhido para narrar um fato por conta da riqueza de detalhes que trazia. O humorista acredita que isso se dava por ser observador, daqueles que gostam de registrar cada momento.

Eu gostava de reproduzir as histórias a que assistia nos filmes e nos desenhos com a riqueza de detalhes

Suas histórias foram se espalhando, e ele conta que sempre foi incentivado a fazer do humor uma profissão, desde que passou a integrar um projeto social que abordava questões sociais e perspectiva de trabalho para jovens carentes. Só que tudo aconteceu naturalmente. João já está produzindo conteúdo na internet há uma década, e vai completar 15 anos trabalhando com humor.

Vendo os vídeos, ninguém diz, mas João conta que tinha problemas para se apresentar em público. Para ele, o humor foi importante para quebrar essa barreira.

HOJE EU FALO DE DARK - PARTE 2 Desta vez diretamente do Pimentaverso

Uma publicação compartilhada por João Pimenta (Seu Pimenta) (@joaoseupimenta) em

Segundo João, seu primeiro show foi desastroso, ninguém ria:

Só que eu ganhei R$ 35, estourei tudo de pastel na praça

E a festa do pastel foi incentivo suficiente para ele continuar estudando e aprimorando suas técnicas.

Perguntei para Pimenta como ele se sente sendo um homem negro apreciador da cultura nerd. Ele falou dos avanços tímidos nessa área, ainda dominada por uma classe média branca, mas que torce pela diversidade e fica feliz com as discussões sendo colocadas.

João ri do que ele chama de "nerd puto" —aquele que grita muito nas redes sociais contra os avanços em termos de diversidade— ao mesmo tempo que entende o papel de educar uma galera que se comporta de forma ignorante.

Se você é nerd, curte 'X-Men' e é racista, você entendeu tudo errado.


O Brasil ainda é um país que ainda está engatinhando em relação às discussões sociais dentro da comédia. Porque durante muito tempo a comédia aqui foi feita em cima de estereótipos machistas, de banheiro público e de relacionamento

Pimenta faz parte da cena de stand-up da Bahia, onde existe uma movimentação de "oprimir o opressor social". Zoar com quem sempre o sacaneou, sabe? Ele até destacou o choque que foi ver pela primeira vez comediantes começando seus shows com frases como "tem racista no ambiente". Para ele, isso é um caminho sem volta.

A gente tem uma preocupação muito grande com as discussões sociais em nossos trampos, e quem não tem vai ser só limado

Mesmo com o sucesso —que o garante muito mais que os R$ 35 que tirou de cachê na sua estreia nos palcos— João acredita que ainda não "estourou", mas assume que seu conteúdo tem atingido uma galera, sim.

Terminei a entrevista pedindo indicações de humoristas que têm a mesma pegada de Pimenta. Ele, bairrista como é, deixou nomes da comédia baiana, os seus conterrâneos que querem trazer uma nova cara ao humor no Brasil: Samuel Belmonte, Thiago Banha, Jordan Matheus, Matheus Buente, Gabriel Caldas e Juninho Brandão.