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Os últimos suspiros de John Huston

Peter Bogdanovich e John Huston em "O Outro Lado do Vento" - Divulgação
Peter Bogdanovich e John Huston em "O Outro Lado do Vento" Imagem: Divulgação
André Barcinski

André Barcinski é crítico do caderno "Ilustrada" e escreve também no caderno ?Comida?, ambos da ?Folha de S.Paulo?. É diretor e produtor do programa "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", no Canal Brasil.

Colunista do UOL

28/07/2020 09h19

Resumo da notícia

  • John Huston (1906-1987), um gigante do cinema, aceitava fazer filmes péssimos para bancar projetos pessoais como a trilogia que encerrou sua carreira

John Huston (1906-1987) foi um dos maiores cineastas de todos os tempos. Dirigiu clássicos como "O Falcão Maltês" (1941), "O Tesouro de Sierra Madre" (1948), "Uma Aventura na África" (1951), "Os Desajustados" (1961) e "O Homem que Queria Ser Rei" (1975).

Huston é considerado um dos maiores nomes da fase de ouro do cinema hollywoodiano dos anos 1940 e 1950 e influenciou toda a geração que despontou nos anos 1970, como Scorsese, Coppola e Friedkin.

O que poucos cinéfilos lembram é que Huston teve uma fase gloriosa no fim da carreira, perto dos 80 anos de idade, quando fez, na sequência, três filmes antológicos: "À Sombra do Vulcão" (1984), "A Honra do Poderoso Prizzi" (1985) e "Os Vivos e os Mortos" (1987). Foi uma despedida e tanto.

Huston era um leitor obsessivo e dirigiu várias adaptações de romances, incluindo seus três últimos filmes. "À Sombra do Vulcão" é um livro do inglês Malcolm Lowry e conta os últimos dias na vida de um diplomata alcoólatra (Albert Finney) num vilarejo no México. "A Honra do Poderoso Prizzi" é uma comédia baseada em um "thriller" de Richard Condon em que dois assassinos de aluguel (Kathleen Turner e Jack Nicholson) são contratados para matar um ao outro. Já "Os Vivos e os Mortos" é uma adaptação de uma história de James Joyce.

Outro detalhe pouco lembrado sobre a carreira de John Huston é que, antes de dirigir essas três maravilhas, o cineasta fez três dos maiores abacaxis de sua carreira: o "thriller" de horror "Phobia" (1980), o pavoroso "Fuga para a Vitória" (1981), em que Sylvester Stallone e Pelé (juro!) lideram um time de craques que vencem os nazistas em uma partida disputada num campo de concentração, e o musical infantil "Annie" (1982).

Vejam a deslumbrante cena em que Pelé explica ao técnico Michael Caine sua tática futebolística:

E por que John Huston, um dos maiores nomes do cinema, aceitou dirigir três filmes tão abaixo de seu nível? A resposta é simples: dinheiro.

Huston era um bon vivant que, além da literatura, amava mulheres, bebida e jogo. Também era obcecado por pintura e gastava quase todo seu dinheiro comprando quadros e arte Pré-Colombiana. Costumava aceitar qualquer convite para atuar em filmes, fossem obras-primas como "Chinatown" (1974) ou porcarias como "Batalha do Planeta dos Macacos" (1973), só para pagar dívidas de jogo e apostas.

John Huston odiava Hollywood e o culto a celebridades. Via o cinema como um trabalho que usava para pagar por seus gostos e obsessões. Sua filha, a grande atriz Anjelica Huston, conta que seu então namorado, Jack Nicholson, tinha em Huston uma figura paterna. Quando John morreu, em 1987, depois de décadas fumando como uma chaminé e de ter sido diagnosticado com um enfisema, Jack chorou como uma criança: "Ele (Jack) via papai como exemplo de um verdadeiro artista, alguém que sempre fez as coisas a seu modo".

Uma ótima semana a todos.

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André Barcinski